O Caso Miala não começa aqui. Nem aqui se esgota. Continua — e, nesta Terceira Temporada, não apenas continua: adensa-se, reorganiza-se e revela uma estrutura que, até aqui, apenas parecia insinuação.
De forma aparentemente súbita — mas apenas aparentemente — o jornalista Carlos Alberto, que apresentou uma participação criminal junto da Procuradoria-Geral da República (PGR) contra o chefe do Serviço de Informações e Segurança do Estado (SINSE), o general Fernando Garcia Miala — figura que tudo indica posicionar-se como potencial presidenciável em 2027 — surge integrado num alegado processo-crime aberto no ano passado, em 2025, na qualidade de “declarante”. Será ouvido amanhã, quarta-feira, 25, às 11h, no SIC-GERAL.
Cada peça começa a encaixar-se com maior clareza, revelando padrões, coincidências e sequências que já não podem ser atribuídas ao acaso. A narrativa adensa-se, e o que parecia isolado transforma-se em estratégia perceptível.
Os russos começam a ser julgados nesta terça-feira, 24, segundo informações não confirmadas oficialmente. Mas será que são mesmo terroristas?
Este facto, lido de forma isolada, poderia ser interpretado como um acto processual comum. Mas não é no isolamento que este caso se compreende. É na sequência, na coincidência temporal e, sobretudo, na articulação entre denúncia, silêncio e activação.
O tempo, neste processo, não é neutro. Organiza-se. Quando os factos começam a surgir com esta cadência — primeiro a denúncia, depois o silêncio institucional e, por fim, a súbita integração do denunciante num processo paralelo — deixa de ser legítimo falar em acaso. Passa a impor-se a noção de padrão. Mas os padrões não se revelam de forma imediata. Exigem leitura em camadas, exigem tempo de maturação e, acima de tudo, exigem atenção à coerência interna dos acontecimentos.
É precisamente nesse plano que as nossas denúncias se inserem. Denúncias que não são meras declarações públicas, mas que já integram uma participação criminal formalizada na Procuradoria-Geral da República (PGR), acompanhada de material probatório que aponta para o alegado envolvimento do general Miala em práticas criminosas. E mais: trata-se de elementos cujo conhecimento não se limita à PGR, tendo já alcançado instâncias centrais do Estado, incluindo a Presidência da República, a Assembleia Nacional, o Tribunal Constitucional e a Provedoria de Justiça.
Também aqui, nada surge de uma só vez. Tal como os factos, também a verdade se revela por camadas. As Temporadas foram criadas exactamente com este propósito: revelar o Caso Miala por ordem cronológica, mas sempre respeitando o segredo de justiça.
O caro leitor terá assim a oportunidade de ligar cada peça, acompanhar a evolução do enredo e compreender, por completo, a dimensão e a complexidade do Caso Miala quando se chegar à conclusão da última Temporada.
É precisamente nesse plano que esta Terceira Temporada se constrói: como revelação progressiva de uma lógica que, quanto mais se expõe, mais coerente se torna.
Terceira Temporada — Caso Miala
Em pleno tempo da Quaresma — período de introspecção, de exame moral e de confronto com a verdade — o país encontra-se diante de uma narrativa onde se cruzam poder, silêncio, manipulação e medo. Um tempo que deveria conduzir à correcção, mas que, paradoxalmente, parece revelar a persistência no erro como escolha consciente.
William Shakespeare advertia: “o inferno está vazio, todos os demónios estão aqui.”
Santo Agostinho completava: “Errar é humano, mas persistir no erro é diabólico.”
Entre estas duas formulações, Angola não parece oscilar por fatalidade. Parece alinhar-se por construção.
Recordar para compreender: padrão, continuidade e materialidade do crime
A Segunda Temporada do Caso Miala não foi um encerramento. Foi uma exposição. Nela, emergiu um dado que não admite relativização: a existência de uma participação criminal formalmente apresentada na Procuradoria-Geral da República (PGR), no dia 20 de Fevereiro de 2026, contra o general Fernando Garcia Miala.
Importa sublinhar — e sublinhar novamente — que não estamos perante opinião, nem diante de retórica política ou especulação mediática. Estamos perante um acto jurídico sustentado em factos documentados, testemunhos identificados e elementos concretos que apontam para a existência de um alegado “plano macabro”, descrito pelo sociólogo Miguel Ângelo, quadro sénior do próprio SINSE, com conhecimento interno e responsabilidade institucional.
Mais do que denunciar, Miguel Ângelo identificou actores, indicou nomes e referiu responsáveis seniores do SINSE que poderão testemunhar o que denuncia no seu livro. Aliás, os nomes estão identificados e são arrolados na participaçâo criminal em posse da PGR.
