O ESTADO DA NAÇÃO QUE JOÃO LOURENÇO QUER DEIXAR PARA A HISTÓRIA
No dia 14 de Outubro, o Presidente da República, João Lourenço, inaugurou o memorial em homenagem às vítimas dos conflitos políticos ocorridos em Angola entre 11 de Novembro de 1975 e 4 de Abril de 2002, no âmbito do programa da CIVICOP.
O acto teve um significado político eminentemente simbólico. A proximidade entre a inauguração do memorial e o último discurso de João Lourenço sobre o Estado da Nação, proferido no dia 15 de Outubro, na Assembleia Nacional, por ocasião da abertura da 5.ª Sessão Legislativa da V Legislatura, convida a uma leitura que ultrapassa o protocolo institucional. O Presidente encerra o seu segundo mandato com uma narrativa que procura associar reconciliação, reformas económicas e moralização do Estado ao legado que pretende deixar aos angolanos.
Esta edição de A NAVALHA DE SÁBADO dedica-se à dissecação desse discurso, incidindo sobre os seus pontos essenciais, não apenas para compreender o Estado da Nação descrito pelo Chefe de Estado, mas também para confrontar essa representação com o país que os cidadãos vivem diariamente e com aquele que João Lourenço deixará em 2027.
Com cerca de quatro horas de duração e um documento extenso, o Presidente apresentou um inventário de realizações, indicadores e promessas. Contudo, a prestação de contas não se esgota na enumeração de obras, percentagens e reformas. Exige também o confronto com os resultados, as insuficiências, as contradições e as responsabilidades políticas. O país não se mede apenas pelo que o poder afirma ter feito, mas também pelo que os cidadãos continuam à espera de ver resolvido.
A inauguração do memorial na véspera do discurso presidencial reforça a centralidade da reconciliação nacional na narrativa de fim de mandato. A questão editorial não consiste em negar o valor simbólico do gesto, mas em saber se a homenagem será acompanhada por verdade, esclarecimento histórico, reparação e responsabilização, na medida legalmente possível. Sem essa dimensão, o risco é que a memória se transforme num instrumento de legitimação política, em vez de constituir um compromisso duradouro com as vítimas.
Vamos cortar por partes.
PRIMEIRO CORTE: O “ABRAÇAR E PERDOAR” COMO POLÍTICA DE ESTADO
“Esta nossa capacidade de abraçar e perdoar é fundamental para construirmos um país próspero…”
Como tantas vezes acontece no discurso político, importa olhar para o que é dito e para as questões que permanecem sem resposta. Quem abraçou quem? Quem perdoou o quê? E quem assumiu, de forma concreta, a responsabilidade pelos actos que feriram tantas famílias angolanas?
O memorial inaugurado no dia 14 é apresentado por João Lourenço como um “local de memória, de reflexão, de reconciliação”. A Navalha já tinha feito este corte: abraçar e perdoar pressupõe o reconhecimento da dignidade de quem foi ofendido e a disposição de quem causou o dano para reconhecer a sua responsabilidade. Sem verdade, o gesto corre o risco de se transformar numa encenação. O memorial pode constituir um lugar de memória, mas, sem esclarecimento histórico suficiente, corre também o risco de se tornar um monumento à amnésia conveniente.
A verdadeira educação patriótica que o memorial deveria promover exige que o Estado continue a esclarecer, dentro das possibilidades da investigação histórica e dos mecanismos legais, quem ordenou, executou ou tornou possíveis os actos de violência, quem foram as vítimas, em que circunstâncias morreram e onde se encontram os restos mortais ainda por localizar. Enquanto persistirem famílias sem respostas, o “abraçar e perdoar” continuará a ser uma mensagem incompleta. A reconciliação não pode ser uma obrigação imposta às vítimas, enquanto o dever de esclarecimento permanece sem conclusão.
O pedido de desculpas públicas formulado pelo Presidente em 2021 constituiu um gesto político relevante. Todavia, o reconhecimento institucional do sofrimento não substitui o esclarecimento dos factos nem resolve, por si só, as necessidades de reparação das famílias. Para que o perdão não seja apenas uma palavra pronunciada na tribuna, deve existir um compromisso verificável com a memória, a verdade possível e a dignidade das vítimas.
Esta lógica de actuação suscita outra questão institucional. Enquanto o Presidente fala da reconciliação em relação ao passado, continuam a existir denúncias públicas graves que exigem esclarecimento no presente, incluindo as que envolvem o chefe do Serviço de Informações e Segurança do Estado (SINSE), general Fernando Garcia Miala. A existência de uma participação criminal não prova a prática de qualquer crime, tal como a ausência de informação pública detalhada não demonstra, por si só, que nenhuma diligência tenha sido realizada. Ainda assim, a credibilidade das instituições depende da sua capacidade de tratar as denúncias de forma legal, imparcial e transparente, nos limites do segredo de justiça.
A arquitectura retórica do discurso assenta em três eixos: estabilização macroeconómica como condição prévia, reconciliação nacional como fundamento e diversificação económica como caminho para a soberania. Uma espécie de santíssima trindade política, cuidadosamente articulada para explicar o passado e projectar o futuro. O problema começa quando os princípios proclamados deixam de ser confrontados com os resultados concretos. É nesse intervalo entre a promessa e a realidade que a Navalha precisa de cortar.
SEGUNDO CORTE: A MORALIZAÇÃO COMO ESTATÍSTICA
“Angola ganhou melhorando 28 posições no ranking africano do Índice de Corrupção e 19 lugares no Índice da Transparência Internacional.”
A afirmação presidencial merece uma análise rigorosa. A Transparency International publica o Índice de Percepção da Corrupção, um indicador global que avalia a percepção da corrupção no sector público. Não se trata de um índice exclusivamente africano. A referência a um “ranking africano” deve, por isso, ser distinguida da classificação global publicada pela organização.
Na edição de 2025, Angola obteve 32 pontos e ocupou a 120.ª posição entre 182 países. Na edição de 2024, registara os mesmos 32 pontos, ficando na 121.ª posição entre 180 países. Em 2017, Angola ocupava a 167.ª posição entre 180 países. A comparação entre posições exige cautela, uma vez que o número de países avaliados varia entre edições. Ainda assim, os dados permitem distinguir duas realidades: a posição relativa de Angola no ranking e a pontuação atribuída ao país.
