“A decisão judicial provou que não falsifiquei documentos, pelo contrário, evitei que uma ilegalidade se consumasse”

 “A decisão judicial provou que não falsifiquei documentos, pelo contrário, evitei que uma ilegalidade se consumasse”

O Presidente da República João Lourenço procedeu, no pretérito dia 11 de Outubro, à nomeação dos seus Consultores, Vice-governadores Provinciais e Inspectores-gerais Adjuntos da Administração do Estado.
Dentre os últimos, a nomeação de Sílvia Adriana Ferreira Julião Cristóvão para o cargo de Inspectora-geral Adjunta da Administração do Estado, e a sua subsequente e repentina substituição por Venceslau Canjongo, mostrou-se a mais polémica junto dos diversos quadrantes da vida pública, suscitando um misto de alegria e preocupação que se estendeu às redes sociais.

Contudo, sem que tivesse havido publicidade da revogação do acto que a nomeou e do acto de nomeação do substituto (Venceslau Canjongo) pela via inicialmente usada para o efeito, foi vista, no jornal da 20 horas de um canal televisivo, a tomada de posse de pessoa diversa da nomeada, pese embora o Centro de Imprensa da Presidência da República de Angola (CIPRA) tenha noticiado a informação segundo a qual a substituída teria comparecido no acto presidido pelo Titular do Poder Executivo e tomado posse. Confira abaixo.

A não tomada de posse e substituição envoltas nas irregularidades supra mencionadas foram justificadas, pela imprensa virtual, com uma suposta descoberta de circunstâncias comprometedoras, indícios de falsificação de documentos e de corrupção imputados à substituída (Sílvia Julião Cristóvão), com base em matérias exibidas pelo jornal “A República”. Confira abaixo!

Várias questões procedimentais emergem da realidade factual descrita, desde logo as referentes à validade e eficácia dos actos sobrepostos, uma vez que não se tem ciência de que a substituição tenha sido precedida de exoneração da substituída, bem como deixa à mostra a desarticulação existente na comunicação entre os órgãos auxiliares do Titular do Poder Executivo (TPE), comprovada pela publicação, pelo CIPRA, da consumação de uma tomada de posse que não ocorreu, como se desconhecesse a efectivação da substituição pelo Gabinete do Presidente da República.

Por outro lado, parece surreal a possibilidade de o TPE ter assinado um despacho de nomeação para um cargo de tamanha importância, tendo em conta o papel e desafios da Inspecção-Geral da Administração do Estado, sem que tenha havido um levantamento prévio de questões menos abonatórias da nomeada, situações comprometedoras que num ápice vieram à tona (em vários jornais digitais em simultâneo, como se os gestores dos referidos jornais fossem a mesma pessoa), após a prática e publicitação do acto de nomeação. Igual espanto provoca o facto de, tendo tal falha ocorrido, o PR ter contornado a situação vexatória para a sua imagem, sem pedir responsabilidades a quem tramitou o processo.

Face ao imbróglio criado, as situações não esclarecidas, as justificações apresentadas pelos media e a necessidade de dar respostas às questões suscitadas em torno do ocorrido, o Portal “A DENÚNCIA”, comprometido com um jornalismo isento, realizou um aturado trabalho investigativo, tendo recolhido provas que constituíram os processos administrativo e judicial que deram lugar às acusações, cruzando os dados obtidos, ouvindo intervenientes nos processos e consultando as instituições que os tramitaram, o que permitiu trazer esta matéria e parte do que se apurou sobre as acusações formuladas.

A diligência inicial consubstanciou-se na análise das matérias publicadas pelo jornal “A República” no ano de 2019, onde apuramos a formulação dos seguintes factos:

  • O jornal “A República” acusa Sílvia Cristóvão de falsificação de documentos de terreno, falsas declarações, abuso de funções e de corrupção – doc. 8, num processo que opõe os cidadãos Maria Alice Panzo, Martinho João Fortes e Jackson Neto, sobre um terreno de 600 m2, sito actualmente no Município de Talatona, bairro Bem-vindo/Benfica.
    No referido processo a acusada, nas vestes de Directora do Gabinete Jurídico da Administração Municipal de Belas, teria manipulado o processo de litígio com o objectivo de desapossar Maria Alice Panzo do citado terreno e dá-lo à contraparte, Jackson Neto, que o Jornal alega ter sido seu gestor de contas no Banco BPC.

