Se dúvidas houvesse de que os últimos discursos do presidente do MPLA, João Lourenço, indicavam que apenas alguém com a sua bênção poderá ser o próximo presidente do partido — admitindo-se igualmente que o próprio tenderá a aceitar apenas um sucessor presidencial politicamente alinhado com a sua conveniência, a julgar pelos discursos e pelos sinais difundidos nas redes sociais —, Cuanza-Norte veio, neste sábado, 21 de Fevereiro de 2026, dissipar tais dúvidas.
A candidatura única no IX Congresso do MPLA, a realizar-se este ano, surge politicamente confirmada. A concentração interna de poder deixa de ser percepção e passa a ser opção assumida.
A alínea c) dos objectivos específicos da Agenda Política do MPLA para 2026 — “Apreciar a Moção de Estratégia do candidato a Presidente do Partido” — não é um mero detalhe redaccional. É a verdadeira notícia do acto político deste sábado.

Ao referir-se, no singular, a “candidato”, a direcção do partido sinaliza que o IX Congresso Ordinário deverá consagrar uma candidatura única à presidência. Num partido que governa Angola há mais de 50 anos, esta escolha é politicamente reveladora.
Um congresso com candidato único pode ser estatutariamente admissível. Mas é democraticamente empobrecido. Elimina o debate real, esvazia a disputa de ideias e transforma o Congresso num acto de aclamação — não de escolha. A democracia interna deixa de ser prática e passa a ser formalidade.
O precedente da OMA
O que agora se desenha no partido já teve ensaio na Organização da Mulher Angolana (OMA), braço feminino do MPLA, onde múltiplas candidaturas foram afastadas em favor de uma solução única.
A secretária-geral da OMA, Joana Tomás, será sucedida por Carlota Dias, sem qualquer outra alternativa.
Toda a gente já sabe quem será a próxima “líder” da OMA antes mesmo da realização do seu Congresso. Ou seja, as urnas estarão lá apenas para compor o cenário. E escrevemos sobre isso justamente para alertar para um perigo futuro. O perigo já não é futuro. Está confirmado.
A narrativa oficial invocou “unidade” e “coesão”. Mas unidade sem alternativa é estatização. Estatização é o contrário de pluralismo.
A província do Cuanza-Norte não trouxe ontem ao país apenas sinais; trouxe uma agenda estruturada com objectivos gerais e específicos. E, nos objectivos específicos, essa agenda reforça a percepção de que a máquina partidária privilegia o controlo em detrimento da competição interna. Quando a regra passa a ser candidatura única, o pluralismo deixa de ser dinamização — deixa simplesmente de existir. O MPLA continua um movimento estático no tempo e no espaço, a perder credibilidade todos os dias, talvez rumo à sua extinção. 2027 poderá ser um ano de história para Angola.
Cultura interna e eleições gerais
Há uma questão estrutural que não pode ser ignorada: se, dentro do partido, não existe possibilidade efectiva de múltiplas candidaturas, como convencer o país de que haverá plena aceitação de uma eventual derrota nas eleições gerais de 2027? Como convencer o país de que não tem havido fraude eleitoral?
A cultura democrática constrói-se internamente antes de se proclamar externamente. Um partido que não pratica alternância interna dificilmente fortalece a pedagogia da alternância externa. A democracia não se aprende apenas no discurso; aprende-se no exercício. Práticas internas moldam percepções públicas. São as percepções públicas que moldam a confiança institucional.
A metáfora da “máscara”
No recente debate promovido pelo Portal “A DENÚNCIA”, Miguel Ângelo evocou reflexões de natureza psicológica e psiquiátrica para analisar comportamentos de poder. Referiu que, quando um indivíduo perde a vergonha de praticar actos errados e ainda os publicita, não se trata de um comportamento considerado normal. Sublinhou, de acordo com médicos psiquiatras que consultou, que um cidadão com capacidade psíquica normal deve ter, necessariamente, vergonha do erro. A vergonha é um sentimento próprio de mentes saudáveis.
É pertinente recordar o psiquiatra Hervey Cleckley, autor de The Mask of Sanity (A Máscara da Sanidade, 1941). Cleckley descreve perfis marcados por ausência de remorso, superficialidade afectiva e capacidade de normalizar condutas desviantes sob aparência de racionalidade.
Evidentemente, não se trata aqui de qualquer diagnóstico clínico aplicado a actores políticos. A referência, apesar de estritamente metafórica, reporta-se a um conceito cientificamente estudado.
Por isso, a metáfora, na linguística, é útil. Ajuda a compreender que, quando práticas restringem o pluralismo e passam a ser assumidas publicamente sem constrangimento político, é porque se perdeu a noção de nojo social. Há uma deslocação na relação entre poder e limite. O que antes exigia justificação ética e responsabilidade moral passa a ser apresentado como natural e inevitável.
