A mesma data, em anos diferentes: 28 de Julho. Precisamente um ano depois das manifestações violentas que abalaram Luanda, Icolo e Bengo, Huambo, Benguela e Malanje, Angola ficou literalmente privada das comunicações asseguradas pela sua maior operadora nacional, a UNITEL. Mais do que um sinal de alerta, um indício de que o perigo poderá estar mais próximo do que se imagina. Mas fica a pergunta inicial desta NAVALHA: estaremos diante de uma vulnerabilidade institucional ou da criação deliberada de um clima de instabilidade destinado a justificar uma “salvação extraordinária para Angola”?
Desde o fim do conflito armado, em 2002, o país nunca enfrentou um cenário de incerteza e de potencial instabilidade política tão inquietante como o que actualmente parece desenhar-se. Não deixa de ser, no mínimo, uma coincidência digna de reflexão o facto de, desde 2023, Miguel Ângelo vir alertando para o risco de uma situação de instabilidade resultante da execução de um alegado “Plano Macabro“, cuja autoria atribui ao actual chefe do Serviço de Informações e Segurança do Estado (SINSE), general Fernando Garcia Miala.
Importa recordar que esse alegado “Plano Macabro”, juntamente com gravações áudio e outros documentos, integra os elementos probatórios que eu, Carlos Alberto, jornalista e director do Portal “A DENÚNCIA”, apresentei na participação criminal entregue à Procuradoria-Geral da República (PGR), no dia 20 de Fevereiro deste ano.
Enquanto quadro sénior do Serviço de Informações e Segurança do Estado (SINSE), Miguel Ângelo possui, pela natureza das funções que exerceu, um conhecimento estratégico cuja relevância não pode ser desvalorizada nem ignorada. No prefácio da sua obra Estado de Violência – Violência de Estado, o Professor Marcolino José Carlos Moco sintetiza esse reconhecimento numa afirmação particularmente expressiva: “Miguel Ângelo não é um bófia qualquer.”
Mais do que um elogio circunstancial, esta afirmação representa o reconhecimento público da experiência acumulada e da credibilidade institucional atribuídas ao autor no domínio das informações e da segurança do Estado. Por essa razão, os alertas que tem vindo a formular não deveriam ser recebidos com indiferença, mas antes analisados com o rigor, a ponderação e a seriedade que a sua trajectória profissional naturalmente recomenda.
Neste sentido, o reconhecimento expresso por uma personalidade da estatura do Professor Marcolino José Carlos Moco, antigo primeiro-ministro da República de Angola, reforça a ideia de que a preservação da integridade física, moral e psicológica de Miguel Ângelo deveria merecer atenção no quadro das responsabilidades do próprio Estado. Do mesmo modo, o apuramento rigoroso das circunstâncias e dos fundamentos subjacentes às denúncias que tem vindo a formular deveria constituir um imperativo institucional, não apenas para aferir a sua consistência, mas também para proteger o regular funcionamento das instituições do Estado e dos seus órgãos de soberania.
Ignorar um pronunciamento desta natureza ou não proceder à devida averiguação das informações apresentadas poderá significar a desvalorização de elementos potencialmente sensíveis que, pela sua origem e natureza, reclamam uma análise responsável em nome da segurança institucional e da estabilidade do país.
Este aparente gesto de descaso político revela até que ponto o Presidente João Lourenço parece não reconhecer plenamente o impacto que a actividade do Serviço de Informações e Segurança do Estado (SINSE) exerce na vida quotidiana dos cidadãos e na preservação da segurança nacional. Ou, dito de outro modo, poderá transmitir a ideia de que, em primeira e última instância, nem sequer os próprios efectivos do SINSE constituem um activo estratégico merecedor de especial atenção por parte do Estado.
Esta parece ser a lógica subjacente à actuação do Presidente João Lourenço ao manter uma postura de aparente desvalorização perante as denúncias formuladas por um quadro sénior do SINSE, sobretudo quando essas denúncias, a confirmarem-se, poderiam envolver riscos relacionados com a segurança institucional e até com a própria protecção do Chefe de Estado.
Se tais alertas forem ignorados sem uma averiguação independente e rigorosa, levanta-se uma questão de fundo: estará o SINSE, enquanto órgão essencial do Estado, a funcionar plenamente em defesa do interesse público e da segurança nacional, ou estará sujeito a dinâmicas internas que podem comprometer a sua autonomia institucional? Esta é uma interrogação que apenas uma investigação séria e transparente poderá esclarecer.