O PAD convidou a acusada a pronunciar-se sobre o imbróglio e as acusações contra si proferidas que teriam inviabilizado a sua tomada de posse como Inspectora-geral Adjunta da IGAE e Sílvia Julião Cristóvão concedeu-nos esta Grande Entrevista, que passamos a narrar.

Carlos Alberto (CA): Dra Sílvia Cristóvão, agradecemos por ter aceitado, depois de alguma insistência de nossa parte, dar entrevista ao Portal “A DENÚNCIA” (PAD). A senhora foi mesmo nomeada ao cargo de Inspectora-geral Adjunta da Administração do Estado?

Sílvia Cristóvão (SC): Conforme tomámos todos conhecimento por via da comunicação social, sim.

CA: O que aconteceu? Por que não tomou posse?

SC: Não tenho qualquer pronunciamento a emitir sobre o que aconteceu na tramitação da tomada de posse, por uma questão de coerência e honestidade só me pronuncio sobre os assuntos que domino, não participei no processo, pelo que, não tendo participado, não tenho nada a dizer sobre como foi tramitado.

CA: O PAD tomou conhecimento de que a senhora foi vítima de uma “máfia”, com as devidas aspas, instalada na Presidência da República? Confirma? Desconfirma?

SC: Conforme lhe disse, desconheço os detalhes inerentes à tramitação do processo de tomada de posse de pessoas nomeadas, quem interveio e a função de cada um, logo, não tenho base para sustentar a ideia segundo a qual as eventuais falhas do processo se devem à actuação dolosa ou a simples erro humano.
Por outro lado, se realmente existe a “máfia”, como citou, o mais provável é que a sua actuação não esteja disponível ao conhecimento das pessoas visadas por ela, como é óbvio.

CA: Mas, enquanto jurista, não acha estranho que, apesar de não ter tomado posse e não se ter ouvido sobre a sua exoneração, outra pessoa tenha tomado posse no seu lugar? É mesmo esse o procedimento a observar?

SC: Por razões éticas não vou tecer comentários sobre essa questão.

CA: Sei que tramitou o processo denunciado pela Administração Municipal de Viana às instâncias superiores e por nós tratado na reportagem sobre a Portomóvel, Inspector-geral Adjunto da IGAE (Eduardo Semente Augusto), GPL (Joana Lina), VICE-PGR (Mouta Liz), ZEE e a ocupação ilegal do NAIL, existe alguma ligação com este caso para que não fosse aceite na Presidência da República?

SC: Esse caso foi tratado a nível institucional pela Administração Municipal de Viana que, depois de ter constatado e paralisado a construção de mais de 600 casas e lojas no perímetro de expansão e protecção do Novo Aeroporto Internacional de Luanda pela empresa Portomóvel, perímetro definido por Decreto Presidencial, denunciou tal ocupação às instituições que deviam dar tratamento ao assunto.

CA: À Presidência da República, à PGR e à  IGAE?

SC: Dentre outras. Por isso, não faz qualquer sentido concluir que um funcionário público sofra represálias de representantes do Estado em resultado de denúncia feita pela instituição pública em que prestava serviço, para proteger um equipamento estratégico do próprio Estado e o interesse público.

CA: Quando foi denunciada essa ocupação?

SC: Em 2020.

CA: Sabe que a ocupação não foi sanada e que existem cerca de 800 casas e lojas construídas e vendidas no perímetro, que figuras públicas e funcionários públicos, inclusive os que tramitaram os processos dentro das instituições a quem a Administração de Viana endereçou denúncia, foram beneficiados?

SC: Fui exonerada logo a seguir às várias denúncias feitas por nós e, portanto, desconheço a conclusão deste e dos restantes processos.

CA: O PAD tem e já exibiu as provas do envolvimento destas figuras na reportagem sobre a Portomóvel, Inspector-geral Adjunto da IGAE (Eduardo Semente Augusto), GPL (Joana Lina), VICE-PGR (Mouta Liz), ZEE e a ocupação ilegal do NAIL. Pode contar-nos por que razão a Joana Clementina trouxe uma capa do extinto jornal “A República”, com o seu rosto como manchete, alegando que a senhora usurpou terrenos enquanto esteve no Gabinete Jurídico da Administração do Belas?

