Quatro cortes e uma lâmina de uma NAVALHA que está sempre afiada para cortar. Nesta edição, A NAVALHA DE SÁBADO corta a maka da greve dos professores, incluindo a realidade de docentes que trabalham há mais de 30 anos sem verem resolvidos problemas que se arrastam há décadas, uma estrada nacional onde crianças tapam buracos para pedir dinheiro, a polémica em torno da fotografia de Navita Ngolo e Ernesto Bartolomeu e o alegado ataque contra Norberto Garcia. Quatro cortes numa análise jornalística e de Inteligência, feita para quem gosta de ler, pensar e acompanhar análises sérias, sem atalhos nem conclusões pré-fabricadas. Leia. Siga o raciocínio e tire as suas próprias conclusões depois do ponto final desta edição.
Há momentos em que um país parece discutir vários problemas ao mesmo tempo, sem que exista qualquer relação aparente entre eles. Uma greve de professores, a emigração de jovens, uma estrada degradada, crianças a tapar buracos para pedir dinheiro aos automobilistas, acusações públicas envolvendo responsáveis de órgãos estratégicos do Estado, imagens que provocam interrogações políticas e, agora, o alegado ataque de que foi vítima uma figura com responsabilidades políticas e profissionais. Olhados isoladamente, estes acontecimentos parecem pertencer a universos diferentes. Observados com maior atenção, porém, revelam uma questão transversal: a capacidade do Estado para antecipar problemas, prevenir riscos, proteger os cidadãos, investigar os factos e responder às crises antes que estas se transformem em fenómenos estruturais.
Primeiro Corte
No domingo, 20 de Setembro, a Presidência da República anunciou a deslocação de João Manuel Gonçalves Lourenço a Nova Iorque, para participar na 81.ª Sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas, uma das principais plataformas multilaterais da diplomacia internacional. O Presidente da República deveria intervir na terça-feira, 22 de Setembro, no primeiro dia do debate geral, perante uma comunidade internacional onde Angola procura afirmar a sua posição em matérias relacionadas com a paz, a estabilidade, o multilateralismo, o desenvolvimento e a cooperação internacional. No dia seguinte ao anúncio da deslocação presidencial, segunda-feira, 21 de Setembro, o sistema público de ensino geral entrava novamente em convulsão com uma greve nacional dos professores convocada pelo SINPROF, cuja primeira fase se prolongaria até 15 de Outubro, num conflito relacionado com a execução do acordo alcançado em Janeiro de 2026, nomeadamente em matérias ligadas à progressão na carreira, ao enquadramento profissional e à valorização dos docentes. O Executivo sustenta que uma parte significativa dos compromissos assumidos foi cumprida e que não existiriam razões suficientes para a paralisação. Temos, portanto, duas imagens de Angola praticamente no mesmo enquadramento temporal: de um lado, o Presidente da República, João Lourenço, numa das maiores tribunas da diplomacia internacional, a falar de confiança, transformação, diálogo, paz, estabilidade, desenvolvimento sustentável e fortalecimento das instituições; do outro, professores a suspenderem as aulas para pressionar o próprio Estado a cumprir compromissos que consideram insuficientemente executados.
Alguém precisa de ser cientista para fazer uma pergunta tão simples quanto incómoda: o Presidente que discursou, em nome de Angola, na 81.ª Sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas é o mesmo Presidente de uma República onde os problemas relacionados com a classe dos professores se arrastam há décadas? É o mesmo Presidente que, perante a comunidade internacional, fala de confiança, transformação, desenvolvimento sustentável, fortalecimento das instituições, diálogo e estabilidade, enquanto, dentro das fronteiras que governa, professores com décadas de serviço continuam a reclamar por questões que deveriam ter sido resolvidas através de políticas públicas estruturais e não através de sucessivas greves, negociações e novos compromissos?
Estive recentemente a conversar com um professor do Instituto Politécnico Industrial de Luanda (IPIL), uma instituição de referência do ensino técnico-profissional angolano, e ouvi dele um desabafo que talvez diga mais sobre o estado de espírito de muitos docentes do que qualquer comunicado sindical ou governamental: confessou-me que trabalha há mais de 30 anos na Educação e que, ao longo desse período, nunca viu as sucessivas greves dos professores produzirem a evolução que esperava. Disse-me que só não abandonou o sector da Educação porque tem uma outra actividade numa instituição privada onde sente que o seu trabalho é mais valorizado. Continua a dar aulas, segundo me contou, sobretudo por gosto e porque, depois de tantos anos, já se habituou a olhar para os seus alunos como se fossem seus filhos. Mas havia algo mais forte do que as palavras: o desalento estava visível nos seus olhos. E talvez seja justamente aí que esteja uma parte do problema. O professor continua na sala de aula, continua a ensinar, continua a formar jovens, continua a cumprir uma missão que considera quase familiar, mas já não fala com a mesma esperança de quem acredita que o sistema está a caminhar para uma solução. O problema dos professores não nasceu ontem. A necessidade de valorização das carreiras profissionais também não. A saída de jovens para o exterior, a precariedade, o desemprego, a degradação das infra-estruturas e a insuficiência de oportunidades para uma parte significativa da juventude são fenómenos discutidos há anos. Quando problemas previsíveis continuam a produzir crises previsíveis, a questão deixa de ser exclusivamente a falta de recursos e passa também a ser uma questão de capacidade de antecipação do Estado. A pergunta deixa, então, de ser apenas quanto custa resolver o problema dos professores e passa a ser quanto custa ao país manter durante décadas uma classe profissional desmotivada, com profissionais experientes a procurar alternativas fora do sistema e jovens a crescerem num ambiente em que a profissão que deveria formar todas as outras profissões continua a reivindicar condições básicas de valorização. A emigração de jovens angolanos em busca de oportunidades no exterior deve ser analisada dentro deste mesmo quadro. Quando um país investe na formação de uma geração e perde depois parte desse capital humano para outras economias, perde mais do que pessoas. Perde conhecimento, capacidade técnica, experiência profissional, inovação, capacidade produtiva e potenciais futuras lideranças. Nenhuma economia baseada em recursos naturais consegue substituir indefinidamente o capital humano que abandona o país. E quando um professor com mais de três décadas de serviço chega ao ponto de confessar que continua a ensinar mais por paixão do que por sentir que o sistema o valoriza, talvez seja altura de perguntar se estamos perante uma simples greve de professores ou diante de um problema muito maior: a erosão silenciosa da confiança de quem tem a responsabilidade de formar as gerações que amanhã terão de conduzir o próprio Estado.