Subir posições não significa, automaticamente, que a corrupção diminuiu na mesma proporção. A classificação pode ser influenciada pelo desempenho de outros países, enquanto a pontuação permite acompanhar a evolução do indicador. A melhoria de um lugar entre 2024 e 2025, com a manutenção dos 32 pontos, não sustenta, por si só, a ideia de uma transformação significativa na percepção da corrupção nesse período.
A questão central não é desvalorizar os indicadores internacionais, mas evitar que sejam apresentados como prova suficiente da eficácia de uma política pública. O Presidente pode invocar progressos comparativos, mas precisa de os relacionar com resultados concretos do combate à corrupção. Uma posição num ranking não substitui a prestação de contas.
Quantos activos foram efectivamente recuperados e convertidos em recursos disponíveis para o Estado? Que montantes foram recuperados em dinheiro, que património foi restituído e que valores permanecem por realizar? O discurso presidencial refere a recuperação de activos financeiros e patrimoniais, mas a análise da eficácia dessa política exige informação discriminada, actualizada e verificável.
A Procuradoria-Geral da República (PGR) tem divulgado números relativos à recuperação de activos. Esses valores, porém, devem ser acompanhados de informação sobre a natureza dos bens, a sua avaliação, o montante efectivamente monetizado e os recursos que regressaram, de forma comprovada, aos cofres públicos. Sem essa distinção, o valor anunciado pode não traduzir a disponibilidade financeira que o cidadão imagina.
Também importa saber quantos processos por peculato e outros crimes económicos resultaram em condenações definitivas, quantas penas foram efectivamente cumpridas e que activos foram recuperados na sequência das decisões judiciais. A existência de condenações, recursos, libertações ou situações de cumprimento de pena no estrangeiro deve ser analisada caso a caso. A responsabilização criminal exige prova e decisão judicial; a avaliação política exige transparência sobre os resultados.
O nepotismo e o tráfico de influências, que o Presidente afirma combater, também exigem indicadores verificáveis. Que mecanismos de prevenção foram reforçados? Que entidades fiscalizaram os procedimentos de contratação pública? Que relatórios foram publicados e que consequências tiveram as irregularidades identificadas? E como se concilia o discurso de moralização com um orçamento fortemente condicionado pelo serviço da dívida e com as preocupações recorrentes sobre a transparência da despesa pública?
A moralização do Estado não se faz apenas com declarações. Exige órgãos de justiça e fiscalização a funcionar, incluindo a PGR, os tribunais, a Inspecção-Geral da Administração do Estado (IGAE) e a Inspecção-Geral de Finanças (IGF), com relatórios fiáveis, mecanismos de responsabilização e informação pública compatível com os limites legais. Sem prestação de contas, a moralização corre o risco de ficar reduzida a uma estatística de ocasião.
TERCEIRO CORTE: O MILAGRE MACROECONÓMICO QUE NÃO CHEGA À MESA
“De 2020 a 2026 descemos de 115,9% para 51,2% do PIB, o que significa menos impostos destinados ao pagamento de juros e mais recursos para os serviços essenciais.”
A redução do rácio da dívida pública em relação ao Produto Interno Bruto (PIB) é um indicador relevante. Porém, a sua interpretação exige que se conheçam os factores que contribuíram para essa evolução. O rácio pode diminuir devido à redução do stock da dívida, ao crescimento do PIB nominal, às alterações cambiais, à inflação, à reestruturação de compromissos ou à combinação de vários factores. Para determinar o peso de cada um, é necessário recorrer a dados comparáveis e à metodologia utilizada no cálculo.
Entre os elementos que merecem análise estão a evolução do PIB nominal, as variações cambiais, a reestruturação de parte da dívida e o efeito da inflação sobre a dívida interna. Não basta, contudo, enumerar estes factores: é preciso quantificar a sua contribuição. Uma redução do rácio da dívida não significa, por si só, que o Estado passou a dispor de mais dinheiro para os serviços públicos.
O próprio discurso associa a redução da dívida a uma diminuição dos encargos com juros e à libertação de recursos para os serviços essenciais. A afirmação deve ser confrontada com o Orçamento Geral do Estado (OGE) de 2026, a estrutura da despesa e a execução orçamental. Se o serviço da dívida continua a absorver uma parcela elevada dos recursos disponíveis, importa explicar em que medida a redução do rácio se traduziu, efectivamente, em mais verbas para a saúde, a educação, a protecção social e outras áreas fundamentais.
A questão não é meramente contabilística. É social. De que serve uma melhoria macroeconómica que não se traduz numa melhoria perceptível das condições de vida das famílias? O cidadão não paga a renda de casa com a descida de um rácio, não enche a panela com uma percentagem do PIB e não leva os filhos à escola com um indicador de estabilidade financeira.
O Presidente apresentou um crescimento real de 3% em 2025 e de 5,3% no primeiro trimestre de 2026, impulsionado por um crescimento de 6,2% do sector não petrolífero. São números que devem ser analisados à luz da composição do crescimento, da sua sustentabilidade e da capacidade de gerar emprego e rendimento. Um trimestre positivo é relevante, mas não basta para demonstrar uma transformação estrutural da economia.
O sector petrolífero continua a enfrentar dificuldades associadas à maturidade dos poços, a problemas operacionais e a níveis de investimento. O próprio Presidente reconheceu que o sector cresceu pouco devido a esses factores. Esta admissão confirma a persistência de uma vulnerabilidade estrutural: Angola continua dependente de um recurso cuja produção não pode ser aumentada indefinidamente e cujo preço é determinado, em grande medida, por factores externos.
O crescimento não petrolífero merece igualmente escrutínio. Cresce a partir de que actividades, com que produtividade e com que impacto sobre o rendimento das famílias? Que parte desse crescimento resulta de uma agricultura capaz de abastecer os mercados nacionais, de uma indústria que substitui importações ou de empresas que criam emprego formal? E que obstáculos continuam a impedir os pequenos produtores de aceder ao crédito, à energia estável, às estradas e aos mercados?
O discurso referiu ainda um crescimento de 54% do investimento estrangeiro no sector não petrolífero. A variação percentual é relevante, mas precisa de ser acompanhada pelo valor de partida, pelo montante absoluto do investimento, pelos sectores beneficiados e pelo número de postos de trabalho criados. Um aumento percentual expressivo, quando a base inicial é reduzida, pode corresponder a um montante ainda limitado. A percentagem impressiona; o valor absoluto e o impacto económico explicam.