SC: Tive a oportunidade de ver o post e, conforme a sua autora diz, publicou conforme recebeu, ou seja, alguém solicitou que ela publicasse.

CA:  O que está a querer dizer? Joana Clementina foi usada propositadamente para que não tomasse posse? Afinal, falsificou ou não documentos que causaram o desapontamento do terreno de Maria Alice Panzo? Recebeu alguma contrapartida por isso?

SC: Para que se perceba a questão é preciso que se diga que Maria Alice Panzo comunga cama e mesa com Martinho João Fortes, também conhecido por “João Diala”, editor do jornal “A República”. Portanto, servem-se de um meio de comunicação, que devia obedecer aos princípios e regras de isenção e imparcialidade da Lei de Imprensa, como arma de arremesso e de advocacia em causa própria, comportamento pontualmente reportado à Entidade Reguladora da Comunicação Social Angolana (ERCA), onde o caro jornalista Carlos Alberto que me está a entrevistar foi Conselheiro, e ao Ministério de Tutela.

Este processo começou a ser tramitado pelo Gabinete Jurídico de Belas em 2015, após instrução preliminar e Relatório da Direcção de Fiscalização e Inspecção de Belas. A instrução do processo concluiu que Maria Alice Panzo, curiosamente a denunciante no processo de transgressão, não dispunha de qualquer documento que a vinculasse ao terreno reclamado e que a contraparte, Jackson Neto, apresentou um processo de concessão fundiária que remonta do ano de 2007, com contrato promessa emitido em 2011, tendo edificado vedação e caboucos sobre o terreno. Também relata que, ouvidos os vizinhos, todos conheciam a contraparte como dono do terreno e da obra e desconheciam a existência de Maria Alice Panzo, conforme vê nesse documento que pode exibir publicamente.

 

 

Diante das constatações feitas, o Relatório recomendou que as partes tratassem do litígio em foro próprio: o judicial.
Ora, tendo as parte decidido tratar do litígio em foro judicial (processo-crime por usurpação de imóvel e cível de nulidade do direito de superfície que Maria Alice Panzo conseguiu obter na pendência do litígio junto do Governo Provincial de Luanda) coube apenas ao Gabinete Jurídico elucidar estes órgãos sobre o que a Administração Municipal constatou ao longo do processo, nomeadamente, que Maria Alice Panzo não apresentou documentos sobre o terreno que reclamou como seu, que a contraparte apresentou um processo de 2007 e Contrato Promessa de Direito de Superfície de 2011, vedação e caboucos feitos sobre o terreno, conforme relatório de instrução do processo.

Foi igualmente relatado que o GPL foi alertado sobre a existência do litígio antes da emissão do Direito de Superfície mas que o documento foi emitido na mesma.

CA: É normal que uma pessoa que denuncia a ocupação do seu terreno não apresente os documentos como prova?

SC: Essa é uma boa pergunta. Não se concebe que alguém que tenha denunciado a ocupação de um terreno que alega ser seu, diante da apresentação de documentos do terreno pela contraparte e dispondo de documentos mais fortes ou mais antigos não os apresente, deixando de usar o ónus da prova que sobre si impendia.

CA: Como se pode compreender essa atitude?

SC: Chego a uma de duas conclusões: ou os documentos não existiam naquela altura e foram produzidos depois ou, com receio da descoberta da falsificação grosseira do seu contrato promessa, Maria Alice Panzo não arriscou exibi-lo sem que o Direito de Superfície estivesse emitido.

CA: Está a dizer que o documento que serviu de base para a emissão do direito de superfície de Maria Alice Panzo é falso?