Não é a primeira vez que Angola assiste a conflitos laborais envolvendo sectores fundamentais da Administração Pública. Enfermeiros, médicos, funcionários judiciais, professores e outros grupos profissionais têm recorrido à greve para exigir melhores condições de trabalho, valorização das carreiras, cumprimento de compromissos e melhoria das condições de exercício profissional. O problema, por isso, ultrapassa a discussão imediata sobre quem tem razão em cada processo negocial. Existe um padrão que merece atenção: acordos, anúncios, compromissos, calendários, execução parcial ou atrasos, novas reivindicações e, finalmente, paralisações. Em alguns casos, também surgem dúvidas sobre a capacidade efectiva das organizações representativas dos trabalhadores para exercerem plenamente a sua função num ambiente político e institucional complexo, questão que deve ser analisada com base em factos concretos e não através de generalizações sobre o movimento sindical. O problema mais profundo encontra-se, entretanto, noutro lugar: um Estado que reage permanentemente às crises corre o risco de transformar a governação numa sucessão de emergências. É neste contexto que podemos falar de uma espécie de dislexia política, entendida não como incapacidade de identificar os problemas, mas como dificuldade em transformar problemas conhecidos em políticas estruturais, com diagnóstico, objectivos claros, metas mensuráveis, prazos de execução, mecanismos de acompanhamento e avaliação dos resultados. Saber que existe um problema e continuar a administrá-lo através de sucessivas crises não é o mesmo que resolvê-lo. Quando uma greve termina apenas para que outra reivindicação reapareça alguns meses ou anos depois, quando um compromisso precisa de uma nova negociação para ser executado e quando problemas que atravessam gerações continuam à espera de uma solução estrutural, o que está em causa já não é apenas a capacidade de negociar. É a capacidade de governar antecipadamente, planear para além da emergência e transformar problemas recorrentes em políticas públicas permanentes.
E há agora um elemento adicional que torna esta questão ainda mais sensível: o calendário escolar e o calendário político de 2027 não são realidades que possam ser ignoradas no planeamento da Educação. Se, como se perspectiva, este ano lectivo tiver uma duração encurtada e tiver de terminar antecipadamente, em Junho de 2027, por força das eleições gerais previstas para o próximo ano, a margem temporal para recuperar aulas perdidas, reorganizar calendários, executar compromissos laborais e garantir a regularidade do processo de ensino será ainda menor. Isso significa que cada dia de paralisação neste ano lectivo tem um peso que ultrapassa o calendário da própria greve. Não está em causa apenas o presente dos professores. Está em causa o tempo pedagógico dos alunos, o cumprimento dos programas, a preparação para os exames, o desempenho das escolas e a capacidade de o sistema educativo chegar ao período eleitoral sem acumular um défice adicional de aprendizagem. Se existe conhecimento prévio de que 2027 será um ano politicamente excepcional, então essa informação deveria fazer parte dos cenários de planeamento desde já. É exactamente para situações desta natureza que serve a Inteligência estratégica: antecipar constrangimentos antes que eles se transformem em crises.
É neste ponto que a questão dos professores deixa de ser apenas uma questão laboral para passar a ser uma questão de Estado, porque estamos a falar daqueles que têm nas mãos a formação das gerações que amanhã irão sustentar o próprio país. E surge uma pergunta que deveria incomodar os estrategos do Estado: onde estão os analistas, os estrategos e os especialistas de Inteligência capazes de estudar estes fenómenos com seriedade, identificar antecipadamente os riscos, apresentar cenários e ajudar o próprio Executivo a tomar decisões mais acertadas? Como é possível que um problema que se arrasta há décadas, que envolve milhares de profissionais e que afecta directamente a formação das futuras gerações continue a reaparecer sob a forma de novas greves, novas negociações e novos compromissos? Que análises de Inteligência são produzidas para explicar ao poder político por que razão estas crises se repetem e quais serão as suas consequências se nada estrutural for feito?
E existe ainda uma questão maior: como se permite que o Presidente da República chegue à 81.ª Sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas para falar em nome de Angola sobre confiança, transformação, desenvolvimento sustentável, diálogo, estabilidade e fortalecimento das instituições, enquanto, dentro do próprio país, problemas conhecidos há décadas continuam a produzir conflitos sociais previsíveis? Não se trata de dizer que o discurso internacional é ilegítimo ou que as duas realidades sejam necessariamente incompatíveis. Trata-se de exigir coerência estratégica entre aquilo que o Estado projecta externamente e aquilo que consegue concretizar internamente. Se os estrategos existem para antecipar riscos, então deveriam ser capazes de dizer ao Executivo, antes de cada nova paralisação, quais são as causas profundas, quais os custos de não resolver o problema e que soluções estruturais podem evitar que a mesma crise volte a acontecer. A Inteligência que apenas descreve a crise depois de ela acontecer chega tarde. A verdadeira Inteligência estratégica deve ajudar o decisor a evitar que a crise se repita.