O Presidente reconheceu que o estado da Nação não se mede apenas pelo PIB. Essa afirmação deveria conduzir a uma análise mais abrangente dos indicadores sociais, incluindo a pobreza multidimensional, a informalidade, o desemprego juvenil, a segurança alimentar e o acesso aos serviços públicos.
O Instituto Nacional de Estatística (INE) tem divulgado indicadores que devem ser confrontados com os dados apresentados pelo Executivo, respeitando as datas de referência e as metodologias de cada levantamento. A análise não deve misturar indicadores de períodos diferentes nem tratar estimativas como se fossem contagens exactas. Deve, sim, perguntar se o crescimento económico está a produzir melhorias mensuráveis para a maioria da população.
A santíssima trindade económica e política do discurso revela, assim, o seu limite: reconciliação sem verdade suficiente, moralização sem uma prestação de contas completa e crescimento sem demonstração bastante do impacto no prato das famílias.
QUARTO CORTE: O BNA E AS RESERVAS QUE NÃO PAGAM SALÁRIOS
“Reservas internacionais líquidas de 16,2 mil milhões de dólares, assegurando 8 meses de importações.”
As reservas internacionais líquidas são um indicador importante da capacidade de um país para enfrentar necessidades externas, apoiar a estabilidade financeira e assegurar o pagamento de importações. A referência a uma cobertura de oito meses é, por isso, relevante. Mas não responde a todas as questões sobre o funcionamento da economia.
Importa saber como evoluíram as reservas, que factores explicam as suas variações e como se relacionam com a procura de divisas, a política cambial, o serviço da dívida externa e a capacidade de financiamento da economia. A utilização de reservas para intervir no mercado cambial deve ser analisada com base nos dados oficiais do Banco Nacional de Angola (BNA), sem confundir operações pontuais com uma avaliação global da política monetária.
A pergunta económica é simples: de que forma a estabilidade externa se converte em crédito produtivo, investimento e emprego? As reservas não pagam directamente os salários dos trabalhadores, nem garantem, por si só, que uma pequena empresa obtenha financiamento para aumentar a produção.
O crédito à economia, a sua distribuição por sectores e as condições de acesso ao financiamento merecem atenção especial. Se a agricultura, a indústria transformadora e as pequenas e médias empresas enfrentam dificuldades de financiamento, o Executivo deve explicar que resultados produziram os instrumentos de crédito existentes e que obstáculos continuam por resolver.
O índice de inclusão financeira, referido em 54,8%, deve ser interpretado à luz da sua definição e da data do levantamento. Se uma parcela significativa da população continua fora dos serviços financeiros formais, isso evidencia um desafio que não se resolve apenas com a abertura de contas bancárias. É necessário garantir acesso efectivo, custos comportáveis, confiança no sistema e instrumentos adequados às necessidades de quem vive do pequeno comércio e da produção familiar.
Nos mercados do Kikolo, do Trinta e de tantos outros pontos de actividade económica informal, as redes de poupança colectiva, como a kixikila, desempenham funções económicas e sociais importantes. A questão não é romantizar a informalidade, mas reconhecer que muitas famílias desenvolveram mecanismos próprios de financiamento porque os serviços formais não chegam até elas em condições acessíveis.
A estabilidade macroeconómica só ganha significado social quando se transforma em oportunidades concretas para produzir, poupar, investir e viver com dignidade.
QUINTO CORTE: A SAÚDE COMO PROPAGANDA DE BETÃO
Esta foi uma das áreas de maior destaque no discurso presidencial e, simultaneamente, uma das que mais exigem confronto entre os números apresentados e a experiência dos utentes.
Segundo João Lourenço, foram construídas 736 unidades sanitárias, o número de camas hospitalares atingiu 45.146 e foram admitidos 28.429 novos profissionais. O Presidente destacou ainda avanços tecnológicos, incluindo procedimentos de cirurgia robótica e telecirurgia com participação de especialistas estrangeiros.
Ninguém precisa de negar a importância de construir hospitais, aumentar camas ou contratar profissionais. O problema começa quando a contabilização das infra-estruturas passa a ocupar o lugar da avaliação da qualidade dos serviços. Construir não é o mesmo que garantir funcionamento regular; inaugurar não é o mesmo que assegurar assistência médica condigna.
O Complexo Hospitalar General de Divisão Pedro Maria Tonha “Pedalé” e o Hospital dos Queimados Julius Nyerere, em Luanda, representam investimentos importantes na capacidade hospitalar. Porém, a população também precisa de centros e postos de saúde próximos das suas residências, equipados, abastecidos e dotados de profissionais. Uma unidade de referência não substitui a rede de cuidados primários, tal como o aumento do número de camas não resolve, por si só, a falta de medicamentos, equipamentos ou pessoal.
A situação do Hospital Josina Machel, bem como as denúncias recorrentes sobre dificuldades de atendimento nas unidades sanitárias, deve ser avaliada através de dados actualizados, relatórios de inspecção e respostas das autoridades competentes. As imagens e os testemunhos de utentes podem revelar problemas graves, mas cada denúncia deve ser confrontada com informação verificável. O que não pode acontecer é o balanço oficial limitar-se às obras, sem apresentar indicadores de funcionamento, qualidade e acesso.
Os 28.429 profissionais admitidos também exigem uma análise mais detalhada. Quantos são médicos, enfermeiros, técnicos de diagnóstico e outros profissionais? Quantos permanecem no sistema público? Como se distribuem pelas províncias e pelos municípios? Que condições de trabalho encontram no interior do País? A contratação é um passo importante, mas a retenção de profissionais depende igualmente de salários, alojamento, equipamentos, segurança, formação e condições de vida para as respectivas famílias.
A referência à cirurgia robótica e aos procedimentos de telecirurgia pode demonstrar capacidade tecnológica em determinadas unidades. Não permite, contudo, concluir que o sistema de saúde, no seu conjunto, passou a prestar cuidados de qualidade. A tecnologia de ponta não elimina a necessidade de garantir anestesia, sangue, medicamentos, ambulâncias e assistência de emergência em todo o território.
A mortalidade materna, a cobertura vacinal e a proporção de partos assistidos por profissionais de saúde são indicadores fundamentais. Os valores apresentados no discurso devem ser comparados com as séries estatísticas oficiais e com as metas nacionais e internacionais aplicáveis, considerando o ano de referência e a metodologia. Uma descida da mortalidade materna pode constituir um progresso real, sem significar que o problema esteja resolvido. Uma cobertura vacinal abaixo da meta estabelecida exige igualmente explicações sobre as causas e as medidas correctivas.
