Por que razão João Lourenço dá sinais de se encontrar num beco sem saída, sem capacidade de reacção? E quais são os riscos actuais?
A evolução política do país demonstra, a cada dia que passa, sinais cada vez mais evidentes de um défice de visão estratégica por parte do Presidente João Lourenço e da sua governação. Torna-se, por isso, cada vez mais difícil compreender qual é a verdadeira estratégia política para o futuro do Estado e do próprio MPLA, sobretudo num contexto marcado por sinais crescentes de inércia governativa. A excessiva centralização da comunicação institucional em torno da figura presidencial e do processo sucessório tem criado um vazio político susceptível de ser explorado por diferentes actores e interesses potencialmente contrários à estabilidade. É precisamente nesse espaço que Fernando Garcia Miala parece procurar afirmar-se, de forma subliminar, como “o sucessor natural” de João Lourenço.
É praticamente um dado adquirido, na perspectiva desta análise, que o Serviço de Informações e Segurança do Estado (SINSE) funciona como um apêndice do MPLA. Basta observar que o actual chefe da instituição, general Fernando Garcia Miala, mesmo depois de o Portal “A DENÚNCIA” o ter exposto à luz das acusações formuladas por Miguel Ângelo, que o aponta como executor de um alegado “Plano Macabro” de desestabilização do país, continua, sem qualquer sinal de contenção, a recorrer à promoção de textos destinados à construção da sua imagem como “o melhor sucessor” do Presidente João Lourenço.
Se Miala pretendesse demonstrar verdadeira integridade de carácter e uma invulgar nobreza de espírito, seria o primeiro a solicitar ao Chefe de Estado a instauração de um inquérito rigoroso, independente e credível para apurar as alegações que sobre si impendem. Em vez disso, opta por expedientes rocambolescos, procurando desviar a atenção do essencial. Felizmente, a força da razão continua a sobrepor-se à razão da força, que parece constituir um dos traços mais marcantes da sua forma de actuação. A sua incontida ambição parece sobrepor-se a qualquer valor de integridade ética e moral. Neste contexto, o livro de Miguel Ângelo, Angola na Era da Pós-verdade, permanece uma referência incontornável para compreender a descrição da postura e da conduta atribuídas a Fernando Garcia Miala.
Miala e os seus aficcionados — que, muito provavelmente, correspondem aos beneficiários da alegada rede de clientelismo e corrupção que lhe é atribuída — revelam uma incapacidade gritante de interpretação, comprometendo, desse modo, o próprio objectivo da campanha de promoção da sua imagem. O livro de Miguel Ângelo, tal como já referi na minha última intervenção na rede TikTok, no rescaldo da mais recente edição de A Navalha de Sábado, não constitui uma sentença política sobre as suas pretensões ou ambições pessoais. Pelo contrário, a insistência quase obsessiva em promover Fernando Garcia Miala transmite uma mensagem subliminar politicamente perturbadora: a de que a liderança do Presidente João Lourenço se encontra vulnerável ou sob ameaça. Qualquer leitor intelectualmente prudente perceberá que a caracterização feita por Miguel Ângelo transcende a crítica política circunstancial e atinge a própria dimensão moral, histórica e até familiar da figura retratada. É precisamente esse aspecto, e não a disputa pelo poder, que deveria suscitar maior preocupação.
A persistência numa campanha destinada à promoção da figura de Fernando Garcia Miala pode igualmente ser interpretada como um sinal político dirigido ao próprio Presidente João Lourenço. A mensagem implícita parece ser a de que a sua permanência na Presidência da República deixou de constituir uma certeza absoluta. Miguel Ângelo chamou a atenção para este fenómeno durante o debate promovido pelo Portal “A DENÚNCIA”, no passado mês de Fevereiro, ao sustentar que a postura actualmente assumida por Fernando Garcia Miala representa, em muitos aspectos, uma reedição do ambiente político vivido em 2006, quando foi acusado da prática de “actos preparatórios” de golpe de Estado contra o então Presidente José Eduardo dos Santos.
Foi nesse contexto que Fernando Garcia Miala foi afastado da Direcção-Geral do então Serviço de Inteligência Externa (SIE), posteriormente sindicado, julgado e condenado pelo crime de insubordinação. Vinte anos depois, os paralelismos históricos tornam-se inevitáveis e alimentam a percepção de que determinados padrões de actuação tendem a repetir-se.