SC: Exactamente, em sede dos processos crime e cível, Maria Alice Panzo juntou, como documento de base do seu Direito de Superfície, cópia do contrato promessa 733/08, datado de 18 de janeiro de 2008, que aparentemente lhe prometia conceder o talhão 644 do loteamento Bem-vindo. Ocorre porém que, quando confrontado com o contrato promessa original remetido ao IPGUL para a emissão do Direito de Superfície, com o mesmo número, data e assinaturas, constatou-se que nele constava não já o talhão 644 e sim o 642 A, que lhe tinha sido efectivamente prometido, o que faz concluir que o número do talhão constante da cópia remetida às instâncias judiciais foi rasurado de maneira grosseira, tendo sido apagada a letra A e alterado o número 2 para 4, para fazê-lo coincidir com o talhão prometido à contraparte, em clara demonstração de que litigava de má-fé, conforme pode ver aqui nos dois documentos.

Contrato Promessa RASURADO 

Contrato Promessa original 

Enquanto isso, o seu companheiro de cama e mesa (Martinho Fortes) fustigava a contraparte com matérias difamatórias por meio do seu jornal (A República), o que mostra o modus operandi vil e calunioso do autor das peças feitas contra a minha pessoa, como pode ver neste documento.

 

Uma vez que a falsificação de documento autêntico é crime público, a Administração Municipal solicitou ao Ministério Público, no processo crime que já corria, que despoletasse também a instrução de processo pelo crime correspondente contra Maria Alice Panzo, ex- secretária-geral do Governo da Província do Cuando Cubango, com passagem pelo GPL em período próximo ao do litígio, enquanto membro do Gabinete do governador Higino Carneiro.

CA: Terá havido tráfico de influências?

SC: Mais uma vez não lhe sei dizer, analiso e concluo apenas com base nos factos e estes mostram que Maria Alice Panzo sempre teve um contrato promessa que lhe prometia conceder o talhão 642 A, que remeteu ao GPL para a concessão do Direito de Superfície, mas, no entanto, quando foi chamada no processo crime e cível para provar o vínculo que tinha com o terreno, apresentou um contrato promessa com o número rasurado. E mais: é um contrato promessa de 2008, cujos requerimentos que o solicitam são datados de 2012! 

CA: O filho nasceu antes que a mãe?

SC: Pasme-se!

Em 2020, em acareação ocorrida em sede do processo aberto a meu pedido junto da IGAE, onde, à semelhança do pedido que enderecei à PGR e a outros órgãos, solicitei que investigasse a veracidade das acusações que me tinham sido imputadas, nessa diligência Maria Alice Panzo foi confrontada pelos instrutores do processo sobre a discrepância entre o número de talhão constante do contrato promessa remetido ao IPGUL e na cópia remetida aos órgãos de justiça, justificou-se, e isso ficou lavrado em auto de acareação, dizendo que em 2011 foi chamada à Administração da Samba para a correcção da suposta numeração errada do talhão no contrato, alegando que deixou ficar o documento com pessoa que diz não se lembrar, entretanto levantou o documento corrigido no dia seguinte das mãos de quem igualmente não se lembra!

A minha pergunta que não se quis calar e que ficou registada no auto foi a de saber como uma pessoa medianamente sagaz e funcionária de Governo Provincial recebeu um contrato promessa supostamente corrigido mas com a mesma data, número e assinaturas, inclusive a de um Administrador Municipal que já não estava em funções há 3 anos, Maiembe Humba?
Maria Alice Panzo viu o seu castelo de cartas desmoronar-se e nada mais disse.

CA: E qual foi a conclusão do processo na IGAE?

SC: Desconheço, nunca recebi notificação da sua conclusão.

CA: Isso é normal na Administração Pública em Angola?

SC: Não me compete fazer juízos de valor sobre o assunto, os actos e os procedimentos têm prazos legais, cabe a cada um verificar e concluir.

CA: Que atitude tomou diante das acusações que lhe foram feitas pelo jornal “A República”?

SC: Participei contra Martinho João Fortes, editor do jornal “A República, os crimes de difamação e calúnia, processo que já desapareceu e foi reconstruído por duas vezes no SIC-GERAL e tramita sob o número 5957/019-02, curiosamente recebe o mesmo número do primeiro processo desaparecido sempre que é reconstituído.
E escrevi à IGAE, PGR e outras instituições, a solicitar que investigassem o processo, o meu património e contas e averiguassem a existência de indícios dos crimes de que me acusava o jornal, conforme vê. O tratamento e desfecho das solicitações são as que já abordei antes e pode ver deste documento.

