A Quarta Temporada do Caso Miala não está a ser lançada agora por acaso. Aguardávamos que surgisse na imprensa mais um alegado grupo terrorista que planificava assassinar o Papa Leão XIV, tal como ocorreu após a visita de Joe Biden. Estranhamente, em actos de massa amplamente antecipados e divulgados pelos meios de comunicação públicos, onde a vulnerabilidade para um eventual “ataque” ao Papa seria maior — basta recordar o episódio do jovem que conseguiu romper o cordão de segurança e aproximar-se com facilidade do Santo Padre —, não se registou qualquer “grupo terrorista”. De repente, o “terrorismo” em Angola desapareceu. Fontes do Portal “A DENÚNCIA” garantem que a Primeira, a Segunda e a Terceira Temporada do Caso Miala “frustraram” o “Plano Macabro” do chefe do SINSE, Fernando Garcia Miala. Terá o “Plano” sido reestruturado? O que se segue agora?

Nada parece casual. O Sumo Pontífice, Leão XIV, parece ter escolhido o período de Pentecostes para a sua digressão em África. A natureza da sua mensagem sugere esse propósito. Pentecostes simboliza renovação e verdade; porém, diante da falta de sensibilidade política dos governantes angolanos, o que se observa não é renovação, mas repetição dos mesmos erros e dos mesmos enganos.

O semblante radiante com que o Presidente João Lourenço recebeu o Santo Padre, Leão XIV, não é apenas incómodo, é, no mínimo, inquietante: será que perdemos todos a vergonha? A iniquidade que grassa no seu Governo é devastadora. O amor ao próximo não se compadece com hipocrisia, fingimento e exacerbada vaidade. Esta é a vaidade dos vazios: a doutrina não escrita de um poder que trocou a ética pela estética. É sinal de desespero. O “Plano Macabro” para desestabilizar o país falhou. O balanço da governação é nulo. É o que acontece quando quem governa toma o invólucro pelo conteúdo e crê, com sinceridade perturbadora, que ser visto é ser.

Quarta Temporada – Caso Miala

Sexta-feira Santa: um sonho como apelo à República

Na madrugada de Sexta-feira Santa, eu, Carlos Alberto, tive um sonho envolvendo o país e o Presidente João Lourenço. Dirão alguns que não passou de um sonho. Talvez. Mas há momentos em que até os sonhos são mensagens carregadas de significado — chamam-nos à razão com uma limpidez que nos permite desvelar o quão aqueles que governam o país são incapazes de uma mudança genuína de espírito.

Os sonhos também servem de lembrete. Por isso, seria imprudente ignorar a advertência do profeta Jeremias: “maldito o homem que confia no outro homem”. Não se trata de linguagem estilística, mas de um diagnóstico brutal da natureza humana — algo que a história confirma reiteradamente. Judas Iscariotes não traiu Jesus Cristo com um rude golpe, mas com um gesto de aparente lealdade: um beijo. É assim que a traição opera — discreta, disfarçada e eficaz.

E é precisamente esse padrão que hoje parece enraizado no coração do poder. Em Angola, não faltam “beijos” políticos: elogios fáceis, fidelidades encenadas e uma corte de interesses que prospera na proximidade ao Presidente. A permanência de figuras com passado controverso, como Fernando Garcia Miala, em posições-chave, mais do que suspeita — acciona sérios alarmes. Há indícios que não podem ser ignorados.

Infelizmente, este padrão não pertence apenas ao passado; repete-se com inquietante regularidade. Fernando Garcia Miala surge, nesse contexto, como uma dessas figuras cuja influência suscita questões legítimas sobre os critérios de confiança no seio do poder.

O mais perturbador não é apenas a existência dessas figuras, mas a aparente incapacidade da liderança em reconhecer o jogo que se desenrola à sua volta. João Lourenço parece, cada vez mais, prisioneiro de um círculo onde a bajulação substitui a verdade e onde a crítica construtiva é tratada como ameaça.

A história já demonstrou onde isso conduz. Líderes que se rodeiam de aduladores acabam isolados da realidade e, pior, tomam decisões baseadas em ilusões cuidadosamente construídas. Isso não é liderança; é auto-engano.