É aqui que se compreende o quanto faz falta o conhecimento científico. Ao analisarmos a abordagem de Martha Nussbaum sobre as emoções, particularmente a vergonha enquanto mecanismo regulador da conduta individual e da vida em sociedade, compreendemos melhor determinados comportamentos no exercício do poder. A ausência desse sentimento ajuda, em certa medida, a explicar uma forma de actuação pouco decente e pouco digna de quem exerce funções num órgão de inteligência, como sucede, nesta perspectiva, com o general Fernando Garcia Miala. Neste enquadramento, torna-se igualmente pertinente convocar o postulado de Hervey Cleckley sobre a “máscara da sanidade“, segundo o qual determinados indivíduos podem projectar uma aparência de absoluta normalidade e racionalidade, ocultando, porém, traços profundos de perturbação da personalidade e de incapacidade para sentir culpa, vergonha ou empatia.
O desgaste político do MPLA resulta, em larga medida, da incapacidade dos seus dirigentes para reconhecerem os limites éticos da sua actuação. Durante o consulado do Presidente João Lourenço, esta cultura de actuação sem escrúpulos e sem pudor agravou-se consideravelmente. Na mesma proporção, aumentou também a vulnerabilidade política do partido, dos seus dirigentes e do próprio Chefe de Estado.
Segundo as denúncias de Miguel Ângelo, quadro sénior do SINSE, Fernando Garcia Miala reduziu o exercício da nobre actividade de inteligência a um mecanismo de produção de intrigas políticas, chantagens e esquemas de corrupção explícita, envolvendo diversos actores sociais transformados em pivôs de uma narrativa institucional cuidadosamente construída. Contudo, toda essa engenharia política não se traduziu em melhores resultados governativos nem em benefícios concretos para a vida dos cidadãos.
Foi precisamente este tipo de actuação que conduziu o Presidente João Lourenço a um beco sem saída, onde hoje se encontra politicamente encurralado. Basta observar o que sucede no interior do MPLA. A tentativa de condicionar a candidatura do general Higino Carneiro, procurando inviabilizar a realização do IX Congresso Ordinário com múltiplos candidatos, demonstra um enorme dispêndio de energias em torno de uma estratégia cujas fragilidades os seus próprios promotores parecem incapazes de reconhecer.
O primeiro elemento a considerar é que se procura, hoje, fugir da narrativa da bicefalia, recorrendo a uma lógica discursiva sem nexo e profundamente contraditória. Na realidade, tudo indica que o próprio Presidente João Lourenço, enquanto candidato à sua sucessão na liderança do partido, receia perder o controlo do MPLA, mesmo sabendo que permanecerá na Presidência da República. A sua preocupação não é infundada: reconhece que, sem o controlo do partido, a autoridade política de que dispõe enquanto Chefe de Estado tenderá, inevitavelmente, a enfraquecer.
Contudo, mesmo que Higino Carneiro, ou qualquer outro candidato, venha a assumir a liderança do MPLA no âmbito do IX Congresso Ordinário, dificilmente o partido sobreviverá politicamente sem o apoio da máquina do Estado. Partindo desta premissa, que deveria ser evidente para os supostos estrategos do partido, incluindo Fernando Garcia Miala — que é quem mais recorre a expedientes ocultos para se fazer passar pelo expoente máximo dessa estratégia —, impõe-se uma pergunta elementar: para que serve esta luta interna? Quem beneficia verdadeiramente deste conflito de egos, interesses particulares e disputas entre grupos, alimentado pela interferência do SINSE na vida partidária?
O que se pode notar é que, com estas disputas, o partido tende a afundar-se cada vez mais. Não é visível qualquer aumento da produtividade governativa. A confiança dos cidadãos nas instituições do Estado tende a erodir-se de forma cada vez mais acentuada. Ainda assim, não se vislumbra qualquer acção concreta destinada à resolução dos problemas sociais e económicos, com vista a inverter o actual quadro de descrédito que afecta a imagem do Governo e dos seus dirigentes.
Ora, se, de facto, a prolongada permanência do Presidente João Lourenço no Brasil teve como principal objectivo cuidar da sua saúde, não interessa escamotear a realidade dos factos. Pelo contrário, torna-se legítimo questionar até que ponto, enquanto Chefe de Estado, dispõe — e continuará a dispor, no médio e longo prazos — das condições físicas e psicológicas necessárias para suportar a pressão inerente à manutenção simultânea da liderança do Estado e do MPLA.
Qualquer observador minimamente atento à evolução da vida política nacional facilmente concluirá que João Lourenço enfrenta mais do que uma crise de legitimidade política. Encontra-se perante um dilema que poderá revelar-se decisivo: manter Fernando Garcia Miala na chefia do SINSE ou promover o seu afastamento, corrigindo, em seguida, as distorções políticas para as quais terá sido eventualmente induzido.