Daí a necessidade de compreender, com maior profundidade, a natureza das ameaças que actualmente impendem sobre o país. Um exemplo paradigmático encontra-se no próprio funcionamento da economia nacional.
Quando se afirma que uma parte significativa dos operadores económicos que actuam em Angola desenvolve, alegadamente, a sua actividade à margem da legalidade, isso significa que muitos deles conseguem identificar rapidamente as vulnerabilidades institucionais existentes e estabelecer relações de conveniência com os centros de decisão política.
Como consequência, obtêm privilégios, protecção e facilidades que, em vez de os sujeitarem ao escrutínio e à fiscalização do Estado, lhes conferem uma margem de actuação suficientemente ampla para distorcer as regras do mercado, comprometer a livre concorrência, enfraquecer a implementação das políticas económicas e favorecer práticas como a corrupção, a fuga ao fisco, a fuga de capitais, a expatriação ilícita de divisas e outras formas de criminalidade económica e política que atentam contra a integridade da soberania do Estado.
Este fenómeno não representa apenas um factor particularmente grave de vulnerabilidade institucional. É precisamente aquilo que Miguel Ângelo conceptualiza como Estado de Violência e Violência de Estado: a operacionalização efectiva de um sistema de anocracia.
A anocracia manifesta-se hoje com particular evidência e apresenta um risco acrescido. Existem sectores estratégicos da economia dominados por monopólios detidos, inclusivamente, por grupos maioritariamente estrangeiros que operam em Angola sob protecção política, funcionando, na prática, como autênticos cartéis de criminalidade organizada.
Perante a gravidade desta realidade, a pergunta impõe-se: qual tem sido, afinal, o verdadeiro papel do SINSE no combate à criminalidade politicamente assistida?
E por que razão fazemos este enquadramento em relação ao principal facto desta semana: o alegado ataque cibernético à infraestrutura da UNITEL? O termo “alegado” não surge aqui por mero acaso. Ele traduz a necessidade de distinguir entre o facto comunicado oficialmente pela operadora — a ocorrência de um incidente de segurança informática — e a determinação final sobre a sua origem, autoria, motivações e eventuais implicações.
Mais do que uma simples falha técnica numa rede de telecomunicações, estamos perante um acontecimento que expôs a vulnerabilidade de uma infra-estrutura considerada estratégica para o funcionamento normal da sociedade, da economia e do próprio Estado.
A UNITEL comunicou oficialmente que, desde as primeiras horas do dia 28 de Julho, a sua rede foi alvo de um ataque cibernético, situação que provocou constrangimentos significativos nos serviços de comunicações móveis e de internet disponibilizados aos seus clientes. A empresa informou igualmente que as suas equipas técnicas estavam a trabalhar para identificar a origem do incidente, mitigar os impactos e restabelecer gradualmente a normalidade dos serviços.
O que é certo, porém, é que, quatro dias depois do incidente, a rede da UNITEL ainda não se encontra totalmente normalizada. A persistência dos constrangimentos demonstra que não se tratou de uma ocorrência de impacto meramente pontual, mas de um episódio com consequências relevantes sobre uma infra-estrutura considerada essencial para o funcionamento da economia, das instituições e da vida quotidiana dos cidadãos.
O corte do sinal das telecomunicações da UNITEL parece enquadrar-se na lógica exposta no início deste texto. Poderão estar em causa conflitos de interesses, disputas de influência ou eventuais contrapartidas não satisfeitas relacionadas com potenciais negócios politicamente inconfessáveis.
Independentemente da realidade concreta dos factos, a dimensão estratégica da UNITEL e o impacto causado pela interrupção dos seus serviços levantam uma questão incontornável: quem beneficia de uma situação em que uma das principais infra-estruturas de comunicação do país fica vulnerável? E que mecanismos de segurança institucional existem para prevenir que episódios desta natureza possam ser utilizados como instrumentos de pressão, influência ou desestabilização?
É precisamente neste ponto que a análise conduz, inevitavelmente, às obras de investigação sociológica de Miguel Ângelo. O Frei Capuchinho Joaquim José Hangalo, ao prefaciar a obra Angola na Era da Pós-verdade, escreveu, quase em tom profético: “Esse é daqueles livros que podem separar as águas, marcar um antes e um depois…”.
Esta observação ganha hoje um significado particularmente expressivo. Miguel Ângelo surge, neste contexto, como um dos protagonistas intelectuais da profunda transformação histórica que Angola parece atravessar. As suas obras, queira-se ou não, apesar de raramente citadas e quase nunca debatidas nos espaços institucionais, não podem ser desvalorizadas no actual contexto político nacional. Pelo contrário, deveriam ser encaradas como alertas, na medida em que procuram interpretar, prevenir e antecipar acontecimentos de elevada magnitude política susceptíveis de conduzir o país a uma situação de erupção constitucional do Estado.
