“A ANGOLA TELECOM ESTÁ TECNICAMENTE FALIDA”

 “A ANGOLA TELECOM ESTÁ TECNICAMENTE FALIDA”

Nesta entrevista exclusiva ao Portal “A DENÚNCIA”, o porta-voz da empresa pública de Telecomunicações e Multimédia de Angola (ANGOLA TELECOM) afirmou que “a Angola Telecom está tecnicamente falida”. Manuel César fez este pronunciamento na sequência da greve realizada por mais de oitocentos trabalhadores da Angola Telecom, que chegaram a exigir a exoneração do Conselho de Administração.

Depois de cerca de 3 meses atrás do contraditório, finalmente, o Portal “A DENÚNCIA” obteve o pronunciamento oficial da empresa cujos trabalhadores alegam que a entidade empregadora está a agir de má-fé porque não cumpriu com as suas promessas. Trazemos aqui o outro lado da moeda para o nosso público-leitor.

Leia esta Grande Entrevista do Portal “A DENÚNCIA”, na íntegra, conduzida pelo jornalista Carlos Alberto, que traz revelações inéditas:

Carlos Alberto (CA) – Muito obrigado por ter acedido ao nosso convite, finalmente, à volta do esclarecimento que há muito se pede sobre a greve. Eu gostava mesmo de começar com a questão de porque é que na greve foram exibidos cartazes a dizer “Conselho de administração fora. PCA fora”? Esta é minha primeira questão.

Manuel César (MC) – Começou com uma questão muito difícil. Não, particularmente eu não sei e nem sei o que dizer. Em nenhuma das reivindicações que constam no caderno havia qualquer acção contra o Conselho de Administração. Provavelmente, a posição que o Conselho de Administração tomou é que gerou este descontentamento, “PROVAVELMENTE”.

Do tipo, são essas pessoas que estão entre o nosso objectivo? Eu não sei. Portanto, da maneira que se gerou esse todo ódio, vamos dizer assim, eventualmente se houvesse mais motivos, sairiam. Mas do nosso ponto de vista, provavelmente será a repercussão daquilo que não foi supostamente satisfeito.

CA – Mas sente que os funcionários não olham para este Conselho de Administração com bons olhos?

MC – Boa questão! Tenho várias leituras que posso fazer. Eu não vou estar aqui a augurar e dizer que gestão é bela e a mais favorita dos últimos tempos. Naturalmente qualquer gestão que na interpretação dos colaboradores não agregue valores ou melhorias do ponto de vista social, naturalmente, terá este movimento contrário. Depois, nós tomámos algumas decisões impopulares e que terão criado aqui alguma celeuma.

Nós tínhamos a saúde de graça. Soube, por exemplo, que atingimos níveis de endividamento com as clínicas que era uma coisa! Vou-lhe dizer que nós começámos a levar isso muito a sério.

CA – Isto a partir de que ano?

MC – Isto a partir de 2019/2020. Também podemos mostrar as evidências. Era um tema tabu, no entanto, encontrei-me…

CA – Os trabalhadores iam para as clínicas e faziam…

MC – Vou-lhe dar um exemplo: um dia ligou um trabalhador: “chefe, como é está? Não está tudo bem, só a minha filha é que quase ia morrendo. Mas ia morrendo porquê? Fomos à clínica e arrancaram três dentes. Mas três dentes? Sim, o médico disse que estava um bom e o outro, e depois havia um terceiro que arrancou. Eu disse mas isso não é pesado também além de ser gasto? Não, foi pela empresa. A empresa então é uma coisa”.

Também tínhamos um fenómeno que agora reduziu bastante. Era: “tenho dor de cabeça vou à clínica. E na clínica fico lá todo o dia” porque não havia repercussão. O nosso regulamento interno diz que o trabalhador deve comparticipar com 50%, e isso, por exemplo, foi uma celeuma.

CA – A questão da saúde?

MC – A questão da saúde… E não era feito porque o trabalhador entendia que não é esta clínica que tem de ser. Ah! E a empresa tem um histórico de que tinha uma clínica própria. E nesta clínica própria não se pagava nada porque era da empresa. E então isso gerou de facto alguma celeuma. Algumas decisões que nós tomámos, de facto, foram impopulares e eventualmente agravaram isto.

Uma outra medida eram os empréstimos. Nós tínhamos aqui pessoas com empréstimos chorudos onde a maioria nunca tinha tido sequer acesso. E quando começámos a sofrer essa pressão no início do mandato dessa nova gestão, tivemos de tomar medidas. Se deu para um, então tem de dar para todos. Então vamos parar com os empréstimos, não vamos fazer empréstimos. Revertemos com os bancos, fazendo acordos e facilitando o acesso ao crédito. Mas até aqui isso tinha sido feito. Também gerou uma celeuma. Este agora não quer, mas tínhamos de facto este problema de que não pagavam, não tinham tudo inscrito porque não somos um banco e como tal também não tínhamos aplicações para gerir estes tipos de questões.

Então, naturalmente, isto deve ter gerado aqui algum clima de insatisfação, especialmente por aqueles que naturalmente tinham esses tipos de benefícios. Pronto! Agora também posso dizer que assim saíram 200 e agora ficaram 600 trabalhadores. Será que esses agora estão mais contentes que os outros, ou eventualmente não?!

Essa questão de condições de trabalho faz-me lembrar que o PCA da Angola Telecom, enquanto todos os outros ostentaram viaturas condizentes com a posição, nunca teve e já está a caminho de 4 anos na função. Os administradores, alguns deles, usam o seu carro próprio. Ele trouxe o carro e nós quase que temos que segurar o carro do administrador para não estragar porque senão vai andar a pé.

E alguns reaproveitámos os carros de outros colaboradores para entregar ao administrador. Portanto, naturalmente essa história de condições de trabalho é generalizada.

CA – Mas sempre foi assim? Uma Angola Telecom?

MC – O PCA antigo tinha condições. Ganhava 10 mil dólares, na referência do câmbio de 10. O actual PCA ganha menos do que qualquer das participadas que Angola Telecom tem. Naturalmente que isso pode criar alguma insatisfação. Mas o que a actual direcção entendeu é trabalhar para reverter este quadro. E é este o nosso objectivo. Portanto, se me dissessem que todos que estão aqui estão contentes, eventualmente não. Pronto, porque aquilo que ganhavam há alguns anos, que era supostamente suficiente, o nosso salário mais baixo era 50 a 60 mil, e ao câmbio de 10, quer dizer que o nosso trabalhador menor, tinha por volta de 500 dólares. E hoje são quase 100 e olha lá…

CA – Menos de 100 mil kz?

MC – Menos de 100 dólares…

CA – Menos de 100 mil kz, neste caso?

MC – Não, todos ganhavam, pelo menos, no mínimo eram 50 a 60 mil kz. Portanto, isto que representa por volta do câmbio de 10, 500 dólares. Hoje são 100. Isso naturalmente gera alguma incerteza e algum senso de não realização. Mas qual é a melhor forma de reverter? Esta é que é a questão.

