JUVENTUDE: FUNDAMENTALISMO VERSUS BAJULAÇÃO E O FUTURO DE ANGOLA

 JUVENTUDE: FUNDAMENTALISMO VERSUS BAJULAÇÃO E O FUTURO DE ANGOLA

JUVENTUDE: FUNDAMENTALISMO VERSUS BAJULAÇÃO E O FUTURO DE ANGOLA

Por: Rafael Aguiar

 

Enquanto estudioso da sociologia política angolana, a minha percepção sobre as críticas (exacerbadas, para uns, e merecidas, para outros) a Marcy Lopes por ter aconselhado os angolanos na diáspora a esconderem os podres do país e promoverem a imagem de Angola é a seguinte:

1) desde 1975, que agenda real da geração da independência era de poder total, sem admitir concorrência. As elites da FNLA e da UNITA conseguiram colocar no lugar da imagem real, a imagem virtual. Eles entenderam que não era aconselhável, atendendo as simpatias internacionais, adoptar o sistema de partido único. Então do discurso político destas elites, foi estirpada a ideia de Partido único. Todavia, a cultura organizacional, bem analisada, não admitia concorrência e alternância política no interior destes movimentos de libertação nacional;

 

2) O MPLA assumiu manifestamente, na cultura comportamental e no discurso político, o socialismo e o sistema de partido único, também influenciado pelas amizades externas e pela paixão ideológica das elites decisivas do destino histórico do MPLA, nas décadas de 1960, 1970 e de 1980;

 

3) O MPLA ganhou a guerra pós-independência e implantou uma cultura política, comportamental monolítica e de anulação do adversário. A UNITA, que fez frente ao MPLA durante estes anos todos, teve que adoptar uma postura formalmente diferente, mas na essência, igual até para fazer face ao poderoso MPLA. Se o MPLA ganhou militar e politicamente, pois derrotou as FALA e manteve o poder político e econômico, mas simbolicamente perdeu, pois foi forçado a adoptar o sistema de partido multipartidário, a economia de mercado e a coabitar com antigos inimigos;

 

4) Ainda assim, o  resultado da esfrega politico-militar e ideológica em Angola foi a assimilação e consolidação, na mente da nova geração angolana,  do

inconsciente colectivo formatado pelo MPLA e pela UNITA que, na essência,  é igualzinho: intolerância, anulação de tudo e de todos que pensam diferente. A única diferença é que uns estão na oposição e outros no poder;

 

5) Agora, este inconsciente colectivo de intolerância, salvo se concorda consosco; de incoerência, salvo se o nosso interesse está em jogo; de poder pelo poder, sem escrúpulos, sem moral, sem verdade, salvo quando nos beneficia; sem respeito, salvo se é um fundamentalista ou bajulador ao nosso serviço; sem isenção, pois só é isenta atitude que nos dá razão ou vai de encontro com o nosso ponto de vista  e que infunde e promove a irracionalidade, sempre que for para a juventude pelejar pelos nossos objectivos e interesses e queimar tudo que nos faz afronta. Esta cultura política chegou também ao rubro, ao topo, ao máximo do lado de alguns círculos, não todos, da Oposição e da Sociedade Civil, tal como no MPLA;

 

6) Como consequência,  círculos da Oposição politica e da sociedade civil radicais estão adoptar exactamente a mesma postura antiga e actual do MPLA. Em alguns casos, começam a ser mais exímios do que os mestres;

 

7) O que mais preocupa é que alguns círculos, inclusive na Oposição e na sociedade civil, começam a se perguntar: “Se antes de se chegar ao poder, sem muito dinheiro, sem exército, sem armas, etc já se adopta esse comportamento do MPLA (no poder) e que tanto criticavam e criticam, o que será de nós ( os que exercitam independência e insenção), caso cheguem ao poder?”. Não se deve ignorar esta preocupação, contrariamente como agiu o MPLA. É preciso ouvir está voz que está a crescer em silêncio;

 

8) A outra situação que me preocupa é de que, alguns fazadores de opinião, jornalistas, ativistas cívicos começam a ter muito medo de falar e escrever  livremente (não é o meu caso, como sabem) sobre erros da Oposição política angolana, (tal como era em relação ao MPLA, à alguns anos atras) devido a elevada intolerância e espírito de linchamento contra opinião discordante, sobretudo nas redes, das elites da Oposição. E estes especialistas também começam a perguntar-se: “Se ainda não têm poder é assim, quando ganharem o poder, como será?”. Em vez de atirarem-se contra esta corrente, tal como fazia o MPLA, os estrategas destes círculos da oposição e da sociedade civil devem rever as estratégias e aconselhar as elites políticas e “os cabos de guerra” a mudarem de discurso;

 