Este ponto é essencial: a denúncia não é difusa. É dirigida. É material. E é precisamente essa materialidade que torna ainda mais perturbadores os elementos então revelados: indícios consistentes de associação criminosa no interior do aparelho de Estado; alegada instrumentalização do SINSE para fins políticos e pessoais; ausência absoluta de investigação por parte das autoridades competentes, mesmo perante denúncias públicas reiteradas; e, sobretudo, a emergência de um padrão que deixa de ser teórico — a possibilidade de manipulação de narrativas de terrorismo como instrumento de legitimação de acções internas.
O crime de associação criminosa, previsto no artigo 296.º do Código Penal angolano, não é uma abstracção. É a formalização jurídica de uma vontade concertada, deliberada e dolosa entre dois ou mais indivíduos. Mas quando essa concertação se instala no interior de um órgão cuja função é proteger o Estado, a questão deixa de ser apenas penal. Torna-se estrutural.
Como um Serviço como o SINSE pode estar envolvido em associação criminosa?
Fica evidente que não estamos perante uma falha do sistema. Estamos perante a hipótese — cada vez mais consistente — de o sistema ser utilizado contra a sua própria finalidade.
É neste ponto que a pergunta central deixa de ser apenas pertinente e passa a ser incontornável:
Se há denúncia, se há prova, se há testemunha — por que não há investigação?
E, se não há investigação, o que significa esse silêncio?
Mas a questão não se esgota aqui. Pelo contrário, adensa-se. Quando esse silêncio se prolonga e, de forma aparentemente súbita, surge um processo-crime alegadamente instaurado no ano passado — no qual aparece, precisamente, o nome do jornalista que apresentou a participação criminal junto da PGR, na qualidade de “declarante” — então já não estamos apenas perante uma omissão. Estamos perante uma sequência que exige interpretação. Não se trata apenas do que não foi feito. Trata-se do que, de repente, começa a ser feito — e de como, quando e com quem. É justamente aqui que a coincidência deixa de ser explicação suficiente. Passa a ser necessário compreender a lógica?
Neste ponto, o silêncio deixa de ser ausência. Torna-se uma posição. Torna-se linguagem. Torna-se decisão. Aponta a direcção do Estado angolano quando está em causa a investigação criminal de altos responsáveis.
A construção da narrativa: terrorismo como dispositivo e o precedente Joe Biden
É precisamente sobre este silêncio estruturado que surge o novo elemento: um texto publicado no Portal “Tribuna de Angola”, assinado por um enigmático Anselmo Agostinho, introduz na opinião pública uma narrativa altamente elaborada: a existência de dois cidadãos russos — Igor Ratchin e Lev Lakshtanov — alegadamente envolvidos em actividades terroristas em Angola.
À superfície, tudo parece sólido: nomes precisos, perfis detalhados, cronologias organizadas, referências geográficas e terminologia técnica sofisticada — “mimetismo de mobilização”, fases operacionais, redes internacionais com ligações à Líbia e ao Chade, alegadas tentativas de sabotagem ao Corredor do Lobito.
Mas é precisamente essa densidade técnica que impõe a pergunta fundamental: de onde vem esta informação?
Quando submetida à verificação, a narrativa revela um vazio inquietante: inexistência de correspondência em bases de dados internacionais, ausência de validação em relatórios oficiais, inexistência de confirmação em fontes abertas. O que subsiste não é informação verificável. É construção. É neste ponto que o precedente da visita de Joe Biden a Angola, entre 2 e 4 de Dezembro de 2024, deixa de ser um episódio isolado para se tornar peça-chave de interpretação.
Também aí a narrativa de ameaça surge — mas apenas depois do evento. Também aí o alegado plano revela inconsistências operacionais. Também aí se observa um desfasamento entre o risco alegado e a capacidade real. A questão deixa, então, de ser circunstancial. Passa a ser metodológica.
Como se explica que a ameaça não tenha sido detectada antes, mas apenas narrada depois?
Por que razão os russos surgem exactamente após as mortes e detenções ocorridas na sequência da greve dos taxistas? Quem tinha, em teoria, a obrigação de prevenir o vandalismo, os saques e a instabilidade nas diversas províncias? Por que não conseguiu antecipar as ameaças, quando isso faz parte do seu mandato e da sua missão institucional? Ou será que nada disso se trata de falha? E se tudo — o silêncio, a incapacidade de prevenção, a súbita construção de uma narrativa de ameaça externa, a inexistência de inquéritos— fizer parte de um “Plano Macabro”?