CA – Nada tem a ver com a violação, que eles dizem, dos acordos de Dezembro de 2021?

MC – Tem e não tem. Vamos ser justos. Nós prometemos que muitas coisas faríamos. Portanto, isso tudo que estou cá a folhear são comunicações nossas com a comissão sindical (No caso as actas de Dezembro). Portanto, muitos também dizem que nós não comunicamos e não falamos. Mas nunca tivemos na verdade uma reunião que tivéssemos saído mal, ou zangados (e tínhamos todo o motivo para tal).

Está acta é de 21 de Dezembro. Todos assinaram.

Quanto à questão da saúde, passo agora a ler a acta “o Conselho de Administração assumiu restaurar em Janeiro a questão medicamentosa com os centros médicos dos quais tem acordo. A comissão negociadora anuiu, contudo recomenda que se continue a enveredar esforços para ultrapassar as questões com a ENDIAMA”. Os trabalhadores querem ir para a ENDIAMA. Mas temos quanto de dívidas com a ENDIAMA? Muitos milhões de dólares.

CA – Mas esta é a acta que eles dizem que foi alterada? Com a qual eles não concordam?

MC – Não. Essa é a que concordam porque todos assinaram. Essa é uma acta legítima. É a acta, na verdade, em que o pessoal diz que não foi cumprida.

CA – O primeiro documento?

MC – De 21 de Dezembro, é o tal Dezembro.

CA – Okay!

MC – Na verdade, esse 21 de Dezembro não gerou consenso. Foi naltura que se estava a querer decretar a greve, no início, e depois tivemos uma de 23 de Dezembro. Mas a de 23 está muito resumida. Essa de 21 é muito melhor. O Conselho de Administração assumiu restaurar, em janeiro de 2022, a questão medicamentosa e isso foi feito.

Restaurou. Pode perguntar. Pode fazer o contraditório.

CA – Sim.

MC – Em relação ao aumento de salário, diz o seguinte a acta “o Conselho de Administração (CA) apresentou como proposta reverter às poupanças salariais decorrente dos colegas que já entraram para reforma, para uma franja de colaboradores a definir pelo CA. Apresentou também a proposta para resolver para o geral num espaço de 5 meses”. Ok!? A primeira que era reverter as poupanças do INSS para os colaboradores foi feita. Depois de 5 meses é isso que se menciona como não tendo sido cumprido.

Subsídio de alimentação: “o CA apresentou a proposta de resolver num espaço de 5 meses, dado os problemas de tesouraria actual”. Pronto! Também ficou para os 5 meses.

Valorização dos recursos humanos: “a comissão negociadora solicita uma revisão para que os colegas com mais de 5 anos de serviço possam ter um contrato de trabalho por tempo indeterminado. O CA mencionou que já tinha uma actividade recorrente, mas que ainda assim prometeu fazer a revisão quanto a este assunto”. E foi feito.

Quanto à compensação da reforma: “o CA reiterou que concorda, nos termos propostos pela Comissão Negociadora, e se compromete a fazer nos termos solicitados de acordo com a tesouraria no momento”. Eles diziam não. Que o trabalhador não pode sair só assim. Tem de levar qualquer coisa, nem que for uma geleira, ou uma lapiseira, ou o que for. Então dissemos esta bom! Concordámos nos termos propostos. Okay?

Quanto à questão do horário: “o CA faz menção de que neste momento a empresa já usufrui menos 1h”. Está é uma questão com a qual nós não concordamos, mas como na COVID-19 já estávamos menos 1h, então dissemos,: epá, como já estamos menos 1h, então não vamos conversar ainda sobre este ponto.

CA – Porque aqui ele diz que na “primeira fase de implementação, em Fevereiro de 2022, num universo de cerca de mil trabalhadores, beneficiou apenas 185 trabalhadores, ficando para segunda fase o aumento salarial de mais de 800 trabalhadores em Maio de 2022”. Este é um dado que quem forneceu foi o homem da Comissão Sindical.

MC – Na generalidade está certo.

CA – Está correcto?

MC – Na generalidade, está sim. Só um instante para confirmar o que diz a acta. Isso foi a 20 de Janeiro. Na verdade, existe essa acta entre a Directora dos Recursos Humanos, Elsa de Sousa, e o Sr. Lourenço e o Joaquim, da Comissão Sindical, que diz: “Aos 20 de janeiro o gabinete da Directora dos Recursos Humanos reuniu com os membros da Comissão Sindical, para se definir o critério de aumento salarial dos colaboradores que auferem salários baixo dentro das disponibilidades, valor de 600 milhões”. Estamos, Carlos?

E depois diz então a que conclusão chegaram. E a conclusão está aqui, passo a ler “a directora dos Recursos Humanos começou por falar, depois das simulações os membros da comissão negociadora e a RH acordaram o seguinte, de 30 a 100 mil, incrementos de 50%, de 101 a 150, incremento de 22%”. E isso abrange, pode ler?

CA – E isso abrange 197 trabalhadores?

MC: 197 Trabalhadores. O documento diz ainda “Por fim o primeiro secretário agradeceu pelo gesto, tendo em atenção o compromisso assumido.” E no final assinaram todos. Portanto, deixe-me ver o texto novamente o texto que tem, como é que está?

CA: “A primeira fase de implementação, em Fevereiro de 2022, num universo de cerca de mil trabalhadores, beneficiou apenas 185 trabalhadores. Ficando para segunda fase o aumento salarial de mais de 800 trabalhadores em Maio de 2022”.

MC – Pronto! Só peca nos dados, não é?! Portanto, eu não sei como é que o primeiro secretário assina este documento que menciona 197 trabalhadores e depois a si diz 180 e tal.

CA – Não, mas isso é uma proposta?

MC – Não, isso foi a acta e depois implementámos. Por isso é que eu digo não vale a pena estar a falar assim sem actas. Foram 197 colaboradores e eles dizem que não, mas nós temos a acta e isso é o que foi feito.

CA – O que ficou para segunda fase? Quantos trabalhadores são?

MC – Temos 800 e, portanto, ficaram por volta de 600 e tal trabalhadores.

CA – E a segunda fase é em Maio?

MC – Sim, a segunda fase é em Maio.

CA – E em Maio, o que é que aconteceu?

MC – Pronto, mas vamos ficar ainda só aí porque estávamos a ver a acta.

CA – Sim, sem problemas.

