A CORRUPÇÃO: CONQUISTA E MANUTENÇÃO DO PODER POLÍTICO

Por: Rafael Aguiar

O dia que saúda a luta contra corrupção passou quase em branco. Não houve efusivas intervenções habituais da oposição e nem a habitual viril intervenção de JLO (e poucos que lá alinham) a saudarem o dia, a condenarem a corrupção e a reiterarem um combate cerrado contra o maior mal que dilacerou Angola, depois da guerra. Porquê? Será porque a luta pela manutenção e conquista do poder sobrepõe-se ao interesse em combater a corrupção e remoralizar a sociedade angolana? Será porque, quer os que querem manter o poder como os que querem conquistar o poder não querem ter problemas com quem tem dinheiro, capital, meios de produção, poder financeiro, independentemente de como foi obtido?

No Século XIX, Karl Marx já tinha notado que a base que sustenta todo poder politico é a infraestrutura económica, ou seja, dinheiro, capital e meios de produção. Será que a elite política angolana (no Governo, na oposição, na Sociedade Civil e na Sociedade Eclesiástica) percebeu que quem não tem poder económico não consegue conquistar e não consegue manter poder político e social?

Um pouco mais tarde, no mesmo Século, Max Weber notou que, quem tem poder económico consegue conquistar, mais facilmente, o poder político e social e vice-versa. Será que ninguém (no Governo, na oposição, na Sociedade Civil, Académica e Eclesiástica) quer ter problemas com o poder económico, isto é, com os tidos “marimbondos”, precisamente por todos, directa ou indirectamente, almejarem ou conquistar ou manter o poder político?

Se todas questões aqui levantadas tiverem como resposta sim, como fica a construção da Nação Angolana?

Tão inexperiente que sou, perante vossas excelências, nem preciso ousar dizer que é impossível haver Nação, com a predominância da corrupção. Ou não é assim?

Com a minha pouca maturidade analítica, nem preciso dizer que com um eventual recuo no combate contra corrupção, por parte de quem corajosamente se propôs; com a nítida ausência, nos discursos políticos da Oposição Política ( desde 2017), de um compromisso firme contra a corrupção e com um olhar cúmplice (contrariando a acutilância antes de 2017) da Sociedade civil, da Comunidade Académica e Eclesiástica contra corrupção, a construção da Nação fica gravemente adiada e o futuro da juventude e crianças hipotecado.

É escusado repetir aqui, que não havendo uma cultura de combate contra corrupção, a cultura de probidade, ética, moral, meritocracia, trabalho duro e árduo, empreendedorismo cederá à cultura de bajulação, fundamentalismo, intriga, nepotismo, amiguismo, militantismo como formas de subir na hierarquia social e enriquecer, tal como já ocorre, embora a velocidade tenha diminuído, desde 2017.

Não preciso relembrar que, ao mesmo tempo que se assiste um recuo na remoralização da sociedade, houve a ideia genial, mas outra vez, partidarizada: constituição de um Comité de Honra, no interior de um Partido que se confunde com Angola. Não estou contra qualquer Comité de Honra. Quem sou eu para atirar a primeira pedra? Mas, devo relembrar que honra é prestígio, associado à moral e ética, que se sobrepõe ao desejo ardente de atropelar leis, subir na hierarquia social, manter status quo e enriquecer a qualquer custo.

Se me permitem emitir uma opinião sobre o assunto, eu diria: precisamos criar um Quadro de Honra Nacional, nos sectores do desporto, sociedade civil, política, militar, arte, cultura, magistratura judicial, economia, religião, etc. Esse exercício, motivaria e consolidaria figuras de referência, modelos e exemplos a seguir. Essas figuras, atenção, são humanos, isto é, não estão isentos de máculas, no processo de luta pelo poder político, económico e social em Angola. Mas, são figuras que deram um contributo relevante à Nação e que devem assumir o compromisso, doravante, de ficarem acima dos partidos políticos, do enriquecimento violento e que violenta, de batotas, de chico-espertismos, capazes de dizer o que lhes vai a alma contra as desigualdades sociais, descriminação, exclusão, perseguição, insultos morais, etc. Figuras-modelos capazes de ajudar a proteger a construção da Nação, muitas vezes, golpeada, pelas lutas de manutenção e conquista dos poderes político, económico e social.

E nós, os da geração de 1980 em diante, qual é a nossa contribuição? Seguir e valorizar os bons exemplos das figura-modelos, assumir um forte compromisso com Ética, Moral, Amor, Verdade, Gratidão, Mérito, Trabalho Duro, Empreendedorismo e Ambição de construir uma Grande Nação. A nossa contribuição para a construção da Grande Nação deve estar em gestos simples como: não aceitar viver acima do que temos e ganhámos; não devemos aceitar nenhuma benesse de que não tenhamos direito; devemos-nos contentar com o nosso rendimento justo e protestá-lo com nossa inteligência e trabalho árduo; devemos denunciar e combater os males que prejudicam a Nação e apoiar o bem que engrandece a Nação, venham de quem vierem.

Lembrem-se: geração da independência de Angola, com a nossa forma de pensar e agir, só temos duas hipóteses:
1.ª dar um duro golpe final contra a Nação, transferindo para gerações longínquas a construção da Grande Nação Angolana; 2) ou salvarmos o que de bom que foi feito e existe e construirmos uma Grande Nação, para nós e para a futura geração. Há exemplos, na Ásia, que construíram em menos de 30 anos poderosas Nações.

Não preciso outra vez alertar que a reconstrução moral e ética da Nação angolana nunca será pacífica, lua de mel, uma festa. Em parte nenhuma e em tempo nenhum, na história da humanidade, remoralizar a sociedade foi obra fácil para os protagonistas e para o povo. Só foi fácil, para os oportunistas, sem nenhum compromisso com a Nação, senão com suas próprias ambições.

Quem aceitar e se propor ao desafio nobre e divino de combater a corrupção, remoralizar a sociedade, um dos preços a pagar é o insulto, a perda do poder politico, pressão popular, aproveitamento dos efeitos perversos do combate contra corrupção, pelos seus adversários políticos, etc.

Deste modo, quem quer combater a corrupção e remoralizar a sociedade angolana só tem duas hipóteses:
1.ª ser apedrejado hoje e enaltecido amanhã; 2.ª fingir combater a corrupção e esta brincadeira varrer-lhe do poder e da história.

Oxalá os sinais que lemos de um recuo no combate contra corrupção e de ” não estão nem aí com corrupção, contanto consigam ir ao poder”, seja mera ilusão de óptica. Não podemos recuar no combate contra corrupção, embora deva ser feito, de modo inteligente, olhando para frente, isto é, fixado no presente e lançado para o futuro e não tanto, vasculhando e olhando para trás.

Pensem nisso, por favor! Da RDA para Angola, África e o Mundo: com muito Amor, Gratidão, Fé e Acção Estratégica.

Carlos Alberto

http://adenuncia.ao

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