O sociólogo e quadro sénior do Serviço de Informações e Segurança do Estado (SINSE), Miguel Ângelo, na sua obra Angola na Era da Pós-Verdade: O Estado de Desalento e o Desalento do Estado, alerta para a banalização do desvio institucional e para a transformação do discurso político em legitimação do facto consumado. A candidatura única, apresentada como normalidade organizativa, encaixa nessa lógica: elimina-se a escolha e, depois, naturaliza-se a ausência dela. A ausência repugna e desumaniza os entes sociais.
O risco de uma legitimidade frágil
Neste sentido, seria crucial realçar também o contributo de Martha Nussbaum em relação ao papel que a vergonha, a repugnância ou o nojo assumem na vida individual e social.
A filósofa norte-americana, no seu livro Hiding from Humanity (2004), argumenta que devemos ter consciência destas emoções, dado que as mesmas estão associadas, de forma problemática, ao desejo de esconder a nossa humanidade, materializando o desejo irrealista e, por vezes, patológico de não ser vulnerável. Daí alertar que o exercício de qualquer actividade se deve orientar por normas claras, ética e responsabilidade. Sem ter em conta estas emoções, é virtualmente impensável obter resultados satisfatórios (Nussbaum, 2004).
Na sua perspectiva, a necessidade de se ater às normas e de exigir o seu cumprimento associa-se justamente ao facto de sermos vulneráveis ao dano de diferentes formas.
Quer isto dizer que a ideia de candidatura única, apresentada na Agenda Política do MPLA para 2026, não tem em conta — como bem defende esta proeminente académica americana — a vergonha, o nojo social e a repugnância como resposta às várias formas de vulnerabilidade, correspondendo a um mecanismo de defesa ou a “respostas nas quais depositamos os danos que sofremos, que poderemos sofrer ou que, com sorte, não sofremos” (idem).
É difícil compreender como é que o MPLA, que diz ser o partido com os quadros de maior referência do país, comete desvios desta natureza.
Max Weber defende que a legitimidade, produtora de consentimento activo ou passivo dos que obedecem — a crença num modelo, regime ou programa — deve constituir-se na fonte da obediência consentida.
Quer dizer que, se os estatutos do MPLA prevêem múltiplas candidaturas para a disputa à liderança do partido, este deve ser o princípio sacralizador para a escolha do futuro presidente do partido.
A alínea c) dos objectivos específicos da Agenda Política do MPLA para 2026, analisada na óptica da sociologia de Weber ou Michels, mais do que a teorização de uma estratégia política, evidencia um desvio de conduta colectiva. Significa que, se os estatutos do partido estão em articulação com a Constituição e se a competição democrática embasa as combinações multidimensionais com quadros institucionais e normativos, estes não devem ser simplesmente banalizados para satisfazer a vontade pessoal do presidente João Lourenço.
Unidade ou receio da escolha?
Os defensores da candidatura única argumentarão que ela preserva a estabilidade. Contudo, estabilidade não deve ser confundida com ausência de competição.
A história política demonstra que sistemas excessivamente fechados acumulam tensões invisíveis. Quando não existem canais internos de disputa, o conflito não desaparece; desloca-se para fora das instituições.
Não se exige que o partido abdique da sua liderança histórica. Exige-se coerência entre discurso e prática. Se João Lourenço dirige um partido que afirma defender democracia e boa governação, o mínimo seria permitir concorrência interna real, com igualdade de oportunidades e votação competitiva.
Outrossim, a própria Agenda Política do MPLA para 2026 afirma querer reforçar a credibilidade das instituições e a imagem externa do país. Contudo, a credibilidade não se constrói com proclamações; constrói-se com procedimentos verificáveis.
Quando uma organização já não sente necessidade sequer de evidenciar pluralismo — quando assume, de forma descomplexada, a candidatura única como modelo —, transmite a mensagem de que a escolha deixou de ser substância para se tornar estagnação. A alínea c) não é, portanto, um lapso. É um sinal político relevante, tanto para o MPLA como para o país. É um sinal profundamente preocupante.
A história demonstra que sistemas que eliminam a escolha em nome da unidade podem assegurar controlo no curto prazo, mas acumulam fragilidade no médio e longo prazo. A democracia pode ser lenta, ruidosa e desconfortável — mas é precisamente essa imperfeição que impede que a pressão social se acumule até ao ponto de ruptura.
Tudo indica que o MPLA investe num caminho que pode, um dia, gerar tensões sociais difíceis de controlar — e, quando os canais institucionais são estreitos, a pressão tende a procurar saídas fora deles.