MC – Quanto à questão do horário, solicitaram menos 1h. Epa! Nós temos 1h por causa da COVID-19, mas eu mesmo lancei o repto aos colegas e disse-lhes vocês querem aumento salarial, aumento de alimentação, querem aumento de tudo e querem menos de 1h de trabalho?! Passo então a ler o que foi dito quanto a este ponto na acta “O CA faz menção de que a empresa tem feito o máximo para cumprir as necessidades básicas. Contudo, solicitou a colaboração e intermediação da Comissão Negociadora para que tais situações sejam levantadas e haja compromisso para sua mitigação”. Atenção, se olharem para o caderno reivindicativo, e é uma das coisas que nós sempre mencionámos, o colaborador não faz compromissos. Não diz: olha, me dêem isso e eu em contrapartida vou fazer mais isso e aquilo.
O colaborador está a dizer quero isso e isto. Mas num ambiente de boa-fé, pronto, decidimos que vamos trabalhar, até porque entendíamos que era justo de alguma forma, apesar de a empresa não estar em condições de satisfazer.

Agora vamos a tal questão, ah! E esta acta de 23 de Dezembro é que foi muito mais resumida, é que foi a que fez levantar a suposta greve. Mas os pontos basicamente os pontos negociados são os mesmos. Só que estão mais resumidos. Okay?! Portanto, os temas são os mesmos, deliberação. E a acta diz o seguinte: “o aumento de salário, entre as partes até 23 de Janeiro, será definida a lista de colaboradores que deverá fazer parte da primeira fase”. O que ficou acordado é que os pagamentos da primeira fase começaram a ser prestados em Fevereiro, e realmente foram.

Prosseguindo a leitura: “Ficou acordado que na primeira fase serão priorizados trabalhadores que menos auferem na tabela salarial. O CA deverá continuar a trabalhar para o novo qualificador que foi aprovado até Maio (foi em Maio, acho mesmo) e a tabela salarial para efectivação do salário no mês de Maio. A Comissão Negociadora deverá prestar todo o apoio ao CA para esse desiderato”. Essa parte o Carlos depois não me pergunte se deram apoio ou não, pergunte a outra parte que apoio é que foi feito ou não.

Quanto ao subsídio de alimentação: “o CA apresentou a proposta de resolver os salários até ao mês de Maio, dados os problemas de tesouraria actuais”. E esta parte os colegas não dizem.

O nosso problema prende-se com a tesouraria e não com a vontade de fazer. A acta diz: “Tão logo normalizar a situação financeira da empresa, o CA se compromete em regularizar os pagamentos nos dias normais. Tendo elaborado os temas, chegaram a um consenso”.

CA – Quer dizer que não se efectivou isso por causa da tesouraria?

MC – Sim, por causa da tesouraria, e por que razão? É que nós estávamos desde Agosto com um processo de subconcessão, em que esperávamos que terminasse entre Fevereiro ou Março. Estávamos aí a dar dois meses para que, caso alguma coisa corresse mal, chegássemos a Maio e fizéssemos. A subconcessão, infelizmente tem um ganhador, mas esse ganhador não apresentou a caução que por lei teria de fazer nos dias de acordo com a lei, para fazê-lo. E, portanto, o processo não terminou com sucesso.

E, por esta via, o senhor ministro, naltura, chamou a Comissão Sindical e fez menção à Comissão Sindical de que havia um processo. O processo estava a ser feito. O processo não teve sucesso. Mas que continuaria ele mesmo a trabalhar com o Conselho de Administração para que num prazo curto fossem feitas as condições no montante em que tivéssemos. E aí, esta é uma parte da Comissão Sindical ou da Comissão Negociadora, entenderam que isto constituía uma falha grave daquilo que foi prometido, sem olhar para os objectivos de razão e decidiu fazer greve.

CA – Podemos agora ir para os pontos reivindicados ou ainda queria continuar a…

MC – Não, pode, sim, avançar.

CA – Dos pontos reivindicados, eles dizem: Aumento de salário que não é cumprido, ou seja, um pagamento que é feito fora do período, porque eles dizem que inclusive tinham que pagar propina da escola dos filhos e que não conseguiam pagar porque o pagamento estava a ser feito numa data diferente.

MC – Isso é verdade. Porque conforme disse, a última vez, a Angola Telecom (AT) não tem subsídios do Estado. A AT vive unicamente das receitas que tem, infelizmente.

CA – Qual é o valor das receitas da Angola Telecom?

MC – O nosso valor de receitas varia entre 200 e 300 milhões. Não é o da facturação. O da facturação é muito maior. É por volta dos 700 a mil milhões.

CA – Como é que nós podemos explicar isso ao público? Como é que se destrinça isso?

MC – Não se destrinça isso sem jorrar sangue. Vou dar um exemplo específico que é o que nós herdámos: um dos nossos maiores clientes (eu acho que o nosso maior cliente) é a UNITEL. E tem uma facturação gigante que é de mais de 100 milhões de kwanzas por mês. Mas, nós herdámos uma dívida com a UNITEL monstruosa, fazendo da UNITEL um dos nossos maiores fornecedores em termos de passivo.

Hoje, se você me perguntar no saldo vocês continuam a dever a UNITEL? Não. O saldo até já está equilibrado desde algum tempo para trás.

CA – A UNITEL oferece o quê à Angola Telecom?

MC – Isso é um processo um bocadinho mais complicado. Os operadores têm entre si aquilo que chamamos de interligação. Clientes da UNITEL quando entram para rede da Angola Telecom, a UNITEL paga. Clientes da Angola Telecom quando vão para rede da UNITEL, a Angola Telecom paga. Nalgum momento, e por algum motivo (e é normal), a UNITEL começou a crescer e chegou ao nível de 1 milhão de usuários. Portanto, naturalmente há muito mais pessoas do outro lado do que aqui. Então no fim a balança em princípio reverte a desfavor nosso. Mas de qualquer forma vocês devem dizer então isso é um negócio que é de perdas! Se fosse bem feito, o Carlos vai estar a ligar para a UNITEL é meu cliente, a UNITEL me pede dois e eu peço três. Pronto! E desses três ia lá buscar um ponto no saldo, mas a partir do momento que essas empresas nunca conseguiram saldar esses dados, pelo número de clientes, os operadores estão sempre a dever. Nós ficamos a dever muito e muito mais.

A boa notícia é que hoje o saldo é a nosso favor. Mas temos um passivo para eliminar. Este dinheiro serve entre aspas para bater no passivo que temos com a UNITEL. Portanto, e nós temos problemas desse tipo, caso a caso tem outro problema. E depois, nós estamos a dinamizar a equipa comercial e assim por diante. Um dos nossos gestores de clientes, por exemplo, é uma pessoa que é impulsionador da Comissão Negociadora. Este é da comercial, de uma carteira de 1 milhão. Ele faz 20 mil kwanzas. Faz zero nalguns meses, assim por diante.

E uma das grandes questões com que nós nos debatemos, e agora vou falar aqui pessoalmente, é está pressão. Epa! Se queres que a empresa seja estável, tens de estar bem com a Comissão Sindical. Tem que ter uma relação muito boa. Não o faças poque senão depois podes ter uma revolução.