É por isso que desenvolvimento e segurança não podem ser tratados como compartimentos estanques. No discurso perante a Assembleia Geral das Nações Unidas, João Lourenço voltou a colocar no centro da sua intervenção internacional questões relacionadas com confiança, transformação, diálogo, paz, estabilidade e desenvolvimento. Mas existe uma regra elementar da credibilidade institucional: a confiança que se procura projectar externamente começa por aquilo que o cidadão experimenta internamente. Se um professor não confia que um acordo será cumprido, existe um problema de confiança. Se um profissional de saúde entende que precisa de paralisar para pressionar o Estado a executar compromissos, existe um problema de confiança. Se um jovem formado conclui que as suas possibilidades de realização profissional são maiores fora do país, existe um problema de confiança nas perspectivas internas. E se cidadãos que apresentam denúncias de interesse público não sabem sequer se os factos denunciados foram analisados pelas instituições competentes, existe outra dimensão do mesmo problema.
É neste ponto que entra também o papel do SINSE. Um sistema de segurança moderno não pode limitar-se a reagir depois de uma crise instalada. Tem de antecipar riscos, identificar tendências, compreender factores de instabilidade e produzir informação útil para a tomada de decisões. Desemprego, emigração, precariedade, criminalidade juvenil, degradação das condições sociais e perda de confiança nas instituições não são fenómenos exclusivamente económicos ou sociais. Podem também adquirir dimensão de segurança nacional. É nesse quadro que ganham particular relevância as acusações públicas formuladas contra o chefe do SINSE, general Fernando Garcia Miala, incluindo alegações relacionadas com abuso de poder, associação criminosa e a existência de um denominado “Plano Macabro”. Importa repetir aquilo que o jornalismo responsável não pode deixar de repetir: acusações são acusações e não constituem, por si mesmas, prova de qualquer crime. Precisamente por isso, devem ser submetidas aos mecanismos competentes de verificação.
O Portal “A DENÚNCIA” apresentou uma participação criminal junto da Procuradoria-Geral da República, acompanhada, segundo o participante, de elementos destinados à apreciação das autoridades competentes. A questão que temos colocado no debate público não é a de condenar antecipadamente Fernando Garcia Miala. É exactamente a inversa. Se as acusações forem falsas, que sejam esclarecidas. Se existirem elementos susceptíveis de sustentar uma investigação, que sejam investigados. Entre a condenação antecipada e o silêncio institucional existe uma terceira via: a investigação. O mesmo princípio deve ser aplicado aos episódios relacionados com o próprio Portal “A DENÚNCIA”, incluindo o bloqueio de contas, as alegadas tentativas de acesso, a divulgação de fotografias de momentos privados e narrativas que o jornalista considera parte de uma tentativa de descredibilização. Não atribuímos automaticamente esses actos a determinada entidade ou pessoa sem prova. Mas, se existem indícios de violação da privacidade, tentativa de intrusão ou utilização ilícita de dados, a questão é legítima: quem investiga? Não pedimos protecção especial. Pedimos o mesmo princípio que defendemos para todos os cidadãos: factos, investigação, contraditório e esclarecimento.
É aqui que a questão da Inteligência estratégica volta a entrar nesta NAVALHA. Quando um Estado se confronta repetidamente com greves anunciadas em sectores fundamentais, com impactos previsíveis na vida pública, na economia, na saúde, na Justiça ou na Educação, a primeira pergunta não deveria surgir depois da paralisação. Deveria ter sido feita muito antes. Que informações foram produzidas? Que cenários foram antecipados? Que riscos foram identificados? Que soluções foram apresentadas ao decisor político? Se os problemas eram conhecidos, se as reivindicações eram públicas e se as consequências de uma paralisação eram previsíveis, então importa perceber por que razão o Estado chegou novamente ao momento da crise sem uma solução estrutural preparada.
Isso não significa, por si só, demonstrar que o SINSE actuou fora das suas atribuições e competências. Significa levantar uma questão muito mais séria sobre a eficácia do sistema de Inteligência nacional. Se uma das funções da Inteligência estratégica é contribuir para a antecipação de riscos que possam afectar a estabilidade e o funcionamento do Estado, então a repetição de crises sociais previsíveis merece ser analisada também sob esse prisma. Um serviço de Inteligência que não consegue antecipar riscos previsíveis deixa espaço para uma pergunta inevitável: onde termina a falta de informação e onde começa a falha de antecipação?
As greves dos professores, dos médicos, dos enfermeiros, dos funcionários judiciais e de outros sectores não podem ser automaticamente transformadas em problemas de segurança. São, antes de tudo, fenómenos laborais, sociais e políticos que exigem negociação e políticas públicas. Mas quando assumem uma dimensão capaz de afectar de forma significativa o funcionamento regular do Estado, passam também a constituir matéria que qualquer sistema sério de análise estratégica deveria acompanhar, não para impedir a contestação ou criminalizar a reivindicação, mas para antecipar conflitos, identificar as suas causas, avaliar os seus impactos e aconselhar o decisor sobre as soluções possíveis.
Se, depois de sucessivas greves, o Estado continua a ser surpreendido por novas paralisações com causas semelhantes, então há uma falha que precisa de ser explicada. E essa falha não pode ser automaticamente atribuída a um único órgão. Pode estar na definição das políticas públicas, na capacidade de negociação, na execução dos acordos, na coordenação institucional, na análise estratégica ou na própria utilização da informação produzida pelos serviços competentes. O certificado de incompetência, se houver um, não deve ser passado por decreto nem por opinião: deve resultar da análise dos factos. É exactamente por isso que a questão merece investigação e não slogans. A Inteligência que não antecipa o previsível chega sempre depois da crise. E, quando chega depois da crise, já não está a antecipar: está apenas a fazer o relatório daquilo que não conseguiu evitar.