Desde 2025, começaram a surgir, com alguma frequência, narrativas oficiais relativas a alegados atentados terroristas em Angola. Na sequência das manifestações violentas ocorridas no final de Julho daquele ano, o discurso oficial passou a sustentar a existência de uma alegada conspiração externa, envolvendo apenas dois cidadãos russos, um dos quais residente em Angola há mais de trinta anos e que sempre manteve relações públicas com diversas personalidades ligadas aos sectores da defesa e da segurança.
Entretanto, como seria expectável numa investigação desta natureza, não foi tornada pública, até ao momento, qualquer rede operacional, em Angola ou no estrangeiro, associada aos alegados agentes terroristas condenados pelo Tribunal de Comarca de Luanda a penas de oito e onze anos de prisão. É, por isso, legítimo questionar como uma eventual operação terrorista poderia circunscrever-se a dois cidadãos estrangeiros e a um jovem jornalista angolano — este condenado a dois anos de prisão, com pena suspensa — sem que tenha sido apresentada publicamente a identificação de uma estrutura de comando, de apoio logístico ou da participação directa ou indirecta de outros cidadãos angolanos nos alegados actos terroristas.
As recentes falhas operacionais da UNITEL, culminando com a interrupção do funcionamento da rede nacional de telecomunicações no dia 28 de Julho, constituem um acontecimento que dificilmente poderá ser analisado isoladamente do contexto de risco de instabilidade política e da própria narrativa oficial em torno da ameaça terrorista.
Importa recordar que foi precisamente a 28 de Julho de 2025 que Luanda foi assolada por uma vaga de manifestações violentas em vários bairros da cidade, que se prolongou durante três dias consecutivos, na sequência da paralisação da actividade dos taxistas informais. A coincidência temporal entre acontecimentos de natureza distinta, ocorridos no mesmo período do ano, suscita inevitavelmente uma reflexão mais profunda sobre os factores de vulnerabilidade política e institucional do país.
Neste contexto, Miguel Ângelo parece ter antecipado preocupações que hoje ganham nova dimensão, fazendo com que os seus alertas assumam, para alguns observadores, uma aparência quase premonitória.
A questão central permanece, por isso, inalterada: estamos perante uma efectiva operação terrorista, uma falha grave de capacidade governativa ou a execução de um alegado “Plano Macabro” destinado a desestabilizar o país?
Quais seriam as razões objectivas que justificariam acções terroristas contra Angola? A quem interessaria promover uma desestabilização política precisamente num momento em que o MPLA enfrenta um elevado desgaste político e sinais de erosão estrutural? Que motivações reais, objectivas ou mesmo hipotéticas poderiam levar um cidadão russo, residente em Angola há mais de três décadas e com relações públicas junto de sectores da elite governamental, a envolver-se numa operação desta natureza contra o Estado angolano? E por que razão precisamente neste contexto político?
São questões que merecem uma reflexão profunda perante a ameaça latente que, hoje mais do que nunca, parece pairar sobre o país. Não será de estranhar que, durante um período superior a setenta e duas horas de interrupção das comunicações da principal rede nacional de telecomunicações, possam ocorrer detenções arbitrárias, assassinatos em circunstâncias pouco claras, crimes violentos ou outras violações de direitos cuja denúncia tenha ficado comprometida pela impossibilidade de comunicação imediata das vítimas.
As evidências, entretanto, continuam a suscitar preocupação. Durante este mesmo período, números já identificados passaram a disseminar, por meio de grupos de WhatsApp, novas ameaças contra o jornalista e director do Portal “A DENÚNCIA”, Carlos Alberto, por meio de um banner com uma mensagem explícita, no qual o general Fernando Garcia Miala é apresentado como o alegado responsável por uma futura perseguição contra o jornalista, incluindo a possibilidade de uma prisão arbitrária.
O referido banner envolvendo o general Fernando Garcia Miala foi difundido logo após o lançamento do banner da Quinta Temporada sobre o “Caso Miala”, subordinado ao tema: “Anatomia do Crime de Estado na Administração Lourenço“.
São precisamente esses mesmos números que, recentemente, passaram a eleger como alvos preferenciais dos seus ataques nas redes sociais o jurista Carlos Cabaça, o jornalista Carlos Alberto, a empresária Isabel dos Santos e o político e general reformado Francisco Higino Lopes Carneiro, pré-candidato à liderança do MPLA no IX Congresso Ordinário, previsto para Dezembro de 2026, cujo processo político interno atravessa uma fase particularmente complexa.