E foi basicamente isso que foi feito porque nós temos a greve. Tivemos de tomarmos uma decisão de que todos aqueles colegas que não estavam na comercial a executar insistentemente não iam cobrar. Iam desfazer. Epa! Iam para o RH.

CA – Em termos de comunicação, a Angola Telecom gere o quê?

MC – Como assim?

CA – Serviço?

MC – O que é que faz?

CA – Sim, qual é o serviço que a Angola Telecom faz?

MC – O nosso maior serviço, que gera mais renda neste momento é a operacionalização do cabo submarino SAC-3. Hoje temos duas saídas no país, uma operada pela Angola Telecom, e a outra pela Angola Cables. Então estes dois grandes tubos, nós temos um e a Angola Cables tem dois. Os operadores normalmente querem ir para os dois para redundância.

Por isso é que nós temos a UNITEL como cliente, porque a UNITEL vem buscar capacidade internacional para prover aos seus clientes. E a grande parte dos operadores vem para cá buscar capacidade para internet.

Fora isto, temos empresas e temos retalho, mas o nosso negócio de empresas vai aparecendo, mas ainda é mais fraco que o negócio de grossista e temos o negócio de retalho em que oferecemos 4G.

CA – O Grossista é a questão do…?

MC – Dos operadores. A venda aos operadores.

CA – Operadores como a UNITEL?

MC – ITRA, Movicel…

CA – Tudo que é comunicação no país praticamente a Telecom é que fornece?

MC– Nós fornecemos uma saída, mas os operadores geralmente contratam os dois. A Angola Cables e a Angola Telecom.

CA – Para jogar no seguro, não é?

MC – Para jogar no seguro, para que se um falha o outro dá.

CA – Okay. E a retalho?

MC – A retalho, nós somos muito pouco expressivos porque a maior rede que nós temos é a rede de cobre. É uma rede que hoje o material para instalação e manutenção é muito mais caro e muito mais vandalizado do que cobre. A pessoa geralmente está aí a desenterrar aquilo para fundir. E a malha já não está nas grandes necessidades populacionais. Ficou hoje circunscrito em todas as províncias aquela malha mais capital, mais urbana e hoje onde há necessidade geralmente. E, qual é o problema de estar no mais urbano?! É que aí tenho de disputar com a ZAP a TV CABO e estas são muito mais fortes.

CA – E em termos de telefonia?

MC – Telefonia também temos, mas por causa da mudança do ponto de vista de comportamento dos próprios utilizadores, hoje, o pessoal prefere móvel. Prefere WhatsApp.

CA – Angola Telecom é só fixo, não é?

MC – É só fixo, não temos móvel. Embora tenhamos tirado uma licença.

CA – E em termos de fixo, esse mercado, como é que está, não rende nada para a Angola Telecom?

MC – A telefonia fixa hoje não rede nada.

CA – Não rende nada?

MC – Não, oh! Carlos, quantas vezes você liga para o normal e quanta vez liga para o WhatsApp?

CA – Pois!

MC – É que nem para UNITEL ou para MOVICEL já tem sido um mercado, porque as pessoas mudaram de comportamento.

CA – E agora, a grande pergunta é: a mãe que dá o sinal é pobre e os filhos que recebem são ricos. Como é que se percebe?

MC – Percebe-se de várias maneiras. Não vou comentar aquilo que foi feito no passado. Não vou comentar. Alguém fê-lo e essa pessoa vai ter de dizer ao Carlos por que é que fez assim.

CA – Okay.

MC – Naturalmente, hoje estando aqui em 2022, ou estando em 2019, mais ou menos, ou fim de 2018 que começou a vigência da actual direcção, que eu posso dizer é sim, é verdade que nós criámos empresas como a TV Cabo, a própria Angola Cables que hoje oferece redundância para o país, que faziam o nosso negócio. Epá, agora como é que elas apareceram a rivalizar com o próprio negócio da empresa?! Isto é outra coisa e não vou mencionar. Agora, eu penso também que temos de parar de chorar pelo leite derramado. Nós temos que reverter.

Por exemplo, da TV CABO, já foi dito, temos que retirar a nossa participação. Temos que nos posicionar mais como uma empresa de infra-estruturas  e não concorrer com aqueles que querem fazer porque nós também, por um e outro aspecto, perdemos competência porque como o nosso poder de contratação era muito menor, os melhores foram sempre sendo puxados para essas empresas que estão no nosso sector de actividade. Portanto, temos uma empresa com fraca tesouraria, com menos competência, e criando empresas que são concorrentes.

Pronto! Carlos, eu já encontrei este paradigma. Agora como é que eu faço? A única forma de essa empresa pagar-me é por via de dividendos. Certo?! Porque eu sou accionista. Ele tem que ter lucros e sobre os lucros então ao final de um ano de exercício económico, entender e reverter para nós.

CA – Ou a venda de produtos é a um preço baixo?

MC – Não, não tem nada a ver.

CA – Queria compreender, como é que a TV CABO e a UNITEL, que recebem o sinal da Angola Telecom, são ricos e a Angola Telecom que oferece o sinal é pobre? Ou a venda do serviço da Angola Telecom é a um preço baixo? Como é que se explica?

MC – Não tem nada a ver.

CA – Porque é também uma das questões que os grevistas falam.

MC – E é legítimo. É uma boa questão.

CA – Eles dizem como é que os operadores são ricos e Angola Telecom é pobre?

MC – É uma boa questão.

CA – Eles não acreditam na teoria do Conselho de administração.

MC – Não.

CA – Dizem que o Conselho de Administração está a receber dinheiro, mas está a esconder.

MC – Carlos, eu também gostaria que alguém me desse. Você também não gostaria de pôr isso no Portal “A DENÚNCIA”? Com a raiva que têm se fosse verdade alguém já devia mostrar os documentos que indicam que o CA recebe dinheiro ou o que o meu primo recebe, ou que ou meu sobrinho distante recebe. Eu nem me vou meter aí.

Mas isso é muito fácil. É o mesmo exemplo da UNITEL e da TV CABO, o mesmíssimo exemplo. O que a TV CABO vem buscar aqui é um tubo grande, depois ele faz a sua operação internamente. A TV CABO não depende do RH da Angola Telecom para instalar, e até fez “upgrade” em vez de cobre. Ela até vende fibra aos seus colaboradores. Ela não vende só internet. Vende também televisão e telefone. É o único operador que faz tripleplay.

É um indivíduo que depende quando quer e quando bem entende. Aí ou se trabalha ou se trabalha. É uma empresa que nasceu verde. Nasceu bem. Não tem passivo. Mas, em termos de capital humano, nós temos a maior parte do pessoal que não é licenciado. Contudo, nós já mudámos isso, já revertemos um bocadinho, mas a maior parte do nosso pessoal só tem Ensino Básico. Podia-se reverter isso? Sim, de alguma forma nós podíamos reverter, mas nós tínhamos que capitalizar os Recursos Humanos, por outro lado.