Segundo Corte
Há fotografias que são apenas fotografias. Em política, porém, há imagens que, pelo contexto em que são divulgadas e pelas pessoas que nelas aparecem, acabam por adquirir um significado que ultrapassa o momento captado pela câmara. Foi o que aconteceu depois de circular nas redes sociais uma fotografia na qual a presidente do Grupo Parlamentar da UNITA, deputada Navita Ngolo, surge a abraçar o jornalista da TPA Ernesto Bartolomeu, durante a celebração do seu 60.º aniversário. A imagem poderia ser apenas o registo de um momento de confraternização numa celebração privada. Mas a política raramente permite que determinadas imagens sejam observadas apenas pela objectiva da fotografia. A jornalista Amélia Aguiar reagiu publicamente à imagem, colocando o foco, segundo a sua própria leitura, não numa eventual relação pessoal ou familiar entre as pessoas fotografadas, mas no simbolismo político da presença de uma dirigente da oposição ao lado de um jornalista de um órgão público de comunicação social, num contexto em que sectores da UNITA têm denunciado limitações à presença pública da sua liderança nos órgãos de comunicação social do Estado.
Uma fotografia, por si só, não prova censura, negociação política, entendimento institucional ou qualquer acordo. Também não permite concluir que a presença de determinada figura num aniversário represente uma mudança de posição política. Mas uma imagem pode gerar perguntas legítimas quando surge num contexto marcado por um debate público sobre acesso aos meios de comunicação social, tratamento editorial e espaço dado às diferentes forças políticas. E o trabalho jornalístico deve separar o que a fotografia mostra daquilo que se pretende interpretar a partir dela. A fotografia mostra duas pessoas num momento de confraternização. O significado político atribuído à imagem pertence ao campo da interpretação e deve ser confrontado com factos.
O contexto torna-se ainda mais interessante porque, na recente “Grande Entrevista, Sem Filtros” do Portal “A DENÚNCIA”, o secretário-geral da UNITA, Liberty Chiyaka, abordou questões relacionadas com o funcionamento das instituições e admitiu a possibilidade de o Grupo Parlamentar do partido recorrer aos mecanismos da Assembleia Nacional para solicitar uma audição sobre o chefe do SINSE, Fernando Garcia Miala. O próprio Chiyaka referiu a necessidade de ouvir primeiro Miguel Ângelo, para que as diferentes versões possam ser confrontadas. A partir daí, a fotografia de Navita Ngolo com Ernesto Bartolomeu passou a ser observada por alguns cidadãos dentro de um quadro político mais amplo. Mas uma coisa precisa de ficar clara: não existe, na fotografia, qualquer prova de que tenha sido discutida uma audição parlamentar, muito menos de que tenha havido qualquer negociação nesse sentido. A presença de pessoas num mesmo espaço não substitui a prova de uma conversa, de um compromisso ou de uma decisão.
Foi depois da reacção de Amélia Aguiar que começaram a chegar ao Portal “A DENÚNCIA” telefonemas e mensagens de cidadãos de várias províncias, incluindo do Uíge, trazendo para o debate outros episódios envolvendo a actividade política da UNITA e a actuação das autoridades. Alguns relatos referiam intervenções policiais durante actividades políticas do partido e alegadas agressões, matérias que devem ser tratadas com o mesmo rigor: identificar os factos, ouvir as partes, confirmar as ocorrências e procurar a versão das autoridades competentes. O Portal “A DENÚNCIA” chegou a abordar a questão com Liberty Chiyaka, que, segundo o relato então divulgado, acusou publicamente a actuação das autoridades no Uíge de ter colocado em risco a vida do presidente da UNITA, Adalberto Costa Júnior, e defendeu consequências legais para responsáveis provinciais. São alegações políticas sérias e, justamente por isso, exigem contraditório e verificação, não apenas reprodução.
A questão que fica, portanto, não é saber se Navita Ngolo podia ou não estar numa festa, abraçar um jornalista ou manter relações pessoais com quem entender. Pode, naturalmente. A questão jornalística é outra: num ambiente político em que existem acusações de falta de acesso ou tratamento desigual nos meios públicos, como deve ser interpretada uma imagem destas? E, sobretudo, o que fazem os actores políticos depois de a fotografia desaparecer das redes sociais e regressarem os problemas concretos que deram origem ao debate? É nesse ponto que a fotografia deixa de ser apenas uma fotografia e passa a funcionar como ponto de partida para perguntas que só podem ser respondidas por factos, actos institucionais e decisões públicas.
Se a UNITA anunciou, através do seu secretário-geral, que o seu Grupo Parlamentar poderá recorrer aos mecanismos institucionais para procurar esclarecimentos sobre Fernando Garcia Miala, a questão relevante será acompanhar se essa intenção se transforma em iniciativa parlamentar concreta. Não por causa da fotografia, mas por causa do compromisso público assumido. A fotografia não prova a existência de um acordo. O acto institucional, esse sim, pode ser verificado. É neste ponto que o jornalismo deve concentrar a sua atenção: menos naquilo que uma imagem permite imaginar e mais naquilo que os protagonistas efectivamente fazem depois de as câmaras serem desligadas.