Segundo Miguel Ângelo, que desde Outubro de 2023 tem denunciado práticas decorrentes de uma alegada agenda pessoal de Fernando Garcia Miala destinada à desestabilização do país, os sinais dessa alegada agenda tornaram-se particularmente visíveis no final de Julho de 2025, quando, entre os dias 28 e 30, Luanda, Icolo e Bengo, Benguela, Huambo, Malanje e Uíge foram assoladas por manifestações violentas. Tais acontecimentos dificilmente poderão ser explicados apenas pelo julgamento de dois cidadãos russos e dois cidadãos angolanos, três dos quais — os dois cidadãos russos e um cidadão angolano —, acusados da prática do alegado crime de terrorismo, acabaram condenados pelo Tribunal de Comarca de Luanda. No entanto, persistem dúvidas quanto à existência de prova substancial e de suporte técnico especializado nas áreas da inteligência, da contra-inteligência militar e da segurança do Estado capazes de fundamentar a acusação.
Se o Presidente João Lourenço persistir numa posição de intransigência relativamente às decisões que lhe poderiam proporcionar uma saída política digna da actual conjuntura, o país poderá aproximar-se de um dos seguintes cenários extremamente complexos e preocupantes: o risco de uma escalada de violência ainda antes da realização das próximas eleições, traduzida em diversas acções criminosas, inclusive contra pessoas e bens, afectando a livre circulação em diferentes regiões do território nacional; ou, num plano distinto, o risco de o próprio Presidente vir futuramente a responder política e, eventualmente, juridicamente por alegadas violações da ordem constitucional.
O processo de destituição desencadeado pela UNITA na Assembleia Nacional (AN), com fundamento no artigo 129.º da Constituição, constitui um sinal político de que o Presidente João Lourenço poderá vir a confrontar-se, num futuro próximo, com mecanismos de responsabilização cujos efeitos permanecem difíceis de prever.
Esta realidade tem inevitáveis repercussões sobre o estado de saúde do Presidente da República. A questão central, no actual contexto, é saber se será politicamente sustentável manter uma posição de inflexibilidade perante um cenário de crescente instabilidade. Quem poderá aconselhar o Presidente João Lourenço a adoptar uma decisão que lhe permita, antes de mais, preservar a sua saúde e, posteriormente, retirar-se da vida política activa com a dignidade inerente ao exercício das funções de Chefe de Estado?
A preocupação manifestada com o estado de saúde do Presidente João Lourenço decorre da sensibilidade humana e do elevado sentido de Estado que sempre nortearam as nossas análises. A preservação da vida e da integridade física de qualquer cidadão, sobretudo de quem exerce as mais altas funções da República, constitui um valor que não pode estar subordinado a interesses políticos nem instrumentalizado para conveniências circunstanciais. Não se trata, por isso, de alimentar teorias da conspiração, mas de afirmar um princípio elementar de humanismo e responsabilidade institucional.
É precisamente neste ponto que a análise político-sociológica deste facto assume particular relevância. O problema não reside na condição pessoal do Presidente da República, mas na forma como a questão da sucessão tem sido politicamente gerida. Num contexto marcado por sinais crescentes de inércia governativa e de défice de visão estratégica, a excessiva centralização da comunicação institucional em torno da figura presidencial e do processo sucessório tem criado um vazio político susceptível de ser explorado por diferentes actores e interesses potencialmente contrários à estabilidade. É nesse espaço que Fernando Garcia Miala parece procurar afirmar-se, de forma subliminar, como “o sucessor natural” de João Lourenço.
Enquanto a comunicação oficial continua, com frequência, a projectar a imagem do Presidente como detentor exclusivo do bastão do processo sucessório, persistem problemas estruturais cuja resposta permanece aquém das expectativas da sociedade. Este desfasamento entre a narrativa política e a realidade quotidiana da Nação contribui para acentuar a percepção de distanciamento entre o poder e os cidadãos e cria condições para o surgimento de agendas paralelas de promoção pessoal, precisamente quando o país mais necessita de clareza estratégica, estabilidade institucional e forte liderança política.
Tudo indica que, no seio do próprio MPLA, dificilmente o Presidente João Lourenço encontrará os mecanismos necessários para uma saída política auspiciosa, caso não demonstre capacidade para tomar decisões corajosas, restaurar a unidade interna e reconstruir a coesão política com base numa visão estratégica de longo prazo. Os interesses em confronto são evidentes e profundamente divergentes.