Falha ou conluio: o “Plano Macabro” no coração do poder

O Ministério Público ilibou os líderes dos taxistas, antes indiciados por instigação à violência, após concluir que não tiveram envolvimento nos actos que ocorreram nos dias 28, 29 e 30 de Julho de 2025. A decisão levanta questões preocupantes: se não foram eles que instigaram a violência, quem foi? Como se chegou aos cidadãos russos e qual é a origem das acusações? Que nexo existe entre os actos violentos e as acções atribuídas a esses russos, que parecem limitar-se a encontros com políticos e um jornalista?

Miguel Ângelo denuncia um “Plano Macabro” de desestabilização do país, alegadamente orquestrado pelo general Fernando Garcia Miala, chefe do SINSE. Os indícios apresentados exigem investigação séria. Esta é uma das questões que nos levou a apresentar a participação criminal junto da Procuradoria-Geral da República (PGR). Até ao momento, não houve qualquer pronunciamento oficial. O silêncio expõe graves debilidades do nosso sistema de justiça e levanta sérias dúvidas sobre a sua eficácia. Já temos em funções o novo Procurador-Geral da República, Pedro Mendes de Carvalho. Impõe-se uma diligência para aferirmos o despacho que a nossa participação mereceu.

Soma-se a isso a narrativa construída em torno dos dois cidadãos russos: Igor Ratchin e Lev Lakshtanov. Igor Ratchin é descrito com um nível de detalhe cuja fonte se desconhece, sendo o autor do texto uma figura fictícia. Já Lev Lakshtanov, pelo depoimento prestado durante o julgamento no dia 22 de Abril, terá, ao que tudo indica, sido vítima de uma cilada do seu compatriota, enquanto exercia funções como tradutor de russo em Angola. O veículo utilizado para a divulgação desses conteúdos foi o site “Tribuna de Angola”. Quem gere a plataforma? Tanto os conteúdos difundidos como os seus responsáveis deveriam ser alvo de rigorosa averiguação judicial. Os “terroristas russos”, utilizados como cobaias nas manifestações de 28, 29 e 30 de Julho, tal como o suposto grupo que “confessou” planear um atentado contra Joe Biden, sem dispor de recursos nem meios, são inimigos imaginários — fabricados com precisão. Fernando Garcia Miala é apontado pelo quadro sénior do SINSE, Miguel Ângelo, como o arquitecto por trás do “Plano Macabro”, para depois se apresentar como salvador. Não há prova mais evidente.

Toda a encenação tem uma razão: a apetência pelo cadeirão máximo. Contudo, é inevitável a percepção pública de que o Presidente João Lourenço esteja por dentro do mesmo “Plano Macabro”. Caso contrário, dificilmente usaria o caos para legitimar a tese de golpe em curso, como ele próprio sublinhou. Na mesma lógica salvífica encaixam-se os apoios financeiros do Governo às empresas vandalizadas durante as manifestações: uma vez que a culpa recai sobre os “terroristas”, o Estado capitaliza-se como redentor. Daí a “profilaxia” do Portal “A DENÚNCIA”, antecipando-se ao risco de eventos “terroristas” que se poderiam premeditar durante a visita do Papa Leão XIV.

Para a opinião pública, o silêncio, portanto, não é acaso. É interpretado como método. Ignora-se a denúncia contra o general Fernando Garcia Miala e governa-se pela omissão. Mas, no fim, quem paga a factura é quem tem o ónus de dirigir o Estado. Aqui, o risco é imprevisível. Neste contexto, não é possível afastar a desconfiança pública no sistema de justiça: na conivência com o poder político. É evidente o proteccionismo que parece existir em relação ao general Fernando Miala. Um sistema que se pretende funcional não pode apresentar deficiências tão graves no tratamento de um assunto de tamanha sensibilidade.