Curiosamente, e nada surge do nada, também circularam informações sobre uma alegada presença de Fernando Garcia Miala no Uíge durante o período em que ocorreram determinados incidentes. Essa informação surgiu inicialmente através de publicações nas redes sociais e de relatos recebidos pelo Portal, não sendo suficiente, por si só, para estabelecer qualquer relação causal entre a eventual presença e os acontecimentos. Depois surgiu outra imagem: Fernando Garcia Miala terá estado no mesmo aniversário em que se encontrava Navita Ngolo. E começaram as perguntas. Terão conversado? Terão discutido a eventual audição parlamentar? Terá existido alguma negociação para que o chefe do SINSE não seja chamado ao Parlamento? Não existe prova pública que permita afirmar qualquer uma dessas hipóteses. Uma fotografia não é um acordo. Uma presença não é uma negociação. Uma coincidência não é uma prova. Mas, numa sociedade politicamente marcada por défices de informação institucional, as coincidências passam rapidamente a alimentar interpretações.
É por isso que a questão essencial não está na fotografia. Está na coerência entre discurso político e acção institucional. Se a UNITA anunciou, através do seu secretário-geral, que o Grupo Parlamentar poderá solicitar a audição de Fernando Garcia Miala, a questão objectiva é saber se esse mecanismo será efectivamente utilizado. A resposta não deve ser procurada em fotografias. Deve ser procurada nos actos oficiais da Assembleia Nacional. E aqui existe uma responsabilidade que ultrapassa a própria UNITA. Quando uma acusação pública envolve um responsável de uma estrutura estratégica do Estado, como o chefe do SINSE, o esclarecimento institucional não deveria depender apenas da pressão mediática. A sociedade civil tem um papel. As igrejas têm um papel. Os académicos têm um papel. Os jornalistas têm um papel. Os partidos políticos têm o dever de explicar aos cidadãos as posições que assumem perante matérias de interesse público.
Durante demasiado tempo, determinadas questões foram discutidas nos corredores, nas redes sociais e em círculos políticos sem que se chegasse a uma resposta institucional suficientemente clara. O silêncio não prova culpa. Mas o silêncio prolongado também não produz esclarecimento. É uma distinção fundamental. Da mesma forma que uma fotografia não prova um acordo, a ausência de resposta não prova uma conspiração. Mas ambas as situações podem alimentar interpretações quando as instituições não comunicam e quando os actores políticos deixam promessas públicas sem consequência verificável. É por isso que a questão levantada por esta NAVALHA não é saber quem estava ao lado de quem numa fotografia. É saber se o discurso político se transformará em acto institucional. Liberty Chiyaka falou publicamente sobre a possibilidade de o Grupo Parlamentar da UNITA recorrer aos mecanismos da Assembleia Nacional para solicitar esclarecimentos e uma audição relacionada com o chefe do SINSE, Fernando Garcia Miala, chegando a defender que Miguel Ângelo fosse ouvido antes, para que as versões pudessem ser confrontadas. A partir desse momento, a questão deixou de ser apenas uma declaração política e passou a constituir um compromisso público que pode ser acompanhado pelos cidadãos e pelo jornalismo.
É aqui que a fotografia de Navita Ngolo com Ernesto Bartolomeu ganha uma dimensão diferente. Não porque a imagem prove qualquer acordo, negociação ou entendimento, porque não prova. Ganha dimensão porque surgiu num ambiente político em que a própria oposição tem levantado questões sobre o seu acesso aos meios de comunicação social públicos e porque, paralelamente, existe uma promessa pública de recorrer aos mecanismos parlamentares para procurar esclarecimentos sobre uma matéria que a UNITA considera suficientemente relevante. A fotografia pode alimentar perguntas. Os actos institucionais é que podem fornecer respostas.
E há uma questão que deve ser feita directamente ao Grupo Parlamentar da UNITA, liderado por Navita Ngolo: vai ou não transformar em iniciativa parlamentar aquilo que o secretário-geral do partido anunciou publicamente? Se a intenção é solicitar uma audição, que mecanismo será utilizado? Quem será chamado a prestar esclarecimentos? Será ouvido Miguel Ângelo, como defendeu Liberty Chiyaka? Será posteriormente chamado Fernando Garcia Miala? Qual será o enquadramento institucional? E, sobretudo, quando os cidadãos poderão conhecer os passos concretos dados pelo Grupo Parlamentar? Estas perguntas não significam acusar ninguém. Significam simplesmente cobrar responsabilidade política a partir de uma declaração pública feita por um dirigente partidário. É esta a responsabilidade de um jornalismo sério.
Uma oposição que pretende chegar ao poder não é avaliada apenas pelos discursos que profere contra quem governa. É também observada pela forma como exerce os poderes que já possui, pela coerência entre aquilo que anuncia e aquilo que executa, pela capacidade de utilizar os mecanismos institucionais disponíveis e pela forma como responde às perguntas incómodas quando estas surgem. Antes de chegar ao poder, uma oposição já oferece ao eleitorado uma amostra daquilo que pretende fazer com as instituições quando tiver maior responsabilidade sobre elas. Não se trata de exigir infalibilidade à UNITA, nem de transformar qualquer divergência interna num julgamento político. Trata-se de uma regra simples de responsabilidade pública: promessas públicas geram expectativas públicas e, quando envolvem mecanismos institucionais, devem poder ser acompanhadas publicamente.
Por isso, a fotografia acabou por colocar uma pressão política sobre a UNITA, mas não necessariamente a pressão que alguns poderão imaginar. Não é a fotografia que exige uma explicação. É a promessa pública de um dirigente partidário que agora precisa de ser acompanhada pelos actos do seu próprio Grupo Parlamentar. Se a iniciativa avançar, haverá matéria concreta para analisar e acompanhar. Se não avançar, haverá igualmente uma decisão política que a UNITA terá de explicar aos cidadãos. A fotografia continuará a ser apenas uma fotografia. Os actos da oposição é que permitirão perceber se aquilo que foi anunciado corresponde a uma linha efectiva de intervenção institucional. É aqui que a NAVALHA deve e vai, certamente, cortar: não para transformar uma coincidência em prova, mas para obrigar a política a responder pelos seus próprios actos. Afinal, uma oposição que pretende governar começa a ser escrutinada muito antes de chegar ao poder.