Estes episódios constituem apenas alguns dos factos que, na perspectiva da análise desenvolvida neste texto, podem contribuir para compreender aquilo que é designado como a anatomia do crime de Estado na Administração do Presidente João Lourenço.
Relativamente à crise das comunicações, acrescem ainda os prejuízos económicos de enorme dimensão: terminais de pagamento automático, caixas ATM, plataformas de pagamento electrónico e inúmeras actividades económicas ficaram parcial ou totalmente paralisados, com consequências imediatas para cidadãos, empresas e instituições.
Desta vez, tudo indica que o Governo poderá recorrer ao argumento de que a paralisação da rede da UNITEL resultou de um eventual ataque de terrorismo digital. Ainda recentemente, na sequência do ataque ao site electrónico do ANGOTIC, o especialista angolano em cibersegurança Renato Jorge Vilarinho, radicado em Londres, alertou para o facto de aquele incidente dever ser encarado como um sinal de alerta e uma oportunidade para reforçar os sistemas de defesa contra ciberataques e consolidar mecanismos de prevenção.
Contudo, tudo indica que a experiência do ANGOTIC não terá sido suficientemente valorizada para retirar as lições necessárias. Pelo contrário, o incidente foi inicialmente minimizado pelas autoridades, que o classificaram como uma mera “tentativa de invasão”, interpretação posteriormente contrariada pelo especialista por meio de uma explicação técnica detalhada sobre a natureza do ataque e as consequências concretas que dele resultaram.
Neste contexto, importa questionar igualmente o papel do Ministério das Telecomunicações, Tecnologias de Informação e Comunicação Social (MINTTICS), enquanto entidade responsável pela definição, condução e controlo das políticas públicas nos domínios das telecomunicações e das tecnologias de informação.
A questão torna-se ainda mais relevante pelo facto de o titular da pasta, Mário Augusto da Silva Oliveira, ser engenheiro de telecomunicações e possuir uma longa experiência profissional ligada ao sector. Perante uma ocorrência desta dimensão, que afectou uma infra-estrutura estratégica nacional, seria expectável que o ministro viesse publicamente prestar esclarecimentos técnicos preliminares, em representação do titular do Poder Executivo, João Lourenço, sobre o nível de intervenção do Estado, a natureza do incidente e as medidas adoptadas para garantir a recuperação integral dos serviços.
Essa expectativa tornou-se ainda maior num momento em que circularam nas redes sociais informações segundo as quais os alegados autores do ataque cibernético estariam a exigir um resgate no valor de 150 mil milhões de kwanzas — informação que, até ao momento, não foi oficialmente confirmada nem desmentida pelo MINTTICS por meio de, pelo menos, um comunicado.
Persistem, por isso, dúvidas sobre a forma como o incidente foi gerido do ponto de vista da comunicação institucional, incluindo alegações segundo as quais órgãos públicos de comunicação social terão recebido orientações no sentido de reduzir a relevância do sucedido ou limitar a divulgação de informação sobre a dimensão real da crise.
Se confirmada, uma actuação dessa natureza levantaria questões sérias sobre transparência institucional, direito à informação dos cidadãos e capacidade do Estado para comunicar de forma responsável perante incidentes que envolvem infra-estruturas tecnológicas estratégicas.
Recorde-se que a UNITEL é actualmente uma empresa sob influência accionista do Estado angolano e cujas acções se encontram em processo de alienação por meio da Bolsa de Dívida e Valores de Angola (BODIVA). A interrupção inesperada da sua actividade poderá resultar de múltiplos factores, mas o contexto em que ocorre confere ao episódio uma dimensão que ultrapassa uma simples falha operacional.
O processo de alienação das acções da empresa envolve igualmente implicações jurídico-legais que continuam a suscitar debate e que exigem maior esclarecimento. Como advertiu recentemente o Professor e investigador de Oxford, Rui Verde: “O Estado vai vender acções da UNITEL que nacionalizou com base em processos judiciais que não existem. O próprio prospecto da OPV admite o risco: se os antigos accionistas ganharem em tribunal, Angola pode ter de devolver as acções, pagar indemnizações e desfazer toda a operação”.