Neste caso dos russos, só há duas hipóteses: se não houve falha flagrante do SINSE — o que, por si só, justificaria a demissão do seu responsável máximo pelo Presidente da República —, então fica evidente a existência de um “Plano Macabro” e de uma agenda oculta por trás destas incursões rocambolescas. Se não há falha, há envolvimento.
Num país normal, seria inadmissível que uma figura obscura como “Anselmo Agostinho” substituísse a Direcção de Contra-Espionagem do SINSE, apresentando dados sobre o suposto “espião” russo Igor Ratchin que o Estado angolano, com todo o seu aparato estrutural e recursos avultados, não foi capaz de obter. Jamais se deveria admitir que um site como o “Tribuna de Angola” substituísse, na missão, o SINSE, o SIE e o SISM, juntos. Aliás, essa falência nas missões a que estão adstritos não é casual. É método. É maquiavelismo falhado: é falcatrua escondida. A inépcia estrutural tem nome: “Plano Macabro”.

É esse “Plano Macabro” que dá luz verde ao “Tribuna de Angola” e permite que os “Anselmos Agostinhos” se assumam como expoentes máximos em matéria de inteligência, como se detivessem uma gama de informações privilegiadas. Isso, no mínimo, significa um certificado de mediocridade assumido ao sistema de inteligência. É um total desrespeito pelo Estado. É a ridicularização do nosso sistema de justiça. É uma vergonha para o Presidente João Lourenço. Ao admitir a táctica maquiavélica, João Lourenço admite a sua própria incoerência e falta de coragem política.

Quem ameaça o Estado: a palavra ou o poder?

O jovem activista Osvaldo Caholo encontra-se detido desde Agosto de 2025. A sua detenção insere-se no mesmo leque das detenções que ocorreram na sequência dos acontecimentos decorrentes da greve dos taxistas, nos dias 28, 29 e 30 de Julho. Caholo foi condenado, no dia 27 de Abril, a dois anos e seis meses de prisão efectiva.

Como compreender que o tribunal condene Osvaldo Caholo por “instigação pública ao crime”, apenas por se pronunciar em praça pública durante uma manifestação, enquanto a PGR não instaura qualquer investigação contra o general Fernando Miala, alvo de denúncia assente em factos concretos, devidamente documentados e acompanhados de elementos de prova?

Há dois pesos e duas medidas: a contradição é gritante. Caholo, um simples jovem activista sem aparato, é tratado como ameaça por declarações verbais, sem que disponha de meios para concretizar os actos de que se diz motivado a praticar. Já Miala, com acesso aos instrumentos de poder e declarada ambição política, não é sequer submetido a inquérito, apesar de fortes indícios: factos, testemunhas, co-participantes e actos praticados no exercício de funções de Estado — que configuram crimes susceptíveis de pôr em causa a estabilidade política, a segurança do Estado e do próprio Presidente João Lourenço.

Os indícios impõem o dever rigoroso de se apurar responsabilidade criminal, em dois sentidos: ou se investiga Miala, ou Miguel Ângelo, autor da obra Angola na Era da Pós-Verdade, deve ser chamado a responder por calúnia, caso não seja capaz de provar o que descreve sobre a conduta do general enquanto chefe do SINSE. Não se trata de rumores de redes sociais. É um caso entregue às autoridades, a quem compete averiguar a veracidade dos factos.

O silêncio institucional como ferramenta

A participação criminal que apresentámos à PGR, a 20 de Fevereiro de 2026, assenta em evidências plausíveis. Há provas substanciais que exigem esclarecimento jurídico-legal do chefe do SINSE, Fernando Garcia Miala. Afinal, compete ao SINSE salvaguardar a estabilidade política do Estado: garantir o normal funcionamento das instituições e a defesa dos direitos, liberdades e garantias fundamentais dos cidadãos.

O documento/participação criminal foi levado ao conhecimento dos órgãos de soberania — Presidência da República, Tribunal Constitucional e Assembleia Nacional. Quase três meses depois, nenhum se pronunciou. O silêncio, tantas vezes usado como blindagem política, aqui não admite essa leitura. O descaso sugere alinhamento do Presidente João Lourenço com Fernando Miala, o que é gravíssimo. Se essa for a lógica, o general Francisco Pereira Furtado foi apenas a última vítima destas cabalas palacianas. A próxima pode ser o próprio Presidente da República João Lourenço, claramente nas mãos de Miala.