O contraste entre os hospitais de referência e as unidades de cuidados primários resume uma desigualdade que precisa de ser enfrentada. Para quem consegue chegar a Luanda e aceder a serviços diferenciados, pode existir uma resposta que não está disponível para quem vive longe dos grandes centros urbanos. Entre o hospital moderno e o posto de saúde sem os meios essenciais, permanece a distância entre o investimento anunciado e a assistência efectivamente recebida.
A utilização recorrente de serviços médicos no estrangeiro por titulares de cargos públicos e outras figuras de destaque também alimenta dúvidas sobre a confiança no sistema nacional. Esse facto, quando documentado, não prova automaticamente a incapacidade de todas as unidades de saúde, mas suscita uma questão legítima: que avaliação fazem os próprios decisores dos serviços que apresentam como referência?
A melhoria da saúde pública deve ser medida pela capacidade de prevenir doenças, tratar os doentes, reduzir mortes evitáveis e garantir atendimento digno, e não apenas pelo número de edifícios inaugurados ou de equipamentos adquiridos.
SEXTO CORTE: ENTRE A FICÇÃO DO DISCURSO E A REALIDADE QUE RESISTE
O mesmo escrutínio deve ser aplicado aos restantes indicadores, incluindo os 223 mil turistas e as 6.500 habitações sociais referidos no discurso. A questão não é negar os resultados anunciados, mas perceber a sua dimensão, distribuição e impacto. Quantas famílias beneficiaram das habitações? Em que condições de acesso e financiamento? Que serviços básicos estão disponíveis nos projectos habitacionais? E que parte do turismo contribui efectivamente para o emprego, o rendimento local e a diversificação da economia?
Enquanto o INE apresenta indicadores sobre o mercado de trabalho informal, o Presidente destacou a dimensão da informalidade e a necessidade de formalizar a actividade económica. Os números devem ser comparados com o mesmo período de referência, porque indicadores de trimestres diferentes não podem ser usados como se descrevessem exactamente a mesma realidade.
O desafio, de qualquer modo, permanece. Como formalizar sem crédito, sem energia estável, sem simplificação administrativa e sem condições para que os pequenos negócios sobrevivam? A formalização não pode consistir apenas em exigir registos, licenças, impostos e contribuições a quem ainda luta para garantir o rendimento diário. Deve criar vantagens reais, incluindo acesso ao financiamento, protecção social, formação e mercados.
Os mercados do São Paulo, do Kikolo, do Catinton, do Panguila e do Trinta, entre tantos outros, constituem espaços essenciais para a sobrevivência de milhares de famílias. A sua dimensão revela tanto a capacidade de iniciativa dos cidadãos como as insuficiências do emprego formal e da protecção social. Não basta apresentar a informalidade como um problema estatístico; é necessário compreender por que razão tantas pessoas continuam dependentes dela.
A evolução do Índice de Preços no Consumidor (IPC) também não esgota a experiência económica das famílias. Uma redução da taxa de inflação significa que os preços podem estar a aumentar a um ritmo mais lento, não que os bens tenham regressado aos valores anteriores. A cesta básica continua a ser um dos principais pontos de pressão sobre os rendimentos familiares, pelo que a avaliação do Executivo deve considerar o custo efectivo dos alimentos, os salários e o poder de compra.
A greve dos professores do ensino geral, no início do ano lectivo, e as reivindicações laborais que lhe estiveram associadas mereciam uma análise sobre as condições de trabalho, os salários, o funcionamento das escolas e o impacto sobre os alunos. Quando os professores param, o Estado deve ouvir as reivindicações e explicar o que pode resolver, em que prazo e com que recursos. A ausência de referência a um conflito relevante num balanço nacional pode deixar sem resposta uma parte importante da experiência dos cidadãos.
Também as detenções de jovens e jornalistas em contextos de protesto devem ser examinadas à luz dos factos concretos, das decisões judiciais e das garantias constitucionais. O direito à manifestação está consagrado no artigo 47.º da Constituição da República de Angola (CRA). A sua restrição deve obedecer aos pressupostos legais aplicáveis, e a intervenção policial deve respeitar os princípios da legalidade, necessidade e proporcionalidade. A existência de detenções não permite, por si só, concluir que todas foram arbitrárias; do mesmo modo, a invocação da ordem pública não dispensa o escrutínio da actuação das autoridades.
O discurso presidencial apresenta uma visão de progresso, mas a avaliação do Estado da Nação exige que essa visão seja confrontada com as dificuldades quotidianas. O país proclamado na tribuna e o país vivido nas ruas têm de ser avaliados na mesma análise.
João Lourenço retomou ainda o pedido de desculpas de 2021, o trabalho da CIVICOP, a transladação dos restos mortais de Jonas Malheiro Savimbi e a homenagem aos três líderes dos movimentos signatários dos Acordos de Alvor: António Agostinho Neto, pelo MPLA; Álvaro Holden Roberto, pela FNLA; e Jonas Malheiro Savimbi, pela UNITA.
Estes gestos têm valor histórico e simbólico. Mas governar implica também produzir mudanças mensuráveis, criar mecanismos de acompanhamento e responder às questões que permanecem abertas. A reconciliação não pode ser avaliada apenas pela dimensão dos actos cerimoniais; deve ser apreciada pela capacidade de o Estado dignificar as vítimas, esclarecer o passado e assegurar que a memória não seja selectiva.
A CIVICOP, criada em 2019, tem como missão implementar o plano de homenagem à memória das vítimas dos conflitos políticos ocorridos entre 1975 e 2002, incluindo a localização, exumação e entrega de restos mortais, bem como a promoção da reconciliação. Sete anos depois da sua criação, impõe-se conhecer o balanço actualizado dos trabalhos: quantas famílias foram identificadas e contactadas, quantos restos mortais foram localizados e entregues, que actividades permanecem por realizar e qual é o calendário previsto para as etapas seguintes.
Importa igualmente saber se existe uma proposta de política pública ou de enquadramento legal para a reparação das vítimas, quais os mecanismos de participação das famílias e como serão preservados os registos históricos. A memória nacional não pode depender apenas da vontade política de cada ciclo; precisa de instrumentos institucionais duradouros.