Assim, a interrupção da rede da UNITEL apresenta implicações que vão muito além de interesses meramente económicos ou da negociação da venda de 15% das acções da empresa em bolsa. O Estado angolano, enquanto accionista e responsável pela orientação estratégica da empresa, encontra-se perante um risco transversal que envolve a actividade de instituições públicas e privadas, bem como o funcionamento regular de sectores essenciais da sociedade e dos próprios órgãos de soberania.
É neste contexto que ganha particular relevância a coincidência temporal entre a operação de alienação das acções e a crise operacional da principal rede nacional de telecomunicações.
De forma particularmente significativa, o jornal das 13 horas da Rádio Nacional de Angola (RNA), de quarta-feira, 29 de Julho, noticiou a realização da cerimónia de alienação de 15% das acções da UNITEL, adquiridas por mais de 11 mil investidores, operação que, segundo a informação divulgada, permitiu ao Estado arrecadar mais de 300,3 mil milhões de kwanzas.
No Telejornal da Televisão Pública de Angola (TPA), na edição do mesmo dia, durante a peça dedicada ao evento, o presidente do Conselho de Administração da UNITEL, Aguinaldo Jaime, confirmou que a empresa estava a reforçar a resposta ao incidente que provocou a interrupção das comunicações, contando, para o efeito, com o apoio de especialistas estrangeiros que se deslocariam a Angola para trabalhar em conjunto com as equipas técnicas nacionais na recuperação integral dos sistemas e no reforço das capacidades de cibersegurança.
A cerimónia foi presidida por Cristina Lourenço, filha de João Lourenço, presidente da Comissão Executiva da BODIVA.
Este encadeamento de acontecimentos suscita, porém, várias questões de natureza lógica e operacional. Se a paralisação da rede da principal operadora nacional de telecomunicações comprometia as comunicações, por que meios foi assegurada a coordenação de um evento desta dimensão? Da rede da Africell? A comunicação entre os diversos intervenientes foi garantida por meio de outras redes de telecomunicações, de sistemas alternativos ou de infra-estruturas próprias? Se a cerimónia estava previamente agendada e decorreu sem adiamento, levanta-se igualmente outra questão: terá a interrupção da rede coincidido fortuitamente com o evento ou existirá alguma relação temporal que justifique uma análise mais aprofundada?
A realização da operação bolsista, precisamente num momento em que a UNITEL enfrentava uma grave crise operacional, constitui igualmente um elemento que merece reflexão. É um contra-senso. Por um lado, independentemente da explicação técnica para a interrupção do serviço, importa compreender por que razão se optou por manter inalterada uma operação com evidente impacto na opinião pública sobre a empresa e sobre o próprio Estado, seu accionista.
A decisão poderá ter pretendido transmitir uma mensagem de confiança e de normalidade institucional. Todavia, essa opção abre inevitavelmente espaço para interrogações sobre o contexto em que foi tomada e sobre a forma como a comunicação política procurou enquadrar o sucedido.
Por outro lado, esta é daquelas operações que muitas vezes funcionam como uma espada de duas pontas: a participação massiva de cerca de 11.264 investidores, cuja identidade não foi divulgada por, alegadamente, se tratar de informação protegida pelo sigilo do mercado de capitais, pode ser igualmente um dado que deveria suscitar sérias reservas das próprias autoridades angolanas.
É provável que entre estes investidores existam aqueles cujo propósito seja exclusivamente financeiro e legítimo. Contudo, num contexto de vulnerabilidade institucional, também se levanta a questão de saber se foram adoptados mecanismos adequados para avaliar a origem dos capitais envolvidos e os eventuais interesses associados a uma operação desta dimensão, sobretudo quando estes novos accionistas passam a deter participação numa empresa estratégica nacional, num momento em que a operadora enfrenta uma complexa crise operacional e previsíveis desafios jurídicos.
No mesmo dia 29 de Julho, no jornal das 13 horas, a Rádio Nacional de Angola (RNA) divulgou uma notícia relativa às declarações do Presidente da República Democrática do Congo (RDC), Félix Tshisekedi, sobre o debate em torno de um eventual terceiro mandato presidencial. Segundo as declarações atribuídas ao Chefe de Estado congolês, este afirmou que não solicitara um terceiro mandato, mas admitiu que o aceitaria caso essa fosse a vontade do povo. Tshisekedi acrescentou que uma eventual alteração constitucional deveria resultar de um processo de consulta popular.
A divulgação desta notícia pela RNA ocorreu num momento particularmente sensível do ponto de vista político regional, marcado por debates sobre sucessão presidencial, alterações constitucionais e os limites institucionais do exercício do poder em vários países africanos. Na própria RDC, as declarações do Presidente abriram um debate público sobre a possibilidade de uma nova candidatura e sobre os limites constitucionais do poder presidencial.
