Sebastião, Angola e os seus conflitos sobre a sucessão

 Sebastião, Angola e os seus conflitos sobre a sucessão

Foi no passado dia 4 de Setembro que o jovem português Sebastião Bugalho escreveu no Diário de Noticias um artigo intitulado: “Angola, Adalberto e a verdade”, questionando a causa da falta de histerismo colectivo dos que votaram no MPLA nas recentes eleições em Angola. Sente-se, na sua escrita, elevado doutoramento nas letras mas, na outra face da moeda, também se vê uma profunda ausência de conhecimento empírico sobre a verdadeira realidade em que vivem os angolanos, nomeadamente os que nunca saíram de Angola e que têm as suas razões para saber ou não votar no MPLA.

É fácil ser-se estrangeiro e dar palpites sobre o que devia ser correcto para a vida dos outros, quando não é a sua segurança e bem-estar dos seus que está em jogo. A mesma facilidade com que muitos debitam um discurso de mudança, movidos pela dinâmica dos afectos à Pátria por via das redes sociais, ou dos que estão noutros países tão confortáveis a lançar farpas de longe, que sequer fizeram um esforço para ir votar mas que, caricatamente, instigam ao conflito aqueles que nunca abandonaram o país, sendo alvos fáceis para que entreguem o seu corpo ao manifesto.

Supor sobre a democracia angolana e escolhas do eleitorado, sem experiência regular no país, é assumir um conveniente discurso imaturo, sem credibilidade para analisar o que era a realidade do mesmo, há 15 anos. Nem precisamos recuar mais no tempo. Basta 15 anos para se perceber que nem sempre o doutoramento nas letras mostra uma narrativa próxima da verdade.

O jovem Sebastião questiona a falta de histerismo colectivo na celebração da vitória do MPLA. O jovem Sebastião mostra claramente que não conhece os valores do povo Angolano, que foi privado de encerrar um capítulo das sua história, pelo jogo de manipulação de um momento fúnebre como ferramenta política, sem respeito pela história e valores de um povo, pelo desespero de alguns em retomar às redes dos esquemas e convecções, instalados ao longo dos mais de 40 anos de outra governação.

Adalberto Costa Júnior foi uma lufada de ar fresco na história da democracia? Sim, foi. Foi derrotado? Depende da perspetiva de cada um. A UNITA com os seus 90 deputados eleitos, tendo conseguido uma vitória histórica na maior praça eleitoral em Angola (Luanda-33%), uma vitória histórica em Cabinda e uma vitória histórica no Zaire, tem agora a hipótese de mostrar até que ponto defende verdadeiramente os interesses do povo e do país. Há muito que se dizia que um equilíbrio no Parlamento traria desenvolvimento para Angola. Mas será que as escolhas para deputados foram feitas com o sentido mesmo de se ter equilíbrio nas ideias, conseguir-se ter debates acesos na generalidade e na especialidade para a criação de leis que visem garantir o bem do povo Angolano, ou simplesmente para acomodar quem vai à Assembleia Nacional “bater uma soneca”? Aguardemos. O povo está atento.

Nunca os angolanos tiveram tanta liberdade para se expressar. Até se exagera na liberdade de expressão. E isso deve-se à vinda do Presidente da República João Lourenço, quer queiramos aceitar ou não. Porque no tempo de José Eduardo dos Santos metade das graves acusações que são feitas contra a honra, bom nome e reputação do Presidente da República, incluindo as graves acusações que uma das suas filhas fez ao actual Presidente, só os angolanos e quem conhece Angola sabem o que teria acontecido no tempo da sua governação, dariam panos para muitas mangas no campo das liberdades. A mesma filha, entre o luto e exibição de nádegas ao sol nas redes sociais, que fazia campanha contra quem lhe retirou o poder de roubar, mostrando apoio directo ao maior adversário de João Lourenço, por pura retaliação. Uma retaliação que também foi expressa nas urnas contra João Lourenço por muitos do MPLA que têm medo de serem os próximos em julgamento pelos roubos que fizeram ao país. Todos os que viraram costas ao actual Presidente João Lourenço viram os seus esquemas de empreendedorismo pessoal, com base na mentira e na ilegalidade, bloqueados por um novo modelo de governação, focado na construção de um verdadeiro Estado Social.

O jovem Sebastião afirma que testemunhou o “ámen” da democracia portuguesa ao regime angolano. O jovem Sebastião não conhece o povo angolano, que não quer viver novamente num estado de conflito e de guerras. Porque desconhece o quão fácil e rapido se pode fazer “explodir” comportamentos, quando se acende um rastilho em grupos sociais de pavio curto. Porque a realidade que o jovem Sebastião aparenta conhecer bem é uma realidade que lê e estuda nos livros e a que a “sua” comunicação social lhe oferece. Mas, de facto, em que é que o jovem Sebastião já trabalhou na realidade?