Neste contexto, a permanência de Fernando Garcia Miala surge, do ponto de vista desta análise, como um factor de agravamento da crise política interna do partido e do próprio Estado. Dificilmente João Lourenço conseguirá ultrapassar este imbróglio sem promover um apuramento rigoroso das alegações que Miguel Ângelo atribui a Miala desde 2023. Caberá ao Presidente João Lourenço assegurar que qualquer investigação decorra com transparência, escrutínio público e respeito pelas instituições.
A actual crise tecnológica que acabou por afectar o sistema de telecomunicações em todo o país remete-nos para uma avaliação crítica do grau de sensibilidade política e humana de quem nos governa. É, no mínimo, desconcertante ouvir um responsável do Governo afirmar que até o Pentágono ou a NASA já foram alvos de ataques informáticos, ou que até as Torres Gémeas, em Nova Iorque, nos Estados Unidos da América, foram destruídas num ataque terrorista, em 11 de Setembro de 2001, para justificar o ataque cibernético à infra-estrutura da UNITEL, como se essa comparação diminuísse o impacto ou a gravidade da situação, ou constituísse uma explicação técnica minimamente plausível para esclarecer os cidadãos sobre o que efectivamente aconteceu e quais as medidas adoptadas para evitar a repetição de incidentes semelhantes.
Neste caso, nem sequer se torna necessário entrar no mérito das diferenças entre as responsabilidades políticas, o papel da imprensa livre ou alternativa, ou o funcionamento de um Estado Democrático de Direito. Acompanho de perto o sistema internacional e nunca defendi a existência de Estados ou governos perfeitos, infalíveis ou detentores de qualquer superioridade moral que lhes permita dar lições aos demais. O que sempre sustentei é que cada Estado e cada Governo têm o dever de procurar fazer o melhor que estiver ao seu alcance em benefício dos seus cidadãos.
Também defendo que um maior nível de desenvolvimento económico, social, político ou tecnológico não corresponde, necessariamente, a uma superioridade ética, moral ou política. Todavia, no caso concreto de Angola, a tendência para recorrer sistematicamente a comparações infundadas tem funcionado como um obstáculo ao próprio desenvolvimento sustentado do país. Em vez de se reconhecerem e corrigirem as falhas e insuficiências, procura-se frequentemente justificá-las por meio de paralelismos descontextualizados e desprovidos de rigor. Do mesmo modo, parece existir uma tentação quase patológica para argumentar de forma pouco consistente e revelar incapacidade para fazer mais e melhor, quando é precisamente a capacidade de autocrítica e de correcção das falhas que distingue as sociedades e os Estados que efectivamente evoluem.
Não se trata de copiar modelos ou de seguir cegamente os exemplos dos países A ou B. Trata-se, isso sim, de respeitar princípios elementares de cidadania, legalidade, justiça, responsabilidade política e sã convivência institucional. Isso não depende de modelos importados; depende de consciência, cultura institucional, sentido de Estado e lucidez no exercício das funções públicas. Infelizmente, são qualidades que, em muitos casos, parecem escassear entre uma parte significativa da actual classe dirigente angolana.
Quem afirmou que o facto de o Pentágono, a NASA ou qualquer outra instituição estratégica, em qualquer parte do mundo, ter sido alvo de um ataque informático constitui argumento suficiente para relativizar ou justificar um ataque à rede de telecomunicações da UNITEL? Pelo contrário, exemplos dessa natureza deveriam servir para reforçar os mecanismos de prevenção, protecção e resposta, e não para normalizar falhas ou insuficiências.
Mais do que isso: por que razão Angola não poderá fazer melhor? Por que motivo países com recursos incomparavelmente inferiores, como Cabo Verde, conseguem, em diversos domínios, apresentar níveis de desempenho institucional, organização e eficiência superiores? O recente desempenho da selecção cabo-verdiana de futebol no Mundial de 2026 constitui apenas uma ilustração de uma realidade mais ampla. Poder-se-ia, igualmente, falar da estabilidade das suas instituições, da qualidade da governação e da maturidade do seu sistema político.
Recorrer a comparações descontextualizadas para justificar crises ou situações que afectam directamente a vida de milhões de cidadãos revela, no mínimo, um desrespeito pelos cidadãos governados, além de uma preocupante falta de sensibilidade política e institucional. Mais do que uma questão de comunicação, essa atitude acaba por revelar a forma como determinados responsáveis encaram o exercício do poder, a responsabilidade perante os cidadãos e a exigência ética inerente ao desempenho de funções governativas.
Deixo, por isso, aqui um alerta: quanto mais tempo o Presidente João Lourenço levar para tomar decisões politicamente corajosas, mais o calendário político jogará a seu desfavor.