A entrega de restos mortais às famílias constitui um acto de enorme significado humano. Não encerra, por si só, todas as questões relativas à verdade, à responsabilidade e à reparação. A inauguração do memorial também não significa que todas as vítimas e famílias se sintam representadas da mesma forma. A avaliação desse processo exige escuta, informação e respeito pela diversidade das experiências.
Existe, assim, o risco de uma reconciliação celebrada ao nível das grandes figuras políticas não chegar, com a mesma intensidade, às famílias anónimas que continuam à espera de respostas. A reconciliação que sobe ao palco tem de encontrar correspondência na vida de quem permanece fora dele.
SÉTIMO CORTE: TEMOS UM ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO?
No seu discurso, João Lourenço falou do aprofundamento do Estado Democrático de Direito e do fortalecimento das instituições. Mas o balanço do mandato não pode deixar de incluir a questão das autarquias locais, uma promessa política central desde 2017 que permanece por concretizar.
A descentralização do poder e a realização das eleições autárquicas continuam a ser temas fundamentais para a organização do Estado e para a aproximação dos serviços públicos aos cidadãos. A ausência de autarquias limita a possibilidade de as populações escolherem directamente os seus representantes locais e de responsabilizarem os órgãos autárquicos pela gestão das respectivas comunidades.
O debate não pode resumir-se à troca de acusações entre o poder e a oposição. Importa saber quais são os obstáculos políticos, legislativos, administrativos e financeiros à implementação das autarquias, que consensos foram alcançados e que calendário concreto existe para a sua realização. Nove anos depois de 2017, os cidadãos continuam a precisar de respostas sobre quando poderão exercer plenamente esse direito político.
O Presidente afirmou que quem ocupa um cargo público deve compreender que não representa um privilégio, mas uma oportunidade para servir o Estado e o povo com lisura. O princípio é inequívoco. O seu cumprimento, porém, exige que as instituições actuem de forma consistente, independentemente da posição hierárquica dos envolvidos.
É neste domínio que regressam as denúncias públicas relativas ao director-geral do SINSE, general Fernando Garcia Miala, e as questões sobre o papel dos serviços de inteligência na vida pública. A existência de acusações não permite concluir pela culpa de qualquer pessoa. Porém, a gravidade das alegações torna importante que sejam tratadas pelos canais competentes e que as instituições prestem os esclarecimentos que a lei permitir.
O silêncio institucional não prova culpa nem inocência. Prolonga, contudo, a incerteza e permite que suspeitas circulem sem uma resposta capaz de separar factos, interpretações e falsidades. Se as acusações forem infundadas, uma apreciação séria e imparcial protege a honra dos visados e a credibilidade das instituições. Se existirem elementos relevantes, cabe às autoridades competentes dar-lhes o tratamento legal devido.
Sobre Fernando Garcia Miala circulam acusações públicas formuladas por Miguel Ângelo, apresentado publicamente como quadro do SINSE, relativas a um alegado “Plano Macabro” de desestabilização. A gravidade dessas alegações exige cautela: a sua divulgação não equivale a prova, nem autoriza a antecipar conclusões sobre eventuais responsabilidades criminais. O que pode ser exigido é que as denúncias sejam avaliadas pelos mecanismos competentes, com respeito pelo segredo de justiça e pelos direitos de todas as pessoas envolvidas.
A presença de responsáveis dos serviços de inteligência em actos oficiais não constitui, por si só, prova de qualquer intenção política. Ainda assim, a visibilidade pública dos titulares desses cargos pode suscitar perguntas legítimas sobre a natureza da sua participação e os limites entre a função institucional e a exposição política. O discurso presidencial poderia ter sido uma oportunidade para reafirmar, de forma clara, os princípios de legalidade, imparcialidade e controlo institucional que devem orientar os serviços de segurança.
A contradição que a Navalha identifica não consiste em declarar provada qualquer acusação, mas em confrontar a promessa de combate à corrupção e à impunidade com a exigência de que todas as denúncias relevantes sejam tratadas de acordo com a lei. A confiança nas instituições depende tanto da investigação de factos sustentados como da protecção contra acusações infundadas.
João Lourenço afirmou que Angola está em “franco progresso” por ter tido a coragem de deixar para trás males que afectavam a economia e as instituições. A frase deve ser confrontada com os resultados alcançados e com os problemas que permanecem. Que país deixará João Lourenço em 2027? A resposta não pode depender apenas da avaliação feita pelo próprio Presidente; deve considerar indicadores económicos e sociais, a qualidade dos serviços públicos, a confiança nas instituições e a capacidade do Estado de assegurar direitos.
Angola recebeu, em 2017, uma economia afectada por desequilíbrios macroeconómicos, pela dependência petrolífera e por dificuldades estruturais. Durante os dois mandatos de João Lourenço, ocorreram reformas, choques externos, mudanças cambiais e diferentes fases de recuperação económica. O balanço final deve reconhecer os resultados documentados e, ao mesmo tempo, medir os custos sociais, as limitações das políticas adoptadas e as promessas por cumprir.
Os trabalhadores continuam a enfrentar dificuldades relacionadas com o poder de compra, a precariedade e a protecção social. A taxa oficial de desemprego, isoladamente, não descreve toda a realidade do mercado de trabalho, tal como a informalidade não pode ser tratada apenas como uma categoria estatística. É necessário avaliar a qualidade do emprego, os rendimentos, a estabilidade das famílias e a capacidade de acesso aos serviços essenciais.
O discurso fala em boa governação e melhoria do ambiente de negócios. Fica, porém, a necessidade de explicar a evolução do encerramento de empresas, as dificuldades enfrentadas pelos empreendedores, as razões que levam muitos jovens a procurar oportunidades no estrangeiro e as medidas concretas para criar emprego sustentável. A emigração não deve ser reduzida a uma escolha individual desligada das condições económicas e sociais do País.
Este foi o último discurso de João Lourenço sobre o Estado da Nação antes do fim do seu segundo mandato. Houve um inventário de realizações, indicadores e compromissos. O que faltou, na leitura crítica da Navalha, foi uma autocrítica suficientemente desenvolvida sobre as metas não alcançadas e sobre os problemas que continuam a afectar a vida dos angolanos.
Para que servem os discursos sobre o Estado da Nação se a realidade apresentada pelo poder não for confrontada com a experiência das pessoas comuns? Qual é o valor de uma prestação de contas que enumera conquistas, mas não responde com igual profundidade às dúvidas sobre a qualidade dos serviços públicos, a execução das políticas e as promessas ainda por cumprir?