Terceiro Corte
No sábado, 19 de Setembro, regressávamos a Luanda depois de uma deslocação ao Lobito, relacionada com um compromisso familiar. No caminho de regresso, voltámos a encontrar uma imagem que deveria obrigar qualquer Estado que aspire a afirmar-se como destino turístico, económico e seguro a olhar para si próprio com algum desconforto. Na EN-100, no troço entre a Canjala e o rio Uake, no sentido do Sumbe, encontrámos numerosos buracos na estrada. Até aqui, infelizmente, nada de extraordinário. Já vivemos com os buracos nas estradas há décadas. O extraordinário estava nas pessoas que tentavam tapá-los: crianças. Meninos que aparentavam ter entre cinco e doze anos encontravam-se junto à estrada, munidos de pás, enxadas e areia, a tentar preencher os buracos e, depois, a pedir dinheiro aos automobilistas. Alguns chegavam a permanecer no meio da estrada para obrigar os condutores a reduzir ou parar. A imagem é muito mais do que uma questão de conservação de estradas. É uma questão de segurança rodoviária, pobreza, protecção da criança, educação, responsabilidade social e capacidade institucional. Uma criança não deveria estar numa estrada nacional a tentar reparar buracos. Uma criança não deveria depender da generosidade dos automobilistas para sobreviver. E uma estrada nacional não deveria depender do trabalho improvisado de crianças para se manter transitável.
A pergunta torna-se ainda mais incómoda quando Angola procura afirmar-se como destino turístico. Podemos construir hotéis, inaugurar centros de convenções, promover campanhas internacionais e publicar fotografias do Presidente da República, João Lourenço, ao lado de personalidades internacionais, incluindo LeBron James e Will Smith. Mas o turista também vai sair do hotel. Vai circular pelas estradas. Vai atravessar comunidades. Vai encontrar pessoas. Vai observar a forma como o Estado trata as suas crianças. Entre a fotografia que promove Angola e a estrada que revela Angola, que realidade queremos que o visitante encontre? O turismo não é apenas hotelaria. É estrada, segurança, sinalização, limpeza, transporte, saúde, ambiente, organização e capacidade de resposta. É também a dignidade das comunidades que vivem nos territórios visitados.
O mesmo raciocínio vale para o desenvolvimento. Um país não se desenvolve apenas através de grandes obras. Desenvolve-se quando as pessoas conseguem estudar, trabalhar, circular, produzir e viver com segurança. É por isso que a emigração juvenil deve ser analisada para além da simples procura de melhores salários. Quando jovens qualificados abandonam o país porque não encontram oportunidades suficientes, Angola perde capital humano. Quando jovens sem perspectivas se aproximam da criminalidade, o país enfrenta outro tipo de perda. E quando crianças passam a ocupar estradas para obter dinheiro, existe uma falha que não pode ser explicada apenas pela responsabilidade individual das famílias. Existe uma dimensão estrutural.
Foi também neste contexto que, em Dezembro de 2018, João Lourenço recebeu representantes da sociedade civil, incluindo Rafael Marques de Morais, e que, em Novembro de 2019, lhe foi atribuída a Medalha de Mérito Civil, distinção que Rafael Marques associou ao papel da sociedade civil no combate à corrupção. O significado dessas aproximações não está apenas no gesto político. Está na relação entre poder e crítica. Um jornalista independente não recebe reconhecimento para deixar de fazer perguntas. Uma sociedade civil reconhecida pelo Estado não perde, por isso, o direito de questionar o próprio Estado. É neste ponto que regressamos às denúncias envolvendo Fernando Garcia Miala e às acusações formuladas por Miguel Ângelo. Também aqui é necessário separar duas coisas: uma acusação não é uma condenação, mas uma acusação grave não deixa de merecer análise apenas porque é incómoda.
O caso de Man Genas, Gerson Emanuel Quintas, oferece outro elemento para esta reflexão. O activista utilizou as redes sociais para formular acusações contra altas patentes das estruturas de defesa e segurança e acabou por responder judicialmente em Angola. Em Agosto de 2026, foi condenado pelo crime de ultraje ao Estado, com pena suspensa, enquanto foi absolvido de outras acusações que lhe eram imputadas, entre elas ofensas graves contra o Presidente da República, associação criminosa e instigação pública ao crime. O caso não deve ser apresentado como equivalente às denúncias de Miguel Ângelo ou à participação apresentada pelo Portal “A DENÚNCIA”, porque são situações diferentes, com factos, protagonistas e procedimentos próprios. O que interessa nesta comparação é outra coisa: como reage o Estado perante denúncias graves, independentemente de quem as formula?
Man Genas utilizou as redes sociais para fazer acusações. O Estado respondeu através dos mecanismos judiciais. Miguel Ângelo, sociólogo, investigador e quadro ligado ao sector da segurança, formulou publicamente acusações contra o chefe do SINSE, inclusive através de livros, entrevistas e intervenções públicas. O Portal “A DENÚNCIA” apresentou uma participação criminal junto da PGR. A questão, portanto, é simples: qual é o procedimento institucional aplicado a cada situação? Não se pede que o Estado acredite automaticamente no acusador. Pede-se que verifique. Se a denúncia é falsa, que seja demonstrado. Se é verdadeira, que sejam apurados os responsáveis. Se não existem elementos suficientes, que isso seja explicado nos termos legalmente admissíveis. É esta a diferença entre investigação e condenação.