Angolanos não são ninguém a ignorar. Angolanos são pessoas que sabem dar valor ao verdaceiro sentido da palavra “viver”.

O Jovem Sebastião “estranhou” ver civis detidos por darem entrevistas a televisões estrangeiras. O Jovem Sebastião poderia ter-se deslocado a Angola, fazer entrevistas e depois tentar passear tranquilamente pelas ruas. Assim, entenderia melhor porque é que “foram convidados” a não promover o desacato, nem manchar uma tentativa de se fazer acontecer mais um jovem acto eleitoral na democracia que vai sendo possível construir.

O Jovem Sebastião intuiu que o povo angolano é ignorante, porque não vive dependente, manipulado pela informação, alheado da realidade como aparenta estar o seu.

Porque assume o Jovem Sebastião que o povo angolano é vitima de propagandismo e não que, pelo menos nestas eleições “livres”, mais de 50% desse povo angolano que votou, mostrou que já não faz parte desses jogos de manipulação?

O Jovem Sebastião questiona as competências da Comissão Nacional Eleitoral de Angola, uma nação com tão curta história de vida. O que tem o jovem Sebastião a dizer dos votos anulados aos portugueses que vivem no estrangeiro, que votaram nas ultimas eleições em Portugal? Talvez o jovem Sebastião seja tão sobredotado que, quando nasceu, já se vestia sozinho.

O Jovem Sebastião questiona alegada fraude eleitoral? O Jovem Sebastião deveria saber que um grande número dos que agora apoiam Adalberto Costa Júnior são também aqueles que noutros tempos pensaram e executaram essas alegadas fraudes, hipoteticamente as que se agora se explanam de forma tão bem detalhada. Se o Jovem Sebastião tem dificuldade em aceitar uma mentira, que de mentira tem tanto como de potencial verdade, porque é que o Jovem Sebastião não se ofereceu para se sentar numa mesa de voto e ser ele a controlar a contagem? Talvez assim, quando escrevesse uma história sobre aquilo que achasse ter certeza, lhe pudesse incluir factos e não suposições e “achismos”.

O Jovem Sebastião gostava de ver estrangeiros a decidirem o futuro de Angola. Os Angolanos, que nunca abandonaram o seus país, decidiram o seu futuro. Mesmo perante as suas dificuldades querem ser eles (os angolanos) a organizar a sua casa.

Se o jovem Sebastião conhecesse melhor o povo angolano e a sua realidade histórica, perceberia porque é que a afirmação “a UNITA ganhou as eleições” existe. Ainda há muita gente que não se conforma com o facto de muitos angolanos decidirem assumir que estão fartos de serem tomados como parvos.

O jovem Sebastião afirma que o regime em Angola é podre. O que achará o jovem Sebastião sobre os que gritam por uma tal mudança serem os mesmos que o criaram? Só mudou o que deu a cara.

O Jovem Sebastião recebeu, estranhamente,  pedidos de apoio dos cidadãos angolanos, digitalmente “internacionalizados”. Que grande ideia para o mundo das letras! E se eu também escrevesse que vários portugueses escreveram para mim a queixar-se de si? A demarcarem-se do seu discurso? Acha que não podemos fazer o mesmo? Acha que não existem portugueses que escrevem para nós, lamentando posicionamentos extremistas como o seu? Quer que descrevamos também? Fica claro que o Jovem Sebastião sonha ser D. Sebastião sem sequer conhecer a verdadeira realidade de Angola.

Chamar João Lourenço de ditador é tão medíocre como supor que existe um outro presidente eleito, para além daquele que o povo angolano, que votou, escolheu.
Como pode o jovem Sebastião querer falar de democracia perante uma postura de uma oposição, que se quer sobrepor às leis e direitos de um Estado de Nação? Aceitaria isso em Portugal?

E se o jovem Sebastião coloca Portugal a respeitar um presidente eleito, que tal fazer o exercício de reflectir sobre outra perspectiva: A de que Portugal pode não estar interessado em certo saudosismo de um passado recente!

As dúvidas e pensamentos que o jovem Sebastião pronuncia, sobre os angolanos dos tempos da verdadeira ditadura, mostram exactamente o seu desconhecimento sobre Angola. É feio especular sobre o que se passa na casa dos outros, com tão poucas bases para debitar conceitos. Angola é uma NAÇÃO. Faz as suas escolhas, por direito.

Carlos Alberto

http://adenuncia.ao

1 Comentário

  • Os portugueses só sobrevivem economicamente graças a generosidade, benfeitoria e humanismo dos Angolanos, no dia em que os Angolanos fartarem-se destas grotescas intromissões dos parlamentares, governantes e portugueses ingratos vamos começar por expulsar os milhares deles que aqui vivem bem demais “melhor que nós” e deixar de sustentar a sua economia. Passarão penúria.
    Deixem-nos fazer a nossa própria PÁTRIA
    VIVA ANGOLA, VIVA OS ANGOLANOS

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