 

FICHEIRO QUE FAZ MENÇÃO DOS TALENTOS HUMANOS/CAPITAL HUMANO

 

CA – Vocês são obrigados a ir buscar serviços fora para aquilo que é o vosso objecto social?

MC – Não, nós não temos competência para desenvolver algumas das questões que os nossos colaboradores da nossa concorrência faz. Por exemplo, Sequele é uma rede da Angola Telecom, mas nós não tínhamos competência para ir buscar no Sequele aquilo que era suposto. Portanto, a TV CABO é que está a operar no Sequele e a pagar rendas a AT, por exemplo.

Só que a TV CABO é um mau exemplo porque a TV CABO, por outro lado, dá-nos serviços a nós que se tivéssemos como “backbone”, como a fibra nacional. Ela mantém a fibra nacional e depois faz encontro de contas connosco.

Mas podíamos pensar na Angola Cables, por exemplo, vem buscar tubos. A questão é que o pessoal vem buscar tubos, mas a operacionalização é toda deles. Não têm os mesmos limites que nós temos, indexados a uma tabela salarial, não podendo promover mais este ou aquele, por causa dos problemas sociais inerentes. Nós somos mais lentos. Estamos a tentar ser mais rápidos, mas com a prata da casa. Nós temos, por exemplo, vários colaboradores que estão a ser puxados para a Africell. Estão a ser puxados por outras empresas e, naturalmente, houve outro colaborador que foi agora para ITRA.

CA – Quer dizer que para Angola Telecom pudesse ganhar mais ou menos os milhões que os outros operadores ganham tinha que ter este tipo de competividade?

MC – Tínhamos de ter.

CA – Para além de vender o sinal, não é?

MC – Sim, mas também tínhamos que ter rede. Não temos rede. Os investimentos da rede já datam de 2010, 2012. Em 2016 trouxemos a rede 4G, mas agora a rede 4G está em 4 províncias. Portanto, é aqui uma simbiose de vários assuntos que, felizmente, também já estão a ser tidos pelo Executivo. Esse negócio é um negócio de capital intensivo. Exige que se invista para retirar mais e que se actualize sempre.

Portanto, veja, por exemplo, a nossa rede de cobre é boa? Até é, mas tem limite de 4MG a 8MG por cliente. A TV Cabo, a ZAP e outros, por exemplo, conseguem entregar muito mais do que isso. De uma forma muito mais barata porque a estratégia do processamento da rede deles, por ser mais recente, também foi pensada a custo beneficio. Que não é a forma como temos. Pronto! Naturalmente, eles são sim mais rápidos. Muitas vezes têm muito mais competência também, mas nós estamos aqui. Estamos na luta e por isso é que o grossista é o nosso maior negócio nesse momento.

CA – Okay. Agora recuando, sobre a questão dos montantes que Angola Telecom ganha. Estava a referir-se a isso e eu depois puxei um bocadinho para os operadores para perceber como é que funciona. Pois, a facturação que eu pedi para explicar como é que funciona?

MC – Já estava a explicar. Há vários dinheiros que não conseguimos atingir por conta dos passivos que a empresa tem com essas entidades. Não é mal, mas neste momento dava-nos jeito, por exemplo, que tivéssemos estas entidades a pagar. Mas elas não só não pagam, como exigem que alguma parte seja feita em dinheiro, que nós não temos.
E também esperamos que com o investimento que vamos ter, possamos mesmo fazer uma restruturação do ponto de vista de capital humano e os nossos processos de negócio mais rápido. Nós temos uma rede velha. E temos algum hábito que sempre que o cliente queixa ele tem razão. E temos ali alguns vícios que temos que eliminar. Mas sempre que vem uma confrontação de um cliente que tem que pagar. E ele diz, não, eu não tive o serviço, geralmente havia aqui um espírito de que se o cliente diz que não teve o serviço, é mesmo porque não teve. Isso são coisas que estamos a tentar eliminar, mas que para eliminar temos que ter ferramentas que mostram o que é que o Carlos consumiu. Quanto é que teve? Como teve? E assim por diante. E muitas vezes temos também essa deficiência porque por outro lado também temos muitos sistemas. Nós nascemos com muitos sistemas.

Veja que só no retalho, nós tínhamos CDMA. Tínhamos cobre. Tínhamos rede 4G e todas elas, tirando a rede 4G, já com algum tempo de casa. Portanto, estamos ali onde nós encontrámos e nos segurar efectivamente, enquanto não temos a mudança por via dos nossos investimentos.

CA – Vamos ainda continuar a tocar na questão dos pontos reivindicados. Falavam do salário pontual, já disse. Acabou por explicar porque não se paga no dia que era habitual. Paga-se depois. É um pouco também por causa desses aspectos?

MC – Não. É por não haver disponibilidade.

CA – Haver disponibilidade de tesouraria, não é?

MC – Sim, só.

CA – A questão de aumento salarial na ordem dos 50%…

CA – Agora veja, Carlos: eu não pago no dia porque não há disponibilidade. No entanto, o objectivo é aumentar está massa que eu já não tenho naltura exacta para fazer. Veja a coerência.

CA – Okay!

MC – Não sei se está a perceber?

CA – Sim.

MC – Nós, naturalmente, como direcção e entendendo algum bom critério, temos de conversar com o trabalhador. Mas conforme eu já disse várias vezes à Comissão Sindical, não seria melhor nós estabilizarmos e pagarmos primeiro na hora exacta. E depois, sim, pensar já temos estabilidade e então continuar a incrementar?!

CA – E porque é que se aceitou? Porque é que naltura das negociações vocês não foram razoáveis, para que não se criasse esta expectativa e eles pudessem criar expectativas que não pudessem ser alcançadas?

MC – Nós transmitimos.

CA – Eles falam de uma tabela de subsídio de alimentação de 5 mil kz/dia, plano de saúde, pagamento do INSS, compensação da reforma, condições de trabalho, política habitacional, revisão do horário de trabalho, valorização dos recursos humanos e reposição dos direitos à luz do regulamento interno. São questões que os grevistas nos fazem chegar.

MC – Sim, mas, Carlos, agora já está numa altura que eu lhe mostrei a acta.

CA – Sim.

MC – Você já sabe o que está na acta, aquilo com que nós nos propusemos.

CA -O resto é resto?

MC – Não, mas está na acta. Por isso é que eu estou a dizer, depois de um tempo, o pior é que pode dizer, podes dar-me a acta novamente para ver o que vocês acordaram.

CA – Não, mas nós gravámos E leu.

MC – Sim, eu li e está gravado, não é?! A acta é a acta. Agora, eu posso dizer, naturalmente, que nós também temos esse desejo, não é? Quem não quer casa? Também dava jeito ter uma. Eu também quero. Aí no subsídio de alimentação, também impacta no meu salário.