Quarto Corte
Na sexta-feira, 25 de Setembro, circulou nas redes sociais um vídeo relacionado com um alegado ataque de que terá sido alvo o actual director-geral do Centro de Formação de Jornalistas (CEFOJOR), Ernesto Manuel Norberto Garcia, por supostos meliantes, durante a noite, quando praticava exercícios físicos. O Portal “A DENÚNCIA” manifesta a sua solidariedade para com Norberto Garcia e formula votos sinceros de rápida recuperação. Independentemente das circunstâncias e das motivações que venham a ser apuradas, ninguém deve ser vítima de violência. No vídeo que circulou nas redes sociais, a própria vítima afirma ter sido surpreendida e atacada por dois indivíduos que identifica como “inimigos do alheio”, munidos de facas e catanas, tendo igualmente apelado aos cidadãos para que redobrem os cuidados com a sua segurança. Naquele momento, porém, o Portal ainda não dispunha de informação oficial suficiente para aferir, com detalhe, tudo o que teria acontecido. Posteriormente, foram divulgadas informações, atribuídas à Polícia Nacional, segundo as quais a ocorrência terá acontecido na madrugada de 23 de Setembro, durante uma actividade desportiva, na Avenida Pedro de Castro Van-Dúnem Loy, em Luanda, e que estavam em curso diligências para identificar, localizar e deter os presumíveis autores. A Polícia terá ainda enquadrado o caso como crime de ofensas graves à integridade física.
Mas este caso leva-nos exactamente ao ponto central desta NAVALHA: o dever das instituições de investigar e esclarecer os factos. Se Norberto Garcia foi vítima de um crime, compete às autoridades investigar. Se existem suspeitos, compete às autoridades identificá-los e submetê-los aos procedimentos legais. Se surgirem outras versões sobre as circunstâncias da ocorrência, essas versões devem ser confrontadas com os factos e com as provas. É assim que funciona a investigação criminal. Não é acreditar na vítima. Não é acreditar no suspeito. Não é acreditar na rede social. É investigar. É neste ponto que o caso de Norberto Garcia cruza com a questão que o Portal “A DENÚNCIA” tem vindo a levantar relativamente às acusações formuladas contra o chefe do SINSE, general Fernando Garcia Miala. Existe uma participação criminal apresentada junto da PGR. Existem, segundo o participante, elementos entregues às autoridades para apreciação. Existem acusações públicas graves. E existe uma questão legítima sobre o procedimento institucional adoptado perante essas acusações.
A existência de uma participação não significa que exista crime. A existência de elementos probatórios apresentados pelo participante também não significa que esses elementos sejam suficientes para sustentar uma acusação. Mas significa que existe matéria que pode ser apreciada pelas autoridades competentes. E, se as alegações forem susceptíveis de configurar ameaças à segurança do Estado, a necessidade de esclarecimento institucional torna-se ainda mais relevante. Investigar não significa condenar. Investigar significa determinar se os factos alegados ocorreram, se constituem infracção, quem poderá estar envolvido e se existem elementos suficientes para uma eventual responsabilização. Esse é o papel das instituições competentes. Não é proteger previamente o acusado. Também não é validar antecipadamente o acusador. É apurar os factos.
Se a investigação criminal é um dever do Estado, existe uma questão legítima sobre os critérios institucionais utilizados para determinar a prioridade e o tratamento dos diferentes processos. Isso não significa afirmar que o caso de Norberto Garcia tenha recebido tratamento excepcional. Também não significa afirmar que a participação apresentada contra Fernando Garcia Miala tenha sido ignorada. Significa perguntar o que está a ser feito em cada caso. A transparência institucional não exige necessariamente que uma investigação em curso revele informações protegidas pelo segredo de justiça. Mas pode exigir, quando a lei o permita, que os cidadãos saibam se uma denúncia foi recebida, encaminhada ou objecto de apreciação. O silêncio não é prova de culpa, mas também não substitui uma resposta institucional quando a lei permite que essa resposta seja dada.
É neste ponto que o quarto corte cruza com os três anteriores. Professores declaram greve e paralisam as aulas em todo o país, remetendo-nos para as causas estruturais dos conflitos laborais e para as reais condições que empurram parte da juventude para a emigração. Crianças aparecem numa estrada nacional a tentar tapar buracos e a pedir dinheiro aos automobilistas, revelando uma realidade social que não pode ser ignorada por quem pensa a segurança apenas em termos policiais. E um cidadão é alegadamente atacado durante a noite, levando-nos novamente à necessidade de investigar a criminalidade e compreender os factores sociais que contribuem para a vulnerabilidade das populações. Tudo isto pertence à mesma equação de segurança nacional.
A própria Constituição da República de Angola estabelece, no artigo 11.º, que a paz e a segurança nacional constituem dever do Estado e direito e responsabilidade de todos, assentes no primado do direito e da lei. O artigo 202.º estabelece que compete ao Estado, com a participação dos cidadãos, garantir a segurança nacional e define como objectivos a salvaguarda da independência e soberania nacionais, da integridade territorial, do Estado Democrático de Direito, da liberdade e da defesa do território contra ameaças e riscos, bem como a cooperação para o desenvolvimento nacional. O artigo 206.º enquadra a defesa nacional também na protecção da liberdade e segurança da população contra agressões e outros tipos de ameaças internas e externas. O artigo 209.º estabelece que a garantia da ordem visa proteger as instituições, os cidadãos, os seus bens, direitos e liberdades fundamentais contra a criminalidade violenta ou organizada e outros tipos de ameaças e riscos. E o artigo 211.º determina que a preservação da segurança do Estado visa salvaguardar o Estado Democrático de Direito contra a criminalidade violenta ou organizada e outros tipos de ameaças e riscos, enquanto o artigo 212.º atribui aos órgãos de inteligência e segurança do Estado a produção de informações e análises e a adopção de medidas de inteligência e segurança necessárias à preservação do Estado Democrático de Direito e da paz pública.