A mera coincidência temporal entre esta informação e os acontecimentos analisados neste texto não permite, por si só, estabelecer qualquer relação causal. Contudo, num ambiente caracterizado por elevada tensão política, processos sucessórios em curso e crescente disputa em torno da continuidade ou renovação das lideranças, determinados sinais políticos e comunicacionais assumem uma dimensão que merece reflexão.
Essa reflexão torna-se ainda mais pertinente quando se considera o papel histórico da Rádio Nacional de Angola (RNA) enquanto órgão de comunicação social público e a percepção existente na sociedade sobre a sua linha editorial e a forma como determinados acontecimentos políticos são seleccionados, enquadrados e divulgados. Por essa razão, a escolha dos conteúdos, o momento da sua divulgação e o respectivo enquadramento noticioso constituem elementos que podem merecer análise crítica no espaço público.
Por isso, relativamente ao caso concreto da paralisação da rede de telecomunicações da UNITEL, seja qual for a explicação técnica que venha a ser apresentada pelo Ministério das Telecomunicações, Tecnologias de Informação e Comunicação Social, pela direcção técnica da UNITEL ou por outros organismos afins, como o Instituto Angolano das Comunicações (INACOM), a verdadeira questão não reside apenas na invocação de falhas operacionais ou de alegadas acções de sabotagem ou terrorismo digital, narrativas que, nos últimos meses, se têm tornado recorrentes no discurso oficial.
O essencial consiste em apurar as causas profundas e ainda inexplicadas que estiveram na origem da interrupção do serviço, sobretudo num contexto em que temos vindo a alertar, de forma persistente, para a existência de um alegado “Plano Macabro”, atribuído ao chefe do SINSE, general Fernando Garcia Miala, sem que, até ao momento, tenha existido qualquer pronunciamento das instâncias competentes, designadamente do Presidente da República e da Procuradoria-Geral da República (PGR).
Importa recordar que, a 20 de Fevereiro de 2026, apresentámos junto da PGR uma participação criminal contra o general Fernando Garcia Miala. Decorridos mais de cinco meses, permanece a ausência de qualquer resposta institucional. O mesmo silêncio verifica-se relativamente à Assembleia Nacional (AN) e ao Tribunal Constitucional (TC), órgãos de soberania aos quais foi igualmente dado conhecimento da referida participação criminal.
Ora, dificilmente será compatível com o princípio do Estado de Direito admitir que instituições desta natureza, investidas de elevadas responsabilidades constitucionais na preservação da estabilidade política e institucional do país, se demitam do dever elementar de prestar esclarecimentos aos cidadãos sobre uma matéria que lhes foi formalmente submetida e que reveste manifesto interesse público.
Mais do que uma questão de formalidade política, trata-se de uma exigência que encontra respaldo constitucional nos artigos 28.º, 29.º, n.ºs 4 e 5, e 40.º da Constituição da República de Angola (CRA).
Estes factos demonstram, de forma particularmente expressiva, o crescente afastamento das instituições estatais relativamente ao interesse público. Com frequência, a sua intervenção parece limitar-se ao estrito cumprimento de orientações emanadas do poder político, orientações essas predominantemente vocacionadas para a salvaguarda dos interesses da classe governante, em detrimento do interesse nacional e do bem-estar colectivo.
As evidências acumuladas apontam para um mecanismo de captura das instituições, comportamento que ajuda a explicar a complacência demonstrada perante actos arbitrários praticados por quem exerce o poder.
A coincidência da data da interrupção do sinal de comunicação da UNITEL pode, por isso, assumir diferentes leituras. Pode tratar-se de uma mera coincidência temporal. Mas também pode revelar uma sequência de acontecimentos que exige uma análise profunda, sobretudo quando ocorre exactamente um ano depois de um período marcado por manifestações violentas e por um ambiente de elevada tensão política.
Do mesmo modo, a recente actuação da Direcção de Investigação de Ilícitos Penais (DIIP), que culminou com o anúncio do desmantelamento de uma suposta rede de indivíduos composta por cidadãos nacionais e estrangeiros, entre os quais o cidadão brasileiro Hermelindo Henrique, de 36 anos, alegadamente envolvidos em crimes de cibercriminalidade e numa tentativa de desfalque dos cofres do Estado em biliões de dólares, não pode ser vista como um facto politicamente isolado.