Não estamos diante de meras coincidências. Estamos perante padrões que se repetem, timings que se sobrepõem e sequências que exigem interpretação. A pergunta deixa de ser hipotética: tudo isto pode ter sido arquitectado para criar caos, justificar acções e manipular percepções.
A hipótese de falha perde consistência, como demonstram os factos já narrados. Torna-se, progressivamente, insuficiente para explicar a sequência de eventos, os seus tempos e as suas repetições.
Por outro lado, a hipótese de construção — isto é, de manipulação deliberada — ganha coerência. Não apenas como possibilidade teórica, mas como leitura compatível com os factos observados, com os padrões de silêncio institucional e com a articulação recorrente entre denúncia, omissão e activação.
Neste quadro, aquilo que antes poderia ser interpretado como desorganização ou incapacidade começa a revelar traços consistentes de estrutura, intenção e método — um padrão que ganha ainda maior densidade quando confrontado com a existência de um alegado “Plano Macabro”, denunciado por um quadro sénior do próprio SINSE, que assume publicamente as suas acusações e as sustenta com elementos já submetidos às instâncias competentes, as quais, até ao momento, permanecem num silêncio ensurdecedor que, longe de esclarecer, apenas aprofunda as suspeitas, reforça a necessidade de escrutínio e pode ser interpretado como indício de responsabilidade criminal por parte de altos responsáveis do Estado, sem qualquer responsabilização.
Já vimos isso acontecer antes: na visita de Joe Biden a Angola, na paralisação dos taxistas, em múltiplos episódios que, à primeira vista, poderiam parecer isolados, mas que, lidos em sequência, revelam lógica interna. E, perante estes precedentes, emerge uma hipótese ainda mais exigente: E se não se tratou de falha? E se foi ensaio? E se foi teste para normalizar intenções futuras?
É aqui que surge o livro de Miguel Ângelo, Estado de Violência — Violência de Estado: Uma Reflexão Sociológica sobre a Realidade Política, Económica e Social de Angola.
O livro oferece uma análise aprofundada das dinâmicas de poder, dos mecanismos institucionais e das consequências sociais das decisões tomadas no mais alto nível do Estado. Examina, com rigor sociológico, como violência e controlo político se entrelaçam, revelando padrões que vão muito além do imediato e do aparente, e como tais padrões impactam a vida quotidiana, a justiça e a perceção pública em Angola.
Um livro que, por sinal, o próprio chefe do SINSE, general Miala, teria manifestado interesse em patrocinar. Mas foi rejeitado.
Miguel Ângelo não se limita a escrever. Denuncia, de viva voz e sem anonimato, o teste que descreve como parte do “Plano Macabro” do general Miala. Denuncia-o tanto nas páginas do livro como em artigos, assumindo publicamente as suas acusações e apresentando provas já formalizadas junto da PGR.
Aqui, a narrativa deixa de ser especulação: transforma-se em documentação. E é neste ponto que se percebe a dimensão do que está em causa — uma combinação de poder, silêncio, manipulação e responsabilidade institucional que exige atenção detalhada e interpretação em camadas.
Um teste não apenas de segurança, mas de narrativa. De percepção. De reacção pública.
Porque, se a narrativa pode ser construída depois do facto — e aceite como verdade —, então o facto torna-se secundário. O essencial passa a ser quem controla a explicação. É essa lógica que, agora, se projecta sobre um novo cenário: a visita do Papa Leão XIV.
Fernando Garcia Miala, tal como foi evidenciado na Segunda Temporada, integra a Comissão Multissectorial de preparação da visita do Papa Leão XIV ao nosso país.
Este dado, à luz dos factos anteriormente expostos, não é neutro. Pelo contrário, adquire um peso acrescido quando confrontado com as denúncias já tornadas públicas.
Miguel Ângelo sustenta que, no contexto desta visita, poderá ocorrer uma repetição de cenários anteriormente observados, designadamente a construção de alegados “atentados terroristas”, acompanhados por novos ensaios de assassinatos e detenções, com o objectivo de criar um ambiente de instabilidade que permita, posteriormente, a emergência de uma figura apresentada como “garante da ordem”. Uma figura que surge, não por acaso, como o “único general com currículo presidencial”, expressão que tem circulado em diversos textos nas redes sociais e que, até ao momento, não foi desmentida pelo próprio visado — silêncio que, neste contexto, também ganha significado.
Nessa leitura, o general Miala surgiria como o “salvador da pátria”, reforçando uma imagem de indispensabilidade institucional e posicionando-se, assim, como o actor com maiores condições para suceder ao Presidente João Lourenço em 2027.