Então, também não quero subsídio de alimentação?!… O subsídio de alimentação de 5 mil kz contra os mil existentes, aumenta-me o salário em 75 milhões. Agora, a pergunta foi bem feita, mas por que vocês assumiram? Não, nós dissemos vamos fazer em Maio.

CA – Em função da tesouraria?

MC – Sim, em função da tesouraria.

MC – E não colocámos a subconcessão aí porque não queríamos colocar efectivamente a subconcessão, mas explicámos ao trabalhador e fizemos comunicados aqui dentro da empresa, que estava a ocorrer a subconcessão.

CA – Há alguma forma de o trabalhador perceber se de facto a tesouraria aumentou ou não, para que o trabalhador percebesse que o Conselho de Administração está a ser honesto? Há alguma forma?

MC – Devíamos ter falado com o Carlos antes. Afinal fizemos mal! Essas é que são as perguntas certas!
A Comissão Sindical, Carlos, é o representante do trabalhador. O actual Conselho de Administração nunca viu o cofre da Angola Telecom. Nós somos uma gestão que tem finanças, que tem comercial, que recebe relatórios mensais de actividade que são feitas pelas próprias pessoas. Nós tivemos técnicos financeiros que saíram a greve.

CA – OKay.

MC – Eles sabem. Eu já disse.

CA – Quer dizer, eles próprios é que estão ocorrentes da situação?

MC – Eles é que estão a par. Se um funcionário do RH diz, por exemplo, e você vai ouvir também, que esse homem está aí. Já entraram um monte de gente. Pôs toda a sua família. Eu já ouvi isso: o Adílson pôs toda a sua família. Desde que ele entrou no RH, o capital humano da AT aumentou. Mas quem faz isso? Agora se o Carlos vier com provas de que já não são esse 889 que fechamos 31 de Dezembro de 2021, mas são mil, você vai ter que me explicar onde é que estão os mil porque a actual direcção não faz a gestão deste pessoal. O CA recebe também os relatórios. Não sei como é no RH da sua empresa, mas você é que faz a coisinha toda e as contas ou gestão?! Eu não faço! Eu não sei, mas cá na empresa, a AT é muito grande, mas é que eu costumo a dizer aos meus colegas: se há condições, mostrem soluções porque você é o representante do trabalhador. Quer dizer que você conhece melhor a empesa do que nós porque o financeiro que vai ao banco todos os dias e faz levantamento, já ouvi também falar, tem muitas empresas. E tem muitos contratos. Ele tem que trazer esses contratos e faria melhor assim. Ou isso não era necessário, porque disto é que eu mesmo não entendo.

CA – Inclusive há um Trabalhador que diz que fez queixa à IGAE e à PGR, que vocês fazem contratos à margem da lei. Que estão a ganhar dinheiro e por isso não querem dar.

MC – Mas Carlos, das duas uma: ou é mesmo um contrato à margem da lei e existe ou então alguém forjou a assinatura do PCA, ou alguma coisa, mas não tem que dizer. Mostre! Quando os colegas às vezes dizem isso, eu digo: mostre! Às tantas, quem sabe estou errado! Se alguma coisa está mal, eu acho que até o Carlos podia perguntar: está bem, mas você primeira coisa alertou logo ao seu Conselho de Administração? Ao seu Director sobre isto? Qual foi a resposta? Alertou? Nós não somos donos da verdade. Podemos estar errados.
Mas a primeira coisa é dizer fora que estão a fazer contratos à margem da lei? Não. Era avisar logo.

CA – Vocês têm algum problema com o antigo Director do Gabinete Jurídico?

MC – O antigo director!… ah, o Serafim! O colega Serafim por acaso estava fora. Mas, posso responder. Ele atacou fisicamente o seu director.

CA – Atacou fisicamente o seu director?

MC – Fisicamente.

CA – Okay.

MC – Bofeteou.

CA – E mereceu um processo?

MC – Foi suspenso e está a decorrer o processo disciplinar. No entanto, nós entendemos também que eventualmente… Mas eu não posso dizer a coisa assim. Pronto! sofre de algum desequilíbrio.

Ele é jurista, mas tudo que nós temos visto nos dá a entender que alguma coisa não vai bem com o colega e que depois deveremos olhar num outro nível.O colega tenta sempre entrar na empresa, sempre.

CA – Nós deparámo-nos com ele ontem.

MC – Pronto, mas é um fenómeno.

CA – Ele deu-nos entrevista. Foi ele que disse que puseram uma outra pessoa no Gabinete Jurídico porque estão a fazer contratos à margem da lei e que ele fez uma queixa à PGR e à IGAE. Nós temos isso gravado. E não pusemos no ar porque nós depois queríamos falar com o CA e queríamos ver bem como é que essa história funciona.

MC: Não, não tem problema.

CA – E ele diz que fruto desses contratos, vocês ganham dinheiro e não dão aos trabalhadores e que por isso é que o puseram de lado. Por isso é que agora não permitem que ele entre na empresa. Também perguntámos se ele tinha algum problema de fórum psíquico, mas ele negou.

MC – E eu também vou negar, e mais pormenores. Não foi o actual CA que exonerou o Serafim. Portanto, quando a actual gestão entrou na Angola Telecom ele já não era director.

CA – Do Gabinete Jurídico?

MC – Portanto, se em algum momento vocês entenderam que quem exonerou o Serafim foi o actual CA, isso não é verdade! Esse CA já está aqui desde o fim de 2018 como gestores e já o Serafim estava exonerado. Portanto, pode ser que se passe a ideia de que eles me tiraram para fazer e desfazer, mas não. Não fomos nós quem o tirou.
Eles já estava retirado. É a primeira coisa. Mas mesmo assim já houve um Director Jurídico que também foi exonerado depois dele. Portanto, ele não é o último Director do Gabinete Jurídico da Angola Telecom. Onde é que está aquele vídeo do Serafim a lutar com o polícia agora?
Há dias o pessoal quis prendê-lo, mas dissemos não. Porque nós temos polícia aqui.

CA – Mas agora a questão é: ele está a ser alvo de processo disciplinar?

MC – Sim.

CA – E isso condiciona a sua entrada cá?

MC – Nós suspendemo-lo mesmo. E isso não vai afectar a remuneração, mesmo tendo em conta que esborneou o seu director. Ele fica em casa. Só foi por isso.

CA – Okay!

MC – Porque é que esborneou o director também?! Porque marcou-lhe faltas. Porque ele não aparecia. E isso já é recorrente. Ele já teve um processo disciplinar por faltas. Mas eu não sei, é um colega que por acaso quanto à greve teve uma postura boa. Ficou aqui.

CA – Sim, ele disse que não aderiu.