A sucessão de narrativas relacionadas com crimes económicos, terrorismo digital e ameaças contra o Estado segue, em certa medida, o mesmo padrão discursivo que tem sido apresentado pelas autoridades nos últimos meses, ao mesmo tempo que se cruza com a lógica do alegado “Plano Macabro” denunciado por Miguel Ângelo e que integra os elementos probatórios entregues à Procuradoria-Geral da República (PGR).
Se os acontecimentos anteriores foram interpretados pelo Governo angolano como resultado de uma acção de subversão conspirativa destinada a provocar o derrube do poder instituído, a interrupção da rede nacional de telecomunicações ocorrida precisamente no dia 28 de Julho, um ano depois, não deve ser analisada como um episódio de menor relevância estratégica. Pelo contrário, pela natureza da infra-estrutura afectada e pelo impacto causado na vida económica, social e institucional do país, trata-se de um acontecimento que exige uma investigação rigorosa e uma explicação pública transparente.
Curiosamente, circula nas redes sociais um vídeo que denuncia as circunstâncias em que o referido cidadão brasileiro terá sido envolvido na alegada rede criminosa, a partir do Estado de São Paulo, no Brasil, onde reside e possui um estabelecimento de reparação de equipamentos electrónicos.
Caso os factos venham a confirmar-se, o Estado angolano poderá encontrar-se perante uma situação política e diplomática particularmente delicada, na medida em que, de acordo com a narrativa divulgada no vídeo, a denúncia terá partido do próprio cidadão brasileiro, que alertou uma familiar, sua irmã, no Brasil, sobre a situação que estaria a enfrentar em Angola.
É precisamente por isso que, no actual contexto da globalização, em que a comunicação constitui um activo estratégico indispensável ao funcionamento de qualquer Estado moderno, a interrupção do sinal da UNITEL — a maior operadora nacional de telecomunicações — representa um sinal objectivo de vulnerabilidade institucional e de potencial instabilidade.
Trata-se de um acontecimento que não deve ser desvalorizado, sobretudo pelos diversos sectores da sociedade civil, sobre os quais recai igualmente a responsabilidade social e política de interpelar o Governo, exigir uma investigação independente e reclamar esclarecimentos sérios, transparentes e tecnicamente credíveis.
Mas a pergunta que se impõe é: estarão as autoridades angolanas verdadeiramente conscientes da dimensão estratégica desta ocorrência e das consequências que uma eventual falha de prevenção poderá representar para a segurança nacional?
O assunto UNITEL não termina nesta NAVALHA DE SÁBADO. Pelo contrário, este é apenas mais um capítulo de uma investigação que o Portal “A DENÚNCIA” continuará a acompanhar com o rigor que a gravidade dos factos exige. Novos desenvolvimentos serão oportunamente apresentados à medida que surgirem elementos adicionais capazes de contribuir para o esclarecimento de um dos acontecimentos mais relevantes da actualidade nacional.
Entrando para o segundo corte desta NAVALHA DE SÁBADO, importa escrutar o desempenho do jovem ministro da Justiça e dos Direitos Humanos, Marcy Cláudio Lopes, de quem seria legítimo esperar uma visão reformista, espírito inovador e maior sensibilidade institucional, evitando a publicação de um documento tão anacrónico quanto controverso como a Circular n.º 004/GAB.MINJUSDH/2026, de 9 de Julho, que suscitou uma reacção contundente do Sindicato dos Oficiais de Justiça de Angola (SOJA).
O sindicato contesta a orientação ministerial que determina que todos os funcionários e agentes administrativos que ainda não tenham procedido à actualização do registo eleitoral o façam até ao dia 31 de Julho de 2026, mediante deslocação a um Balcão Único de Atendimento ao Público (BUAP), para efeitos de realização da prova de vida, impondo igualmente a apresentação do respectivo comprovativo aos superiores hierárquicos e aos serviços de Recursos Humanos.
Para efeitos deste segundo corte de A NAVALHA DE SÁBADO, não nos deteremos na análise jurídica desenvolvida pelo SOJA sobre o conteúdo da referida circular, nem na defesa dos direitos dos seus filiados e dos trabalhadores em geral, designadamente dos direitos políticos e sociais fundamentais consagrados na Constituição da República de Angola (CRA).
O que esta decisão política do ministro Marcy Lopes evidencia é, sobretudo, o estado de ansiedade em que parece mergulhada a actual direcção do MPLA perante a aproximação de um novo ciclo eleitoral particularmente exigente. Mais do que transmitir confiança, serenidade institucional e capacidade de mobilização política, este tipo de posicionamento acaba por projectar a imagem de um poder excessivamente concentrado em mecanismos administrativos de controlo, em detrimento da construção de uma estratégia política assente na credibilidade, na renovação e na confiança dos cidadãos.