9) Obviamente, nas hostes da Oposição radical, está a consilolidar-se a cultura comportamental segundo a qual, tudo que pode interromper os 45 anos de poder obssecivo e excessivo do MPLA, é válido e recomendável. Por conseguinte, tudo que atrapalha a caminhada da Oposição ao poder político em Angola, venha de quem vier, deve ser abominado, derrubado, com a mesma intolerância usada para manter o MPLA no poder;

 

10) A pergunta que todos devem se colocar é: qual é o efeito perverso desta postura em relação a conquista do poder em Angola, por parte da Oposição? Já que toda acção política produz 3 resultados: esperado ou  favorável, não esperado ou prejudicial e não esperado ou neutro;

 

11) Eu tenho uma ideia clara sobre a resposta desta pergunta. Já refleti publicamente, num artigo exposto aqui nas redes sociais, sobre a transição e alternância política em Angola. A única coisa que volto a reiterar em relação aquele artigo é: as elites políticas angolanas, de todos lados, devem dialogar, sobre alternância política, transição e futuro de Angola e dos angolanos, antes que seja tarde!;

 

12) Voltando ao que me motivou a escrever este texto, penso que as reacções ao apelo do ministro Marcy Lopes, indicam a fase pré-eleitoral em que nos encontramos, agravada com o facto de a diáspora angolana poder exercer o seu direito de voto roubado, durante longos anos. Mas também é indicativo de intolerância e de crise na construção da nação angolana. Pois, a fase mais adiantada na construção de qualquer nação é a unidade de seus filhos em relação a protecção da soberania e imagem do país. E isso, as vezes, pressupõe esconder os cantos sujos e mostrar as partes que brilham. Será assim com MPLA, UNITA, CASA-CE e com qualquer grupo que ama Angola e os angolanos, em primeiro lugar, segundo lugar e em terceiro lugar e sempre…;

 

13) A partidarização das mentes e suas consequências no subconsciente da nova geração angolana, formatado pelo MPLA e pela UNITA, onde a CASA-CE também começa a não ficar atrás, atingiu o ponto máximo em Angola e a intolerância está a tornar-se no principal paradigma na disputa política, inclusive no seio das forças da oposição e no seio do MPLA;

 

14) A outra saída, para além do diálogo entre as elites, ao radicalismo e bajulação política (dois lados da mesma moeda) de duas forças antagónicas (que comportam  subgrupos também antagónicas) é o surgimento de  uma terceira via, forte, actuante e capaz de chegar ao poder. A acontecer, teríamos  água fria na fervura política que já assistimos, pela primeira vez em Angola, nos anos 2012 e 2017. Nestes períodos, os dois lados extremos (MPLA e UNITA) tiveram que fazer as suas contas, contando com um terceiro actor: CASA-CE. Deste modo, assistimos a  diminuição do radicalismo. Pois, os estrategas dos dois lados extremos,  concluiram que com extremismos e radicalismo não se conquistaria mais apoiantes, mais eleitores e mais votos e sim ofereciam  votos à CASA-CE;

 

15) É neste âmbito, que o papel da CASA-CE foi positivo no sistema de partidos políticos em Angola, tal como os estudos de monografias, em várias universidades, estão a demonstrar. Daí eu ter defendido uma solução pacífica e extrajudicial do conflito na CASA-CE. Mas, mais uma vez, o radicalismo e a bajulação falou mais alto. Se a CASA-CE voltar a preencher e bem o vazio da terceira via, teremos outro cenário político em Angola, a partir de 2022. Porque, quando o povo olhar com mais interesse para terceira via, os extremos vão rever as estratégias, tal como aconteceu em 2012 e 2017;

 

16) Até lá, vamos assistir muito radicalismo político aqui e acolá. Do que tenho acompanhado e comparando com outras realidades análogas, volto a recomendar diálogo para que a lógica de permanência longa do poder não prejudique a construção da nação e alternância ao poder, a todo custo, não seja sinônimo de recuo no projecto de construção da nação angolana. Aproveito alertar também, que a opinião pública, o comportamento eleitoral e a decisão de voto é volatil e até 2022 e à “boca das urnas” nada está garantido. Por isso, cantar vitória e enquanto outros constroem vitoria, pode ser ingenuidade. Mas, também está visível que construir vitória atropelando tudo e todos, prejudica a nação.

 

Arrempender-se depois de tudo descambar é bom, porém na lógica da estratégia política de acção e eficiência não vale nada. Prevenir e antecipar-se aos fenómenos é sabedoria e é até divino!

 

O tempo, que é o grande mestre, recomenda que “Enquanto é cedo, manobra seja feita” ( Kuzo Dia Mpemba- filósofo mussolongo).

 

RDA: Amor, Gratidão, Fé e Acção Estratégica.

Carlos Alberto

http://adenuncia.ao

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