CA: É normal um processo como esse desaparecer várias vezes no SIC-GERAL? Será que houve corrupção ao nível do SIC-GERAL? Estamos neste nível de corrupção?

SC: Normal não é. Mas não estou em condições de dizer se houve ou não corrupção ou tráfico de influência contra a verdade dos factos.

CA: Já alguma vez foi vítima de ameaça contra a sua integridade física?

SC: Sim, por meio de mensagens anónimas e já tive os pneus do carro esquartejados no parque da Administração Municipal de Viana.

CA: A senhora acha que foi sorte ou azar a sua não tomada de posse na IGAE, tendo em conta os possíveis “tubarões” que enfrenta?

SC: Eu não encaro as coisas a partir desta perspectiva. Os cargos são para servir, este deve ser o foco, só isso.

CA: Como pensa resgatar a sua dignidade perante fake news, conforme relata aqui, contra si e que podem condicionar o seu futuro, já que é uma jurista jovem?

SC: A minha dignidade nunca esteve em causa, quem me conhece sabe quem eu sou.
O meu futuro, realização pessoal e profissional não são condicionados por cargos. Com ou sem cargos, todo o bom profissional pode ser um indivíduo útil para a sociedade.

CA: Nenhum dos processos relativos ao litígio e às acusações que lhe foram feitas teve conclusão?

SC: O processo-crime está inconclusivo há 3 anos, o inspectivo idem.
Porém, o processo de nulidade do direito de superfície emitido sobre o lote 644 em benefício de Maria Alice Panzo, quando o seu contrato promessa lhe prometia conceder o 642 A, processo que tinha, para além de si, o GPL como réu, foi concluído.

CA: Qual foi o desfecho?

SC: Os meus advogados têm sido incansáveis e com uma paciência de Jó no acompanhamento do processo-crime que iniciei contra o jornal, na reconstituição dos processos quando desapareceram, no seguimento e recolha de provas dos processos judiciais das partes que importem à conclusão do meu processo-crime, graças a estes profissionais incansáveis permaneço com a confiança inabalável e com a paciência renovada para reconstruir o processo pelo número de vezes que se mostrar necessário.
No decurso do processo judicial, a Administração Municipal de Talatona emitiu, desconhecendo a sua existência, com base no direito de superfície emitido a favor de Maria Alice Panzo e a pedido desta, licença de construção sobre o terreno em litígio. Entretanto, emitiu-a não já em nome da titular do direito de superfície, mas em benefício do seu companheiro de cama e mesa, Martinho João Fortes, editor do jornal “A República” e pessoa desprovida de qualquer título, conforme fica evidente neste documento.

Informada da pendência de processo judicial e da gralha cometida ao emitir licença de construção em nome de quem não detinha direito fundiário, a Administradora Municipal de Talatona revogou a licença e embargou a obra.

O embargo foi desrespeitado pelo casal, o que levou à abertura de processo de transgressão, tendo o jornal passado a incluir nas suas matérias caluniosas, o assassinato da imagem da então Directora do Gabinete Jurídico de Talatona, pessoa que notificou o casal do acto de revogação da licença e de embargo praticado pela Administradora Municipal.
Na sequência do desrespeito pela autoridade administrativa , o tribunal decretou o embargo judicial de obra nova com o auxilio de força pública.

Para escapar da condenação, Maria Alice Panzo propôs acordo à contraparte, por meio do qual e em implícita admissão de que litigava para obter bem alheio desde o princípio, ofereceu outro terreno de igual dimensão ao do objecto do litígio, vedado conforme o encontrou no início da querela e com direito de superfície, em troca da manutenção do terreno da contraparte que havia ocupado, à revelia e em desobediência às autoridades, com edifício de um piso.
O acordo foi aceite pela contraparte e homologado pelo Tribunal e o litígio foi dado como findo.

Diante desta conclusão, pergunto-me que documentos falsifiquei, que declarações falsas prestei que não tenham sido comprovadas pelos documentos que compuseram os diversos processos e o que foi constatado que recebi ilicitamente para fazer o meu trabalho?