O nexo oculto: engenharia de percepção, controlo narrativo e associação criminosa
Quando analisados isoladamente, os elementos parecem dispersos. Quando organizados em sequência, revelam coerência.
Na participação criminal apresentada à PGR constam informações segundo as quais o general Fernando Garcia Miala teria manifestado intenção de promover acções desta natureza antes mesmo dos acontecimentos de Julho de 2025. Dados recolhidos em 2023 e formalizados em Setembro de 2024 antecipam, de forma consistente, os eventos de 28, 29 e 30 de Julho de 2025. Não se trata de coincidência. Trata-se de continuidade temporal estruturada.
Miguel Ângelo, quadro sénior do SINSE, denunciou o “Plano Macabro do general Miala“. A isto soma-se um episódio particularmente revelador: o caso do livro Estado de Violência. O acesso antecipado ao conteúdo, a tentativa de patrocínio por parte do próprio general Miala e, perante a recusa de Miguel Ângelo, a subsequente classificação da obra como “perigosa”.
Esta sequência não é aleatória. Revela uma lógica clara: tentativa de controlo narrativo; falha dessa tentativa; reacção hostil. E a reacção pode assumir forma concreta — um processo-crime contra Miguel Ângelo e Carlos Alberto.
Aliás, já houve sinais disso. A Rádio Essencial foi obrigada a apagar, em apenas 24 horas, no dia 18 de Março de 2025, uma entrevista em que Miguel Ângelo, de viva voz, em Luanda — não fora do país, com morada conhecida pelo próprio SINSE — fazia graves acusações contra o chefe do SINSE. A Rádio Essencial fugiu. Apagou tudo. De repente, tudo que Miguel Ângelo disse desapareceu. Evaporou. A direcção da Rádio Essencial fugiu à batata quente.
O jornalista Carlos Alberto, ao sair da cadeia, lê o livro em 2025, retoma o assunto e assume, neste ano, 2026, a iniciativa de organizar um debate sobre a elegibilidade, ou não, de Fernando Garcia Miala ao cargo de Presidente da República, revelando ainda, por meio do sociólogo Miguel Ângelo, que o próprio chefe do SINSE poderá ter sido nomeado e promovido a general, pelo Presidente da República, João Lourenço, em 2018, à margem da lei.
Diante deste silêncio institucional e da fuga mediática, o Portal “A DENÚNCIA” decidiu aprofundar as investigações.
Já foram enviadas cartas formais solicitando esclarecimento público: ao Presidente da República, João Lourenço, por intermédio do seu porta-voz Luís Fernando; ao Presidente do MPLA, João Lourenço, partido que sustenta o Governo de Angola; à Vice-Presidente do MPLA, Mara Quiosa; ao porta-voz do Bureau Político do MPLA, Esteves Hilário; e ao porta-voz da PGR, Álvaro João.
O conteúdo dessas correspondências será divulgado nas próximas Temporadas, permitindo ao leitor compreender, em camadas, a extensão do Caso Miala e a lógica de omissão ou manipulação que se desenrola nos bastidores do poder. Um esforço de sistematização e documentação que a Rádio Essencial não teve coragem de assumir, mas que se torna essencial para revelar a complexidade, os padrões e a lógica interna do que está em curso.
E, como se encaixasse num padrão inquietante, é precisamente o mesmo jornalista Carlos Alberto que surge agora chamado pelo SIC-GERAL, na qualidade de “declarante”, num processo-crime que, oficialmente, ninguém conhece.
Um detalhe que não pode ser ignorado: o actual director-geral do Serviço de Investigação Criminal (SIC) é quadro do SINSE.
Coincidência? Qual é a sua relação com o chefe do SINSE?
O SIC estará a ser usado para travar as investigações do jornalista Carlos Alberto? Ou estaremos, na verdade, perante uma revelação de uma lógica de encadeamento interno, onde coincidências aparentes não são acaso, mas sinais de um método deliberado?
Cada elemento — silêncio institucional, fuga mediática, processos-crime inesperados, nomes que surgem no momento certo — começa a encaixar-se num padrão que exige leitura atenta e interpretação em camadas. A sequência deixa de ser aleatória; transforma-se em estratégia.
É precisamente por isso que as Temporadas do Caso Miala prometem: pelos factos “coincidentes”, aparentemente isolados, mas que, quando analisados em conjunto, revelam uma lógica interna inquietante.
E nem sequer entrámos, ainda, com a profundidade que o caso exige, na situação de vandalização estranha da residência do próprio jornalista Carlos Alberto, onde nada foi levado, mas que, mesmo assim, deixam sinais de intimidação clara e calculada.