MC – Eu sei que na altura da greve ele chegou a dizer ao PCA o seguinte: nós temos de trazer os colegas para dentro. Portanto, ele tem essa dualidade. O vídeo a lutar com o polícia foi na semana passada. Ele mesmo suspenso, devia ficar em casa, até que o processo fosse resolvido e depois vinha com as acusações. Ele tem o poder, depois de se queixar. E a forçar a entrada do edifício técnico. Ele trabalhava aqui numa outra área, mas estava no edifício técnico. A fazer lá o quê?! É que depois acusam sempre o actual CA de ser perdulário e depois gerar esse tipo de coisas. Porque é que nós vamos prender o colega e às tantas não está bem?!

Anteontem quando o PCA saia, estava novamente ai polícia: chefe isso já não vamos aguentar. E ele disse tentem ainda.

CA – Okay. Avancemos!

MC – O documento que foi suspensão comum foi uma ordem de serviço e está aí.

CA – Tinha aqui uma outra questão. No dia 13 de Junho de 2022, foi realizada a Assembleia Geral dos trabalhadores que decretou esta greve. Então, esta greve, na óptica do Conselho de Administração, tendo em conta a sua explicação, é uma greve ilegal?

MC – Não, agora já não podemos dizer isso. Já há uma decisão do tribunal que é ilegal. Portanto, nós tivemos a nossa óptica, que foi dito logo aos colaboradores e foi dito à Comissão Sindical. Tivemos a obrigação de mandar um comunicado à Comissão Sindical a dizer que pedíamos que não era justa e era ilegal.

CA – Em função dessas actas?

MC – Sim, em função dessas actas, mas é o nosso ponto de vista. Respeitamos quem tenha outro. Solicitámos um parecer do MAPTSS e tivemos depois esse parecer da ministra a dizer que era efectivamente ilegal. Portanto, tivemos o da ministra, e depois como a ministra não decide, é mesmo meramente parecer. Entendo que os colegas haviam abandonado a mesa das negociações e continuava. Então intentaram a providência cautelar para proteger a empresa. E já temos a decisão, (do nosso ponto de vista demorou algum tempo), a dizer efectivamente, como decisão, que é ilegal.

CA – Quando é que vocês intentaram a providência cautelar?

MC – Fim de Julho. Demorou por volta de dois meses. Já temos o despacho a dizer que a greve é ilegal.

CA – Que a greve é ilegal, e a obrigatoriedade dos trablhadores retomarem? E agora caso eles não voltem?

MC – Este caso já está a acontecer e novamente estamos a ser perdulários. Mas entendo que, e estava a conversar ainda com dois directores, eles já estão a noventa dias. Já receberam a decisão quarta-feira passada. Portanto, já estão a sete dias em desrespeito à ordem. Nós já podíamos levantar processos disciplinares para despedimentos, até porque são 90 dias de faltas não justificadas e porque também a greve agora é ilegal, mas nós entendemos que devemos dar tempo aos colegas para regressar.

Estão a regressar aos poucos. Estamos a ter alguns colegas a regressar.

CA – E não vão descontar no salário?

MC – Não. Eles já estão descontados.

CA – Nesse tempo eles não estavam a ganhar salário?

MC – O tempo que estão na greve, não.

CA – Não estavam a ganhar salário.

MC – Não estavam, não. Não vão receber salário porque se nós temos isso de lei, o salário de Agosto nós estaríamos a pagar agora.

CA – Sim, mas são três meses, certo?

MC – São três meses, sim. Quer dizer que o de Novembro, provavelmente não vão receber também porque Setembro também ficaram todo mês fora.

CA – Pois!

MC – Mas consequências normais de não terem trabalhado unicamente. E, portanto, o nosso objectivo é que eles regressem. Pediram ao nosso advogado, mesmo depois da ordem da juíza, que houvesse uma negociação. Anuímos. Só foi lá ontem que nem faria sentido porque nós já temos a faca e queijo, vamos dizer assim. Mas fomos negociar. Assumimos continuar a negociar, mas desde que voltem.

O que ficou agora, do ponto de vista, com a intermediação da IGT é que então, façam a devida assembleia e regressem no mais tardar na segunda-feira. Mas hoje já tínhamos a faca e o queijo para despedir porque o pessoal hoje já tinha três faltas não justificadas, por exemplo, conforme diz a lei. E se quiséssemos aproveitar, já o faríamos. Mas nós temos essa sensibilidade.

CA – Agora a questão é, tendo em conta aos factos que têm as actas, que mostram a condição da tesouraria, resolveriam isso se houver tesouraria? Essa condicionante, porque essa mensagem não foi bem interpretada pelo pessoal? Há aqui uma quebra de comunicação? O que se passa? Porque da maneira que está a explicar, está tudo claro. Há os documentos. Há condicionante da tesouraria. Agora, porque é que os trabalhadores não estão a pereceber isso? Não há comunicação?

MC – Eu acho que uma das questões é a da necessidade. A necessidade é premente. O dinheiro é necessário, e as pessoas estão muito apertadas. Essa necessidade gera oportunidades. E eu acho que alguém soube aproveitá-las bem.

CA – Nesse caso, houve oportunismo?

MC – Eu não disse isso. Mas quer dizer, oh Carlos, vamos dizer assim: eu sou trabalhador dessa casa ha mais de 20 e tal anos. Sei que já foi prometida muita coisa. Sei que cada pessoa que vem promete e não cumpri. Sei que quando as pessoas saem daqui saem a “lyfar”. Então sendo que a maioria das pessoas, conforme mostrei no nosso relatório, já têm muito de idade. São gatos escaldados, e, naturalmente gera um sentimento de revolta.

Porque eu mesmo fazendo um trabalho de baixa visibilidade, ele tem algum documento. Forjou alguma coisa. Às tantas, tem mesmo um documento qualquer que mostra e pode safar-se. Se fosse verdade, eu não atendia ninguém. Se já ouviram do Carlos, então fica assim, com a versão do outro lado com a razão. Mas pronto, vamos fazer o nosso trabalho.

Então, é uma situação muito complicada. E era sempre a fama de que aqueles que já são detentores da lei e do poder contra os citados. E eu achava que estava numa condição fragilizada também para ir dizer qualquer coisa que fosse. E havia de facto um palavreado de que em Maio e nós queríamos. Tivemos uma reunião com a UNTA, agora no dia 10 de Setembro. A senhora da UNTA perguntou ao PCA que participou na reunião remotamente: você está a dizer então que riscámos esse caderno e fazemos outro? E o PCA respondeu: não, minha senhora, era mesmo o nosso palavreado e nós queríamos fazer.

Portanto, estava tudo preparado. O que estava por trás disso, Carlos? Também não somos nenhuns ingénuos A subconcessão levava uma parte dos trabalhadores e nos dava uma renda por volta de 400 milhões. E levava metade do capital humano.

Portanto, tínhamos a redução de custos e mais dinheiro do que alguma vez tivemos na gestão, dinheiro fixo. Naturalmente, nós tínhamos, em teoria, as formas de reverter isso a favor do trabalhador. E fazer os investimentos e fazer tudo que era necessário.

CA – Mas isso não aconteceu?