A NAVALHA CORTA ONDE A LISTA DE BENFEITORIAS NÃO CONSEGUE SUTURAR A REALIDADE: entre as estatísticas e a fome, entre a reconciliação simbólica e as respostas ainda aguardadas, entre o Estado que se celebra e a Nação que continua a exigir melhores condições de vida, justiça e instituições credíveis.
O legado de um Presidente não será determinado apenas pela narrativa que deixa escrita, mas também pelos resultados que resistirem ao escrutínio dos factos e pela capacidade das instituições de continuarem a responder aos cidadãos depois de terminado o mandato.
OITAVO CORTE: O PALÁCIO E A FORTALEZA, O PAÍS DA FACHADA
O Presidente João Lourenço termina o seu último discurso sobre o Estado da Nação com a mesma imagem que procurou projectar ao longo do mandato: a do Estado que constrói, inaugura e apresenta obras como prova de realização governativa. A Navalha vai cortar nessa narrativa. Ao anunciar que “está concluído e inaugurado o Palácio de Convenções de Luanda” e destacar o restauro da Fortaleza de São Francisco do Penedo, o Chefe de Estado apresenta duas intervenções que merecem uma avaliação para além da cerimónia e da fotografia oficial.
Um Palácio de Convenções pode reforçar a capacidade de Angola para acolher eventos internacionais e dinamizar o turismo. A questão é saber até que ponto esse investimento se articula com as necessidades de uma economia que continua a enfrentar dificuldades de produção, escoamento e comercialização. O produtor do Cuanza Sul que cultiva tomate precisa de estradas transitáveis, mercados organizados, conservação frigorífica, transporte acessível e compradores, não apenas de grandes equipamentos destinados a conferências. O mesmo escrutínio deve ser aplicado ao Centro de Ciência, ao Parque Tecnológico e ao Autódromo do Namibe: o prestígio arquitectónico não substitui o impacto económico e social.
Quanto à Fortaleza do Penedo, o restauro do património histórico exige transparência sobre os prazos, os custos e o estado real da intervenção. A prioridade patrimonial de Luanda deve igualmente incluir a recuperação da Baixa da cidade e a preservação condigna de espaços históricos, entre os quais o Museu da Escravatura. Um país não se mede apenas pelo que inaugura, mas também pelo que consegue conservar.
NONO CORTE: ENERGIA, 6.322 MW NÃO SÃO O FIM DA ESCURIDÃO NOS BAIRROS
“De 4.659 MW em 2017 para 6.322 MW hoje”, anunciou o Presidente, acrescentando que Angola conta com 75 centrais produtoras e perspectiva alcançar 8.000 MW até 2027, com a entrada em funcionamento de projectos como Caculo Cabaça. Os números constam da mensagem presidencial. O problema começa quando a capacidade instalada é apresentada como se correspondesse, automaticamente, à energia efectivamente disponível para os consumidores. Capacidade instalada, produção efectiva, transporte e distribuição são realidades diferentes. A existência de potência nominal não garante que a electricidade chegue, de forma contínua, às residências, aos hospitais, às escolas e às unidades industriais.
A pergunta que interessa ao cidadão é simples: quanta energia é efectivamente produzida e entregue à rede, em que períodos e com que regularidade? Para responder, é necessário conhecer os dados de produção efectiva, as indisponibilidades das centrais, os custos de manutenção, as limitações das linhas de transporte e as perdas registadas ao longo do sistema. Sem esses elementos, a celebração dos megawatts instalados corre o risco de ocultar o problema que continua a marcar a vida quotidiana de milhares de famílias: a irregularidade do fornecimento.
A própria desagregação apresentada no discurso merece esclarecimento. Os 3.231 MW de origem hidroeléctrica, os 1.125 MW de origem térmica, os 357 MW solares e os 36 MW híbridos totalizam 4.749 MW. A diferença em relação aos 6.322 MW anunciados é de 1.573 MW. Esta divergência aritmética, por si só, não prova a existência de manipulação: pode resultar de categorias omitidas, critérios de contabilização diferentes ou informação incompleta. Mas exige uma explicação técnica pública. Que componentes integram a capacidade total e não aparecem nesta desagregação? Num sector estratégico, a transparência dos números não é um detalhe administrativo; é uma condição para avaliar o desempenho do Executivo.
Caculo Cabaça constitui outro teste à credibilidade das promessas. O discurso indica uma execução de 30% e prevê o início da produção em 2027. Sendo um empreendimento de grande dimensão, iniciado anos antes, importa esclarecer o calendário actualizado, os custos acumulados, os compromissos financeiros, os encargos decorrentes dos atrasos e as condições efectivas para a entrada em operação da primeira turbina. As sucessivas previsões devem ser comparadas com os prazos anteriormente anunciados. Prometer mais capacidade para o futuro não elimina a obrigação de explicar por que razão os resultados previstos para anos anteriores não foram alcançados.
No transporte, o Presidente destacou 5.860 quilómetros de linhas e 41 subestações, que servem 13 províncias. O dado representa uma dimensão relevante da rede, mas não responde, por si só, às assimetrias territoriais. É necessário esclarecer quais as províncias ainda sem integração plena na Rede Nacional, quais os projectos em execução e que calendário existe para a sua conclusão. A linha Capanda-Malanje, com 190 quilómetros, e a ligação de muito alta tensão entre Huambo e Lubango devem ser avaliadas pelos custos, prazos, capacidade de transporte e benefícios concretos para as populações.
O acesso à electricidade também não pode ser analisado apenas através de uma percentagem nacional. O aumento de 43% para mais de 50%, referido no debate sobre o sector, corresponde a uma melhoria, mas deixa ainda uma parte expressiva da população sem acesso. Se o ritmo de expansão não acelerar, a universalização continuará distante. Além disso, é indispensável distinguir uma ligação doméstica com fornecimento regular de uma solução solar individual, capaz de alimentar apenas uma lâmpada ou alguns aparelhos. Ter acesso à electricidade não é o mesmo que dispor de energia suficiente, estável e acessível.