Intrigas como método de Governo

A exoneração do general Francisco Furtado do cargo de ministro de Estado e chefe da Casa Militar do Presidente da República, após rumores nas redes sociais sobre a sua vida pessoal, criou a percepção pública de que essa foi a única causa. Sem desmentido oficial, nem do próprio visado, consolidou-se a ideia de facto consumado. O episódio revela, no mínimo, inversão de prioridades do Chefe de Estado na tomada de decisões sobre matérias de real interesse nacional. Aparentemente, as intrigas pesam mais do que factos relevantes facilmente verificáveis, que ameaçam a integridade do país.

Só assim se compreende a facilidade com que o general Furtado foi envolvido numa cabala, usando-se o ruído e elevando-se futilidades à categoria de assunto de Estado. Por isso, a omissão diante das denúncias contra o general Fernando Miala não pode ser lida como menosprezo: configura conivência. Compromete a integridade jurídica e ética de quem detém o poder. A ameaça dirige-se ao Estado. E, neste caso, provém de quem tem o dever de o proteger: o Chefe de Estado.

A agenda oculta

O que está em causa não são as interpretações erróneas ou especulações sobre a exoneração do general Furtado. O que está em causa são as iniquidades do general Fernando Miala e a agenda oculta por detrás de práticas amplamente denunciadas pelo Portal “A DENÚNCIA“, com documentos entregues às autoridades, e a forma como estas instituições ignoram factos relevantes para a segurança do Estado.

A queda do general Francisco Furtado, vítima provável de uma armadilha bem montada, expõe o método: o núcleo do poder opera por intrigas e chantagens políticas. Tais práticas não apenas condicionam as decisões do mais alto dignitário do Estado, o Presidente João Lourenço, como dificultam a gestão eficiente do país, ao mesmo tempo que a banalização serve para alimentar as ambições pessoais do general Miala.

Não é por acaso que Fernando Miala passou a apresentar-se como putativo substituto de João Lourenço na Presidência da República e cabeça-de-lista do MPLA, violando normas do direito militar e princípios do Estado de Direito. O facto é que Fernando Miala se sente intocável e favorito ao trono, enquanto João Lourenço é percebido como refém de chantagens e incapaz de agir contra Miala. Quando o chefe da inteligência se auto-promove como futuro Presidente, em clara violação da lei, e o Presidente não o demove, o Estado está em risco. É uma evidência de frágil autoridade presidencial.

O pudor selectivo do Comandante-em-Chefe

Angola deve ser caso único no mundo onde o chefe de um Serviço de Informações é descrito, em obra especializada, como alguém que apresenta sinais de perturbação mental e pratica crimes no exercício das funções que lhe são atribuídas, e tudo permanece igual. Onde factos documentados são entregues às autoridades competentes e nada acontece. Em contrapartida, um ruído de um gay, sem provas evidentes, basta para precipitar a queda de um ministro de Estado, sem investigação para apurar factos nem tempo para esclarecer a opinião pública.

A promiscuidade sexual é tratada como “segredo de Estado”. Violá-lo merece punição severa. O Estado reduz-se a um bordel subterrâneo onde a vida privada da elite vale mais do que a segurança nacional. A lógica é clara: o verdadeiro pudor político de João Lourenço assenta num único pressuposto — evitar o risco de chantagens quando o assunto envolve “orgias de Estado” da classe governante. É uma fronteira ténue entre moralidade selectiva e conveniência que assombra o poder.

8,6 mil milhões de silêncio: quem comanda o vazamento?

A burla mudou de geografia, mas não de método: saiu da Tailândia, fez escala em Itália e encontrou, mais uma vez, terreno fértil na fragilidade institucional angolana. O processo contra Angola foi aberto num tribunal arbitral na Suíça, onde o Estado poderá ser chamado a pagar cerca de 8 milhões de euros em emolumentos, correspondentes a 1% de um alegado investimento de 800 milhões prometido por empresários italianos. No centro da névoa, reaparece o nome de Norberto Garcia, que já foi à Procuradoria-Geral da República desmentir qualquer envolvimento, alegando uso abusivo do seu nome e falsificação da sua assinatura por um indivíduo entretanto detido pela PGR. A explicação é grave, mas não menos inquietante do que o padrão: o seu nome surge repetidamente associado a esquemas que visam aliciar investidores estrangeiros com a promessa de garantias estatais. Coincidência ou azar? Sempre o mesmo “Norberto Garcia”? E é sempre inocente? Num país onde a credibilidade institucional é moeda rara e, ao que parece, facilmente falsificável, até a dúvida custa caro.