MC – Não aconteceu e devia ter acontecido, mas naturalmente a greve criou aqui um mau clima e depois a subconcessão era um processo internacional, mas eventualmente teríamos tudo, com alguma pressão sim, mas sem irmos para fora de casa. Essa pressão normalmente, e não sejamos ingénuos, também cria naturalmente mais abertura.

As pessoas ouvem afinal esse bebé está a chorar. Mas a forma como foi feita de facto é que não foi do meu ponto de vista mais aconselhado.

CA – Mas há alguma possibilidade, neste caso, já que as receitas não são as esperadas, de a Angola Telecom se tornar privada? A Angola Telecom está tecnicamente falida. É isso?

MC – Está. A Angola Telecom está tecnicamente falida. Financeiramente, sim.

CA – Está mesmo?

MC – Está. Já há algum tempo. Não é de hoje.

CA – Quer dizer que gasta mais do que recebe?

MC – Gasta mais do que recebe, mesmo do ponto de vista operacional. Saímos em terceiro. Fomos a terceira maior Empresa Pública com resultado liquido positivo, só atrás da Sonangol e da Endiama.

CA – Agora?

MC – Agora, mas por conta também da alta dívida que temos em moeda forte, que com a baixa de câmbio gerou reajuste para baixo e isso também fez-nos ganhar alguma coisa. Mas do ponto de vista de resultados obtidos operacionais, os nossos resultados são negativos. Em 2020, foram de 4 mil milhões. E agora reduzimos para 2 mil milhões. Mas o resultado líquido positivo foi muito bom, mas foi muito bom por causa dos resultados financeiros. Por causa, maioritariamente, desta redução do custo em kwanzas, das dívidas que temos em moeda forte. Portanto, esse reajuste gerou isso. Mas nós, operacionalmente, aquilo que é a nossa receita contra aos nossos custos, ainda temos algum trabalho para fazer.

 

RESULTADOS ECONÓMICOS E FINANCEIROS DA EMPRESA

 

CA – 2 mil milhões negativos?

MC – 2 mil milhões nnegativos e já foi pior. E se fôssemos a anos anteriores, ainda tinha sido bem pior.

CA – Já passou por 4 milhões?

MC – O ano passado foi. Não passou. Foi mesmo.

CA – Nós podemos tirar uma foto disso?

MC – Podem encontrar disponível no site do IGAPE o relatório todo. E muitas vezes digo aos meus colegas: quando eu entrei, essa entidade que eu encontrei que audita as nossas contas, até antes de eu entrar, tínhamos escusa de opinião. Ou seja, ele olhava para as nossas contas e dizia, aí nem ponho o dedo e nem dou opinião. Felizmente, também alguma sorte a mistura, mais algum trabalho, desde que entramos, nós temos opinião as contas todos os anos. E esse não foi exceção. Portanto, aqueles números foram auditados pela Ernst & Young e dizem que estão de acordo. Tirando as reservas que põem nas nossas contas. Portanto, não é só meu relatório. Mas que foi auditado também. Ah! E tem o conselho fiscal também.

CA – Temos que apontar também a empresa que faz auditória.

MC – Mas isso tem tudo no site do IGAPE, na mesma estrutura que estamos agora a ver. É só procurar no Google IGAPE relatórios. Tem aí os relatórios de todas as empresas públicas do sector. Se quiser ver a EDIAMA ou outra pública, está tudo lá.

A Elsa tem razão, Carlos. Isso responde à sua última pergunta esse último parágrafo da Ernst & Young, que diz o seguinte: “sem afectar a opinião expressa no parágrafo anterior, chamamos a atenção para o facto dos capitais próprios serem negativos e do passivo corrente exceder o activo corrente em 137.898.181 milhares de Kwanzas, sem considerar os potenciais e efeitos das matérias apresentadas nas Bases para Opinião com Reservas. Essas circunstâncias indicam a existência de uma incerteza significativa que pode colocar em causa a capacidade da Empresa em continuar o seu curso normal de negócios. Neste contexto, a continuidade da Empresa está dependente de apoio a prestar pelo Estado e/ou da realização de futuras operações lucrativas”. Portanto, não sou eu a falar, mas é um dos top quatro do mundo que audita as nossas contas e é muito chato falar disso.

OPINIÃO DA AUDITORIA FEITA, COM RESERVAS 

 

CA – Quer dizer que há possibilidade de Angola Telecom tornar-se privada?

MC – Essa possibilidade há.

CA – Tendo em conta o resultado negativo?

MC – Há e depende do accionista. O que nós…

CA – Existe essa possibilidade?

MC – Sim, grande. Agora depende da decisão, o que se quer agora? Quer-se trazer essas ferramentas, essa cana para nós pescarmos. Existe hoje um decreto presidencial, de investimento técnico. Portanto meto o meu dinheiro, mas por via dum operador dum gigante do mercado, termos então redes, termos novamente acesso, termos as condições para conseguirmos de facto trabalhar as condições técnicas. E isso exige basicamente renovação das nossas linhas de transmissão provinciais, das linhas de transmissão metropolitanas e redes que cheguem até ao utilizador final. Portanto, isto está aprovado também. É uma das nossas esperanças para essa reversão da actual situação da empresa. Mas temos em forja também para tal.

CA – Há outros meios para se resolver isso?

MC – A subconcessão seria um deles.

CA – A subconcessão, neste caso, é o quê?

MC – A subconcessão seria a entrega de património da AT para alguém recuperar e explorar.

CA – Um privado?

MC – Um privado e a pagar uma renda. É quase um início de uma privatização, privatização da gestão, vamos dizer assim.

CA – Isto já estava no ar?

MC – Isto já estava no ar. Se já estava no ar, quer dizer que o accionista já entende.

CA – Podia ser nacional ou estrangeiro?

MC – Nacional ou estrangeiro. Portanto, é o objectivo e continua a ser o obejctivo. E este detalhe fez falhar, mas o nosso caderno era comprado e o nosso caderno foi por três entidades que disseram que estão disponiveís para avançar. Mas aí pronto, terminou tarde, vieram às eleições e não havia sequer tempo para tal. Nós temos agora que olhar junto do departamento ministerial da tutela.

CA – Convém fazer isso agora?

MC – Se convém agora ou se convém primeiro ter o investimento para depois irmos com outros temos e condições para uma subconcenssão ou adiantar com a subconcessão?

CA – Mas por agora a subconcessão?

MC – O mais provável agora é o investimento porque a subconsessão estava avaliada para baixo por causa do grande investimento que tinha que ser feito para recuperação. Portanto, tendo nós esta infra-estrura, então temos muito mais rendimento do que o rendimento que teríamos anteriormente. Portanto, havia menos risco. Um bocadinho menos risco para quem viesse investir.

CA – Muito obrigado!

MC – Bom trabalho, Carlos Alberto!

CA – Obrigado!

Carlos Alberto

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