Nos bairros de Luanda, incluindo zonas do Rangel, Sambizanga e Boa Vista, a experiência dos moradores deve ser confrontada com os indicadores oficiais: quantas horas de fornecimento existem por dia, quantas interrupções são registadas e quanto tempo demora a reparação das avarias? A rede de distribuição, as ligações clandestinas, as perdas técnicas e comerciais e a capacidade de manutenção são elementos centrais. A promessa de 1,7 milhões de novas ligações até 2027 só será plenamente convincente se vier acompanhada de uma estratégia para reduzir perdas, melhorar a continuidade do serviço e assegurar que as novas ligações não sejam apenas mais números numa apresentação pública. Encher um sistema de novas ligações sem resolver as suas falhas estruturais é ampliar a promessa sem garantir o resultado.
DÉCIMO CORTE: ÁGUA, 62% DE COBERTURA E O CIDADÃO A COMPRAR CISTERNA
O Presidente apresentou uma evolução no abastecimento de água, referindo uma cobertura de 62% e a passagem de 508 mil ligações domiciliárias, em 2017, para 3,1 milhões. Destacou igualmente os projectos Bita e Quilonga Grande, concebidos para reforçar a produção e a distribuição de água em Luanda e no Icolo e Bengo. Os números são importantes, mas a estatística nacional não corre, por si só, na torneira de cada residência.
Quantas dessas ligações dispõem de abastecimento regular? Quantas recebem água diariamente e quantas dependem de chafarizes, depósitos ou camiões-cisterna? A existência de uma ligação não garante fornecimento contínuo, assim como o aumento da produção não significa que a água chegue a todas as zonas com a mesma regularidade. A população precisa de indicadores sobre continuidade, qualidade, cobertura efectiva das redes e custos suportados pelas famílias. Em bairros onde o abastecimento é irregular, o cidadão pode acabar por pagar à entidade pública e, novamente, ao fornecedor privado. A água torna-se, assim, uma despesa duplicada para famílias que já enfrentam dificuldades económicas.
Os projectos Bita e Quilonga Grande são apresentados como respostas estruturantes para Luanda. A sua avaliação deve, porém, distinguir a execução física das diferentes componentes, a conclusão das obras e a entrada efectiva em funcionamento do sistema completo. Os dados oficiais divulgados em Setembro de 2026 apontavam para aproximadamente 71% de execução do Bita e mais de 90% em componentes relevantes do Quilonga Grande. Esses indicadores devem ser acompanhados pelo estado das condutas adutoras, dos centros de distribuição, das redes secundárias e das ligações domiciliárias. A conclusão de uma estação de tratamento não equivale à chegada de água a todas as casas previstas no projecto.
A promessa de beneficiar milhões de pessoas só poderá ser medida quando o serviço estiver efectivamente disponível, com regularidade e qualidade. Até lá, as autoridades devem divulgar os calendários actualizados, os custos finais, as metas por município e os mecanismos de fiscalização. O cidadão não precisa apenas de saber quantos metros cúbicos serão produzidos; precisa de saber quando terá água na torneira e quanto pagará por esse serviço.
O Programa de Combate aos Efeitos da Seca no Sul de Angola também merece uma avaliação para além da inauguração das infra-estruturas. As barragens de Calucuve e Ndúe, inauguradas a 5 de Setembro, foram apresentadas como instrumentos para reforçar a segurança hídrica e apoiar as populações do Cunene. A questão essencial é saber se os sistemas de captação, condução, distribuição e acesso à água estão a funcionar de forma integrada. Qual é o estado de execução do canal associado a Calucuve? Quantos quilómetros estão concluídos? Que comunidades já beneficiam de abastecimento e quantas continuam dependentes de chafarizes ou de deslocações prolongadas para obter água?
Uma barragem pode armazenar milhões de metros cúbicos e, ainda assim, não resolver o problema de uma comunidade se a água não chegar aos pontos de consumo. O investimento só cumpre a sua finalidade quando se traduz em abastecimento regular para as famílias e em água disponível para o gado, a agricultura e as actividades económicas. Inaugurar a barragem sem garantir a distribuição é apresentar a primeira metade da solução como se fosse a solução inteira.
O mesmo escrutínio deve abranger os projectos Hita Hita e Bero, os açudes em construção e as infra-estruturas previstas para o Namibe, entre as quais Bentiaba, Inamagando, Carunjamba, Giraul e Curoca. Os níveis de execução devem ser acompanhados por informação sobre os beneficiários efectivos, os prazos contratuais e a funcionalidade dos equipamentos. Na Cahama e noutras zonas afectadas pela seca, a existência de água numa represa não garante que os animais tenham acesso a bebedouros nem que as comunidades disponham de pontos de abastecimento próximos. A política da primeira pedra tem de dar lugar à política do serviço prestado.
DÉCIMO PRIMEIRO CORTE: TRANSPORTES, O AEROPORTO DE 3 MIL MILHÕES QUE MOVIMENTA 2 MILHÕES
O Aeroporto Internacional Dr. António Agostinho Neto é apresentado como uma das grandes realizações do mandato. A sua dimensão, a capacidade de movimentação de passageiros e carga e a expectativa de criação de emprego conferem-lhe importância estratégica. Mas o valor de uma infraestrutura desta natureza não se mede apenas pela sua dimensão física ou pelo investimento realizado. Mede-se também pela utilização efectiva, pela eficiência operacional, pelo impacto na economia e pela sustentabilidade financeira.
O aeroporto foi inaugurado durante a Presidência de João Lourenço, mas a dimensão de uma obra desta natureza resulta de processos de planeamento, financiamento e construção que ultrapassam o mandato de um único titular de cargo público. O mérito político da inauguração não dispensa a avaliação dos custos, da procura efectiva e dos benefícios económicos. Se o investimento ultrapassou os 3 mil milhões de dólares, como tem sido referido, é indispensável conhecer os dados comparáveis de tráfego do novo aeroporto e do antigo Aeroporto 4 de Fevereiro, distinguindo passageiros anuais, passageiros acumulados desde a abertura e capacidade instalada. Só com períodos e indicadores equivalentes será possível avaliar a dimensão do crescimento do tráfego e a relação entre o investimento e os resultados.
Também os números relativos ao emprego devem ser acompanhados de informação sobre a natureza dos postos de trabalho, a nacionalidade dos trabalhadores quando relevante, a estabilidade dos contratos, as funções desempenhadas e a participação de empresas nacionais. A criação de milhares de empregos é um indicador positivo, mas a sua qualidade e sustentabilidade são igualmente importantes. A divulgação pública dos dados de pessoal e dos relatórios operacionais permitiria avaliar melhor o impacto do aeroporto no mercado de trabalho angolano.