A decisão judicial provou que não falsifiquei documentos, pelo contrário, por ter detectado a discrepância entre o número de lote constante da cópia de contrato promessa remetida ao tribunal por Maria Alice Panzo e o lote constante do original remetido ao IPGUL para a emissão do direito de superfície, que expôs a má-fé do casal, evitei que uma ilegalidade se consumasse e uma injustiça se efectivasse e paguei a factura com assassinato de carácter.

CA: Diante da conclusão do processo judicial, o que pensa fazer a seguir?

SC: Diligenciar o desfecho do processo aberto pelos crimes de difamação e calúnia do jornal “A República” e a conclusão do processo inspectivo aberto junto da IGAE a meu pedido.
Porém, ainda há a questão da falta de tratamento do crime público de falsificação de documento autêntico solicitado pela Administração Municipal de Belas em 2015, reiterado por mim no processo inspectivo.

CA: Julga ser necessário para repor o seu bom nome?

SC: Ilustre jornalista, as pessoas que me são próximas e cuja opinião tem relevância sabem quem sou. Não por meio de justificações mas porque são testemunhas oculares do meu modo de vida.
Logo, os processos devem ser concluídos porque vivemos num estado democrático e de direito, onde as pessoas e as instituições devem actuar segundo as regras estabelecidas e que conformam a vida em sociedade.
Depois porque, como servidores públicos, é nossa função defender o interesse público, cumprir e fazer cumprir a lei.
Quando denunciei a falsificação do contrato promessa de Maria Alice Panzo, tinha a alternativa de não o fazer e, com isso, teria poupado todos estes anos de desconforto e assassinato de imagem sofridos às mãos do jornal. Porém, estava no exercício de funções públicas, investida mediante juramento solene de cumprir e de fazer cumprir a lei, portanto, não fiz mais do que o meu trabalho.

CA: Arrepende-se de não ter seguido o caminho mais fácil e menos incómodo?

SC: Não! É-me mais fácil gerir as cicatrizes do processo do que conviver com a omissão de tratamento de uma questão irregular que chegou ao meu conhecimento.

CA: Durante os cargos que ocupou, que constatações fez e que denúncias fez para que o crime não compensasse?

SC: Sobre as constatações e processos administrativos de que tratei e que nada têm a ver com o processo-crime particular instaurado na sequência de matérias caluniosas publicadas pelo jornal “A República”, por força do dever de sigilo a que estou obrigada, não emitirei qualquer pronunciamento.

CA: Qual foi o desfecho dos processos que denunciou?

SC: Idem.

CA: A senhora tem algum terreno ou casa nos lugares onde exerceu cargo público? Já se beneficiou do seu cargo para adquirir bens materiais?

SC: Não tenho património resultante do exercício dos cargos que desempenhei, isso pode ser comprovado pelas instituições com legitimidade para aferir esse dado, por meio da confrontação da minha declaração de bens e rendimentos com o meu património.

CA: Tem noção das pessoas que estão atrás de si e que não permitem que dê o seu contributo ao Estado? Tem nomes?

SC: Não sou apologista de teorias de conspiração, embora tenha ciência de que, apesar de o Estado e as suas instituições serem entes de bem, existem pessoas menos boas. Entretanto, continuo a acreditar na idoneidade das instituições.

CA: Não desconfia de ninguém?

SC: Não paro sequer para cogitar a possibilidade.

CA: Como analisa a atitude da Presidência da República (CIPRA) de ter publicitado o seu nome como nomeada e ainda no mesmo dia da posse o seu nome volta a ser publicitado quando afinal era outra pessoa que tomou posse no seu lugar?

SC: Reitero que não tenho opinião sobre isso, por ser uma questão cuja tramitação não acompanhei.

CA: A senhora é jurista. Qual deve ser a postura da Presidência da República quando se confronta com uma nomeação de alguém com antecedentes criminais?

SC: Sou jurista mas não me compete analisar a matéria, não é ético fazê-lo na presente circustância.

CA: O facto de a Presidência da República ter agido de forma “oculta” contra si indicia que ao nível da Cidade Alta existem pessoas que a perseguem em função do seu passado (de denúncias)?

SC: Eu não seria tão fatalista.
O discurso do Titular do Poder Executivo vai no sentido de combater práticas que desabonam a ética, as boas práticas, o alcance do interesse público e arrepiam a legalidade. Logo, não tenho base para concluir que quem denuncie e combata tais práticas seja sancionado por isso.