Mas voltemos ao “terrorismo russo“. Neste enquadramento, a narrativa do terrorismo russo deixa de ser um fenómeno isolado. Integra uma arquitectura mais ampla.
O papel de Anselmo Agostinho surge, assim, como funcional: difusão de informação tecnicamente estruturada, mas não verificável, orientada para deslocar o foco da responsabilidade interna para uma ameaça externa.
Não estamos perante jornalismo. Estamos perante operação. E é neste ponto que o conceito de associação criminosa ganha uma dimensão que ultrapassa a tipificação legal: transforma-se em mecanismo operativo — actores posicionados no interior do Estado, actuando de forma concertada, com dolo, com capacidade de produzir efeitos políticos através da manipulação da percepção pública.
Criar o contexto. Introduzir a ameaça. Permitir a exposição. Controlar a narrativa. Capitalizar o resultado. A sequência deixa de ser hipotética. Torna-se legível.
O risco iminente: repetição do padrão, silêncio institucional e a questão final
Perante este quadro, o silêncio institucional deixa de ser apenas preocupante. Torna-se parte integrante do mecanismo. Aquilo que não é investigado consolida-se. Aquilo que não é contraditado legitima-se. Aquilo que não é esclarecido transforma-se em verdade oficial.
A visita do Papa Leão XIV, prevista para Abril de 2026, surge, neste contexto, como ponto crítico de convergência: elevada visibilidade internacional, forte carga simbólica e concentração massiva de pessoas. Um cenário onde qualquer incidente se amplifica — e onde qualquer narrativa se impõe.
Se o padrão observado na visita de Joe Biden for replicado, o risco deixa de ser teórico. Torna-se operacional. E, nesse cenário, as perguntas deixam de ser retóricas: O que acontece se surgirem manifestações ditas espontâneas? Se dessas manifestações resultar violência? Se houver vítimas mortais? E se, posteriormente, a explicação já estiver preparada? Voltariam a culpar os mortos? Voltariam a fabricar culpados? Voltariam a instrumentalizar estrangeiros?
É neste ponto que o crime de associação criminosa deixa de ser apenas uma figura jurídica. Torna-se uma questão de sobrevivência institucional. Porque um Estado que não investiga, que não esclarece e que permite — ou instrumentaliza — a violência deixa de ser garante da segurança. Torna-se agente da instabilidade.
Segundo os elementos constantes da denúncia já apresentada à PGR — e que, por respeito ao segredo de justiça, não são aqui detalhados —, o alegado plano assenta numa premissa simples: criar o caos para, depois, fazer emergir um salvador.
E aqui a narrativa atinge o seu ponto mais sensível: Quem constrói o caos? Quem constrói a narrativa? E quem beneficia da solução? Quem nunca desmentiu a sua própria projecção? Quem surge, repetidamente, como inevitável próximo Presidente da República? Quem fugiu ao pedido de esclarecimento formal do Portal “A DENÚNCIA”? E, sobretudo: quem “arranja” os elementos que sustentam a narrativa — incluindo estrangeiros que, subitamente, passam a ocupar o centro da acusação?
Os acontecimentos de Julho de 2025 demonstraram que o risco não era abstracto. Houve sangue. Houve morte. Houve irreversibilidade. Chegou-se a matar uma mãe diante do seu próprio filho. Assassinada pelas costas. Indefesa.
O Estado, que devia proteger, matou vários cidadãos a céu aberto — fala-se em mais de 30. Sem contar os detidos. E, paralelamente, houve silêncio. Sem inquérito. Sem responsabilização.
Se nada for feito, a repetição deixa de ser mera possibilidade. Torna-se método.
Cada gesto, cada omissão e cada acto violento começa a revelar um padrão que exige leitura atenta: não se trata de falhas isoladas, mas de decisões e estratégias que se estruturam ao longo do tempo.
No fim desta Terceira Temporada, a pergunta não se resolve. Intensifica-se.
Num país onde a verdade é substituída por versões e o silêncio substitui a justiça, o maior perigo não vem de fora. Constrói-se dentro. E aquilo que se constrói dentro — quem o controla? Quem controla a segurança interna de Angola face a ameaças externas?
A questão deixa de ser meramente retórica. Torna-se estratégica, institucional e existencial: enquanto o poder e os mecanismos de controlo se sobrepõem à lei, cada cidadão, cada jornalista e cada denúncia vivem à mercê de um sistema que opera por padrão, método e cálculo.
A história continua na Quarta Temporada.
Por agora, resta um facto incontornável: a comparência de Carlos Alberto no SIC-GERAL na qualidade de “declarante”, num processo que surge — com precisão quase simbólica — em plena Quaresma.