É precisamente nesta encruzilhada que o MPLA parece encontrar-se. Em vez de procurar respostas políticas para os desafios que enfrenta, multiplicam-se decisões que dificilmente contribuirão para restaurar a confiança dos militantes e da opinião pública.
Esta realidade torna-se ainda mais sensível quando o Presidente cessante e candidato à sua própria sucessão na liderança do partido, João Lourenço, necessitaria, acima de tudo, de serenidade, visão estratégica e capacidade de agregação, para que o IX Congresso Ordinário decorra num ambiente de harmonia, unidade e coesão interna.
Contudo, tudo parece indicar que o Presidente continua rodeado por iniciativas marcadas pela lógica da bajulação e por decisões de reduzido alcance político que, longe de fortalecerem a sua posição, acabam por acentuar o desgaste da sua imagem e expor as dificuldades do próprio partido em adaptar-se às exigências do novo contexto político que antecede as eleições do próximo ano.
A guerra em Angola terminou em 2002. Volvidas mais de duas décadas de paz, o país não pode voltar a viver sob o espectro permanente de alegadas ameaças terroristas ou de qualquer outro factor susceptível de comprometer a estabilidade política e a segurança nacional.
Também não deve ser ignorado o facto de Angola se encontrar num período pré-eleitoral. O actual termómetro político evidencia níveis elevados de tensão social e política, circunstância que exige respostas estruturais, estratégicas e preventivas por parte das instituições do Estado.
Como se procurou demonstrar ao longo destes cortes de A NAVALHA DE SÁBADO, a comunicação constitui hoje um elemento estruturante do funcionamento das sociedades contemporâneas, exercendo influência directa sobre praticamente todos os sectores estratégicos da vida nacional.
A estabilidade das telecomunicações é, por isso, condição indispensável para o regular funcionamento da banca, da saúde, da energia, da administração pública, dos transportes, da defesa, da segurança e da própria economia.
Consequentemente, a interrupção de uma infra-estrutura crítica desta natureza não pode ser interpretada como um incidente isolado ou destituído de relevância estratégica. Pelo contrário, a imprevisibilidade constitui precisamente o principal indicador da necessidade imperiosa e permanente de prevenção.
Se, perante acontecimentos desta envergadura, o Estado continuar a privilegiar o silêncio em detrimento da transparência, a inacção em detrimento da prevenção e a propaganda política em detrimento do esclarecimento público, então o verdadeiro problema deixará de residir apenas na paralisação de uma rede de telecomunicações.
Passará a residir na capacidade — ou incapacidade — das próprias instituições em antecipar, compreender e neutralizar as ameaças que recaem sobre a estabilidade nacional.
É neste ponto que ganha actualidade o conceito desenvolvido por Miguel Ângelo de Estado de Violência e Violência de Estado. Quando as instituições deixam de cumprir a sua função primordial de proteger o interesse colectivo, permitindo que interesses particulares se sobreponham ao interesse nacional, consolida-se um ambiente de anocracia, em que os princípios do Estado de Direito são progressivamente fragilizados pela opacidade, pela arbitrariedade e pela instrumentalização do poder.
Em Portugal, por exemplo, perante situações de menor impacto sistémico, responsáveis governamentais têm sido chamados a prestar esclarecimentos públicos. Em Angola, perante uma interrupção que afectou uma infra-estrutura crítica nacional, permanece a expectativa de uma explicação institucional clara, transparente e tecnicamente fundamentada.
Num Estado Democrático, a prevenção vale sempre mais do que a gestão da crise. Ignorar sinais de alerta nunca constituiu uma política de segurança; é, quase sempre, a antecâmara de acontecimentos que, mais tarde, acabam por ser apresentados como inevitáveis.
A invocação de um ciberataque, neste caso concreto, coloca o Estado angolano perante uma encruzilhada: ou revela uma falha grave de prevenção e de capacidade institucional para proteger uma infra-estrutura estratégica, ou confirma a existência de uma ameaça deliberada cuja dimensão exige uma resposta igualmente séria e transparente.
É por isso que a questão essencial já não consiste apenas em saber o que aconteceu à UNITEL. A verdadeira questão é saber se o Estado angolano continua efectivamente capaz de antecipar, prevenir e responder às ameaças que podem comprometer a sua estabilidade, ou se, pelo contrário, a erosão das suas próprias instituições começa a transformar-se numa das maiores vulnerabilidades da segurança nacional.