O mais perturbador, porém, não é apenas o risco financeiro; é a coreografia política que o acompanha. O processo ainda não conheceu desfecho nem em Angola nem na Suíça, mas já produziu efeitos administrativos: Norberto Garcia foi exonerado do cargo de director do Gabinete de Estudos e Análises Estratégicas da Casa Militar do Presidente da República e prontamente “reconduzido” a director-geral do Centro de Formação de Jornalistas (CEFOJOR), sob o manto da presunção de inocência. Ordens do chefe, ponto final, parágrafo. Um princípio jurídico inatacável, mas que aqui parece aplicado com uma selectividade gritante, quase pedagógica, sobretudo quando comparado com a rapidez cirúrgica com que outras figuras são afastadas por alegações de natureza estritamente pessoal.

Num caso que envolve potenciais crimes como abuso de poder e usurpação de competências, e que pode custar 8,6 mil milhões de kwanzas aos cofres do Estado angolano, o silêncio institucional não é apenas ensurdecedor, é comprometedor. Nenhuma voz se levanta, nenhuma denúncia estrondosa, nada vaza nas redes sociais, nenhuma cruzada moral. Como se o escândalo só merecesse atenção quando serve determinados “interesses” ou quando convém a determinados “silêncios”.

E depois há o pano de fundo, ainda mais inquietante: os serviços de inteligência, como o SINSE e o SISM, parecem assistir de camarote a esquemas que lesam directamente os interesses estratégicos do país, numa vigilância que falha precisamente quando mais se exige. Mesmo que Angola venha a provar inocência no tribunal arbitral na Suíça, o dano reputacional já está feito e o custo financeiro, ainda que reduzido para 4 milhões de euros, continua a ser um insulto brutal à escassez que marca a vida de milhões de cidadãos que vivem no limiar da pobreza.

Paralelamente, assiste-se a fugas selectivas de informação, como no caso do general Francisco Pereira Furtado, cujo processo, aberto por si próprio junto do SIC, foi rapidamente exposto e seguido de exoneração imediata, num gesto que mais parece cabala do que prudência, ou talvez apenas “eficiência selectiva”.

A pergunta agora é: quem define o ritmo da justiça e da exposição pública em Angola? Quem define o que se vaza nas redes sociais? E o que ganha com isso? Por que razão não surgiu também um “Anselmo Agostinho”, como no caso dos “russos terroristas”, numa narrativa antes mesmo do comunicado do SIC, sempre bem informado, a alertar-nos de uma possível “burla à italiana” envolvendo o nome de Norberto Garcia? Em contrapartida, surgem, com um enredo de “Velocidade Furiosa 11”, boatos nas redes sociais envolvendo o nome do ministro de Estado e chefe da Casa Militar do Presidente da República, Francisco Pereira Furtado, seguidos de exoneração imediata, sem qualquer desmentido, quando o SIC sabe quem abriu o processo-crime e se espera que venha a pronunciar-se sobre o assunto em breve, segundo fontes próximas do processo. E, curiosamente, não houve qualquer “vazamento” numa “burla à italiana” em que o Estado angolano pode deitar fora cerca de 8,6 mil milhões de kwanzas, do nada, para o lixo — talvez porque, em kwanzas, a indignação pareça sempre mais selectiva do que a justiça.

Quem selecciona, então, o que se vaza nas redes sociais e com que objectivo? Quando quem deve proteger o Estado se torna a ameaça, e quem devia fiscalizar se cala, a República desfaz-se por dentro.