CA: O acto de tomada de posse, em seu lugar, pode ser considerado nulo, nos termos da lei?

SC: Agora o ilustre quer que lhe preste consultoria jurídica gratuita (risos). Não tenho opinião sobre essa matéria.

CA: Durante a sua trajectória profissional, já colidiu contra Eduardo Semente Augusto (ex-IGAAE), contra o VICE-PGR Mouta Liz… e mais? Já teve algum caso contra pessoas que neste momento ladeiam o Presidente da República João Lourenço? Os Ministros de Estado Edeltrudes Costa, Adão de Almeida, Francisco Furtado, Manuel Nunes Júnior e outros?

SC: Toda a interacção mantida no foro profissional com estas ou outras entidades estão sujeitas ao sigilo profissional, não deve ser abordada fora do devido foro.

CA: A senhora foi colega de Marcy Lopes, Adão de Almeida e outros que tomaram posse sem nenhum problema, mesmo com notícias contra si, sem que tenham justificado a sua postura? Houve alguma situação entre vocês no passado? Não se lembra de nada que pode explicar essa perseguição contra si?

SC: Não, nem compreendo a razão de ser desta pergunta.

CA: Qual a relação que tem com o IGAE Sebastião Gunza? Por que acha que ele a escolheu, jovem como é, e para um cargo muito importante e com grande responsabilidade?

SC: Está-me a contar uma novidade, conforme disse, desconheço os meandros deste processo.

CA: Por que quem propôs o seu nome não soube defendê-la? Será que Sebastião Gunza foi pressionado ao mais alto nível da Cidade Alta a deixá-la para trás e foi obrigado a ceder, mesmo sabendo tratar-se de uma possível injustiça?

SC: Idem.

CA: Acha que responsáveis do Estado têm medo da sua verticalidade?

SC: Não sei responder a essa pergunta.

CA: Acha que João Lourenço pode estar ladeado de pessoas desonestas e corruptas e que pretendam afastar todos os angolanos que mostrem um perfil idóneo, de seriedade e de cumprimento a favor da Pátria acima de interesses individuais e ou político-partidários?

SC: Não tenho opinião sobre o assunto.

CA: Dra. Sílvia Cristóvão, muito obrigado por nos conceder essa Grande Entrevista e desejamos que a senhora tenha uma melhor sorte numa próxima nomeação (se voltar a acontecer um dia).

SC: Agradeço também ao Portal “A DENÚNCIA” por pelo menos me ter dado a oportunidade de me defender antes de fazer um juízo precipitado de valor da minha pessoa e felicito o ilustre jornalista Carlos Alberto por ser um profissional incansável, sempre atrás da verdade sem olhar para a cor dos olhos dos actores e pela persistência, o que não é fácil ver nos jornalistas de hoje.

CA: O NOSSO COMPROMISSO É COM A VERDADE E COM ANGOLA.

Em função das revelações feitas pela nossa entrevistada Sílvia Cristóvão, o Portal “A DENÚNCIA” promete trazer outros resultados desse episódio.

Duas perguntas que não se querem calar:

1. Se tudo que a Dra. Sílvia Cristóvão nos contou aqui é verdade, e apresentou provas, podemos dizer que os gestores públicos que defendem a Constituição, a lei e o Estado não têm futuro? Não têm espaço ao nível da Presidência da República? E como fica o propalado “combate à corrupção” hasteado pelo Presidente da República João Lourenço e a máxima segundo a qual “ninguém é tão rico que não possa ser responsabilizado e ninguém é tão pobre que não possa ser protegido”?

2. Temos mesmo uma Justiça Selectiva em Angola? O Combate à corrupção é à impunidade é para inglês ver ou o Presidente da República João Lourenço está num “cafrique” na Cidade Alta?

Essa investigação jornalística continua…

 

 

Carlos Alberto

http://adenuncia.ao

Deixe uma Resposta

O seu endereço de email não será publicado.

Não é possível copiar o conteúdo desta página
Iniciar conversa
Estamos online
Gostava de fazer uma denúncia de irregularidades e/ou crimes.