No transporte de carga, a capacidade nominal do terminal deve ser comparada com a movimentação efectiva, a evolução anual, a taxa de utilização e o tipo de mercadorias transportadas. Uma infraestrutura concebida para movimentar um determinado volume de carga não está necessariamente a operar abaixo do esperado apenas porque ainda não atingiu a capacidade máxima; é preciso conhecer a procura, as rotas, os contratos e as condições de operação. Ainda assim, se a utilização estiver muito aquém da capacidade projectada, o Executivo deve explicar quais são os obstáculos e que medidas pretende adoptar.
A mesma exigência aplica-se à TAAG, cuja modernização da frota só pode ser avaliada através de indicadores operacionais e financeiros consistentes. Os resultados anuais, a ocupação dos voos, os custos de manutenção, a rentabilidade das rotas e os subsídios ou apoios públicos devem ser analisados em conjunto. A aquisição ou utilização de aeronaves modernas não garante, por si só, uma companhia rentável. Uma frota dispendiosa, se não estiver ajustada à procura e à estratégia comercial, pode aumentar a pressão financeira em vez de melhorar a sustentabilidade da empresa.
Nos portos, a modernização do Namibe e as concessões e investimentos associados aos portos de Lobito e Luanda devem ser acompanhados por uma prestação de contas clara. As receitas anunciadas, os investimentos garantidos e os compromissos dos concessionários precisam de ser discriminados: que valores foram efectivamente recebidos, por que entidades, em que períodos e com que destino? Que parte corresponde a receitas públicas, que parte resulta da actividade operacional e que parte representa investimento contratual ainda por executar? A fiscalização e a publicação de relatórios auditados são essenciais para afastar dúvidas sobre a gestão dos recursos.
A cabotagem marítima pode ser particularmente importante para as populações de Cabinda, reduzindo o isolamento e facilitando a circulação de pessoas e mercadorias. Mas a sua eficácia depende da frequência, do tempo de viagem, da segurança, do preço dos bilhetes e da capacidade de carga. A entrada em operação de um navio deve ser avaliada à luz desses indicadores, e não apenas pelo valor da embarcação ou pela cerimónia de apresentação.
O Corredor do Lobito constitui, aparentemente, um dos projectos de maior alcance geoestratégico do mandato. A ligação ferroviária aos mercados da República Democrática do Congo e da Zâmbia pode reforçar a posição de Angola como plataforma logística regional, atrair investimento e criar oportunidades para os sectores dos transportes e dos serviços. Mas o benefício nacional não deve ser avaliado apenas pelo volume de mercadorias que atravessam o território. Importa conhecer as receitas efectivas, os postos de trabalho criados, a participação das empresas angolanas, os investimentos complementares e o impacto sobre a produção nacional.
O corredor poderá facilitar a exportação de minerais provenientes da Zâmbia e da região mineira do Katanga, na República Democrática do Congo. Essa função logística representa uma oportunidade, mas também exige uma estratégia que permita a Angola captar valor para além das taxas de trânsito. Ser corredor de exportação é importante; transformar a passagem de mercadorias em produção, emprego e receitas nacionais é ainda mais importante.
A situação das linhas ferroviárias internas também merece atenção. A reabilitação do troço Zenza-Cacuso, a modernização do Caminho-de-Ferro de Luanda e a ligação ferroviária entre Luena e Saurimo devem ser avaliadas pelo estado das obras, pelos custos, pelos prazos e pela utilidade para passageiros e mercadorias. Se a reabilitação de determinadas ligações continua por concluir décadas depois do fim da guerra, é legítimo questionar a prioridade atribuída à manutenção e expansão da rede.
A construção de novas linhas ferroviárias constitui um passo relevante para um país que precisa de reduzir os custos de transporte, aproximar as províncias dos mercados e facilitar o escoamento da produção agrícola. Mas a infraestrutura só cumprirá essa missão se estiver ligada a uma estratégia de desenvolvimento territorial, com serviços regulares, tarifas acessíveis e articulação com estradas, portos e centros logísticos.
O balanço dos transportes não pode limitar-se ao betão, aos carris e às pistas. Deve medir a capacidade de ligar pessoas, reduzir custos, movimentar mercadorias, gerar emprego e transformar a posição geográfica de Angola numa vantagem económica efectiva.
QUE PAÍS DEIXARÁ EM 2027?
O discurso inteiro é a resposta à pergunta que o próprio autor fez no início.
Que país João Lourenço recebeu em 2017? Um país em crise cíclica do petróleo, com desequilíbrios macroeconómicos, dificuldades estruturais e forte dependência das receitas petrolíferas.
Que país deixa em 2027?
Deixa um país com 6.322 MW instalados, mas com bairros às escuras; deixa milhões de ligações de água, mas com famílias dependentes de cisternas; deixa projectos habitacionais, mas com um défice de habitação que continua a exigir respostas; deixa universidades e instituições de ensino superior, mas sem emprego suficiente para muitos licenciados; deixa um memorial às vítimas que exige verdade, esclarecimento e reparação; deixa um programa de transferências sociais cuja eficácia deve ser medida pela cobertura efectiva e pelo impacto sobre as famílias; deixa um aeroporto de investimento elevado cuja utilização e sustentabilidade financeira precisam de ser avaliadas; e deixa um Palácio de Convenções cuja utilidade económica deverá ser demonstrada para além da cerimónia de inauguração.
Deixa, sobretudo, um país confrontado com uma profunda crise de confiança. Recebeu um país com dificuldades económicas e estruturais; deixa um país que continua a exigir respostas sobre o custo de vida, o emprego, a qualidade dos serviços públicos, a transparência na gestão dos recursos e o funcionamento das instituições.
O discurso de 159 páginas não é, por si só, o estado da Nação. É um inventário elaborado pelo próprio poder sobre as realizações que considera relevantes. A sua avaliação exige o confronto com os dados independentes, os resultados verificáveis e a experiência quotidiana dos cidadãos. Governar não é inaugurar betão. É fazer a luz ficar acesa, a água correr, os hospitais atenderem e os jovens encontrarem razões para construir o seu futuro em Angola.
Entre o Palácio de Convenções que se inaugura e a torneira que não deita água, entre os 8.000 MW prometidos e a vela que o cidadão acende, entre as obras que enchem os discursos e o pão que pesa cada vez mais no orçamento familiar, mora a diferença entre o Estado que se celebra e a Nação que continua a exigir resultados.
É aí que a Navalha continuará a cortar.