A “psicologia da irresponsabilidade”: poder, rumor e arbítrio

Ao afirmar que “a injustiça que se faz a um é uma ameaça que se faz a todos”, Montesquieu denuncia a vulnerabilidade intrínseca de um sistema esvaziado de valores e princípios. Longe de garantir protecção, tal ordem torna-se instável e converte-se em risco para o conjunto da sociedade, institucionalizando a precariedade como regra.

O problema central, portanto, não está na injustiça episódica, mas no défice de carácter e na desonestidade dos agentes que a produzem e sustentam. Esse mecanismo, que opera por meio de “mentiras sinceras” — narrativas falsas proferidas com convicção —, adquire maior peso político do que factos concretos e documentados. Com isso, inverte-se a hierarquia da prova: o rumor prevalece sobre a evidência.

Nesse sentido, a opinião pública situa o Presidente João Lourenço sob o signo da “psicologia da irresponsabilidade”. É o púlpito da imoralidade pública. Aí observa-se um padrão: age-se sob falsa pressão moral quando se deveria ponderar e avaliar as circunstâncias objectivas dos factos; em contrapartida, omite-se quando estão em causa problemas comuns e matérias estratégicas do país. Contudo, diante de qualquer sinal de ameaça à sobrevivência do poder, o ego sobrepõe-se à ética pública. E a probidade é dispensada.

Daí resultam despachos apressados, marcados pela urgência de quem busca extirpar um “tumor maligno”. É a lógica da auto-preservação sobreposta ao interesse colectivo. Um sistema assim estruturado é pernicioso: normaliza o arbítrio, desmoraliza as instituições e transfere para a sociedade o custo da instabilidade.

Quando a deslealdade é recompensada

A história bíblica de que Pedro negou por três vezes o seu amado mestre, Jesus Cristo, movido pelo medo, é frequentemente evocada como exemplo da fragilidade humana. Entretanto, no contexto político actual, a questão é mais profunda: não se trata de uma fraqueza momentânea, mas de um sistema que recompensa a deslealdade infame e penaliza a coerência e a integridade ética e moral.

O que hoje se observa não é apenas má governação. É um padrão: manipulação, processos judiciais de natureza duvidosa e uma confiança quase ingénua na capacidade de controlar tudo e todos. Essa confiança não é sinal de força — é vulnerabilidade disfarçada de poder.
Pentecostes deveria ser um tempo de despertar. Mas despertar exige coragem e, sobretudo, lucidez. A pergunta que se impõe é simples e incómoda: quantos “beijos de Judas” ainda serão necessários para que se compreenda que o verdadeiro perigo raramente vem de fora?

Esta realidade impõe uma reflexão profunda sobre a condição humana — as suas fragilidades e as suas escolhas. Os factos relacionados com a conduta do general Miala, o “Plano Macabro”, os crimes que lhe são imputados continuam a levantar questões e, na maioria das vezes, funcionam como avisos.

Analisar estes sinais exige uma compreensão elevada dos princípios intemporais que regem o poder, a lealdade e a traição. Exige presciência. A história oferece exemplos ilustrativos de deslealdade profunda. O problema agrava-se quando a liderança insiste em ignorar factos que dispensam discussão. O Presidente João Lourenço, ao que tudo indica, permanece rodeado por dinâmicas que favorecem a bajulação em detrimento da verdade. E a história ensina que líderes incapazes de distinguir lealdade de oportunismo acabam, inevitavelmente, por pagar um preço elevado.

Importa reconhecer que até os mais próximos falham quando confrontados com o abismo da sua própria interioridade. A diferença está na capacidade de reconhecer o erro — algo que, na política, parece cada vez mais raro. Há uma confiança excessiva na capacidade de influenciar decisões presidenciais que alimenta a ilusão de controlo que, na realidade, fragiliza o próprio Estado.

É urgente despertar para a verdade, para o discernimento e para a responsabilidade. Porque, no fim, Pentecostes não é apenas uma etapa do calendário litúrgico — é um tempo que exige uma reflexão profundamente humana: até quando João Lourenço continuará a confundir lealdade com conveniência?

Quem decide o que se vaza nas redes sociais? Quem comanda as páginas de “vazamento” dirigidas contra figuras do MPLA? E com que objectivo?

Qual é o novo plano?

Não perca a Quinta Temporada do Caso Miala.

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