A Lei n.º 15/24, de 10 de Setembro, Lei de Segurança Nacional, desenvolve esta concepção. O diploma estabelece um Sistema de Segurança Nacional integrado por sectores, instituições, órgãos e serviços que concorrem para a formulação e execução da política e da estratégia de segurança nacional. A própria lei define a segurança nacional de forma abrangente, associando-a à protecção do cidadão, da sociedade e do Estado contra ameaças e riscos internos e externos, ao exercício dos direitos e liberdades constitucionais, à qualidade e ao nível de vida dignos e ao desenvolvimento socioeconómico sustentável. O artigo 8.º estabelece que a Política de Segurança Nacional tem natureza multissectorial, permanente e preventiva, enquanto o artigo 12.º determina que a actividade de segurança nacional compreende, entre outras tarefas, prever, identificar, analisar e avaliar ameaças e riscos, bem como adoptar medidas para a sua identificação, prevenção, mitigação ou eliminação. O artigo 15.º atribui ao Presidente da República a direcção da política e estratégia de segurança nacional e o artigo 16.º define o Conselho de Segurança Nacional como órgão de consulta do Presidente da República para os assuntos relativos à condução dessa política e estratégia.
Tudo isto demonstra uma coisa fundamental: segurança nacional não é sinónimo de repressão. Segurança também é prevenção. É análise. É antecipação. É diagnóstico. É coordenação. É protecção. É desenvolvimento. É capacidade de identificar factores que podem gerar instabilidade antes de estes se transformarem em crises. E é neste ponto que o capital humano adquire dimensão estratégica. Um país que perde jovens qualificados perde capacidade de renovação das suas instituições. Perde potenciais professores, médicos, engenheiros, investigadores, técnicos, militares, polícias, gestores e futuros dirigentes. Um país que não cria oportunidades para os jovens pode assistir simultaneamente à emigração de uma parte e à vulnerabilidade social de outra. Não se trata de afirmar que a pobreza conduz inevitavelmente ao crime. Isso seria uma simplificação injusta. A criminalidade tem múltiplas causas. Mas factores como desemprego, precariedade, exclusão social, falta de oportunidades e ausência de perspectivas podem aumentar a vulnerabilidade de determinados segmentos da população.
É nesse sentido que a segurança nacional deve ser compreendida como uma política transversal. Uma escola que funciona é segurança. Um hospital que funciona é segurança. Uma estrada segura é segurança. Um emprego digno é segurança. Uma justiça credível é segurança. Uma instituição que responde às denúncias é segurança. Um jovem que encontra uma oportunidade no seu próprio país é também uma questão de segurança. A segurança de um país não se constrói apenas com armas, polícias, militares e serviços de inteligência. Constrói-se também com instituições credíveis, educação, saúde, emprego, justiça, estradas, oportunidades e confiança.
Norberto Garcia é também uma figura com percurso político, tendo exercido responsabilidades no MPLA, incluindo funções ligadas à informação e ao Secretariado do Bureau Político. Esse percurso torna o ataque de que terá sido vítima particularmente relevante para o debate público sobre segurança, mas não deve tornar a sua integridade física mais importante do que a de qualquer outro cidadão. É exactamente o contrário. O caso deve ser investigado porque qualquer cidadão tem direito à segurança. Norberto Garcia não deve ser protegido por ser político. Deve ser protegido porque é cidadão. Quando a criminalidade atinge bairros periféricos, é crime. Quando atinge um empresário, é crime. Quando atinge um jornalista, é crime. Quando atinge um professor, é crime. Quando atinge um dirigente político, continua a ser crime. O estatuto da vítima pode alterar a dimensão pública do caso, mas não deve alterar o dever institucional de investigar.
É também neste ponto que regressamos aos conceitos trabalhados por Miguel Ângelo, nomeadamente “Estado de Violência” e “Violência de Estado”, no âmbito da sua análise sociológica sobre a realidade política, económica e social angolana. Miguel Ângelo tem formulado acusações graves contra o chefe do SINSE, Fernando Garcia Miala, e desenvolvido uma reflexão crítica sobre o funcionamento do Estado, incluindo através do livro “Angola na Era da Pós-Verdade: o Estado de Desalento e o Desalento do Estado”. Essas posições são da responsabilidade do autor e não constituem prova automática dos factos alegados. Mas, quando um investigador, cidadão, jornalista ou qualquer outra pessoa formula acusações susceptíveis de configurar crimes ou ameaças relevantes, a resposta institucional adequada não deveria ser definida pela simpatia ou antipatia perante o denunciante. Deveria ser definida pela natureza dos factos e pelos elementos apresentados.
O Estado não precisa de acreditar em Miguel Ângelo. Precisa de verificar aquilo que Miguel Ângelo afirma. O Estado não precisa de acreditar em Man Genas. Precisa de aplicar a lei aos factos que lhe foram submetidos. O Estado não precisa de acreditar no Portal “A DENÚNCIA”. Precisa de analisar aquilo que lhe foi apresentado, dentro dos mecanismos legais existentes. E o Estado não precisa de acreditar automaticamente na primeira versão sobre o ataque contra Norberto Garcia. Precisa de investigar o que aconteceu. É esta universalidade que confere legitimidade ao Estado de Direito.
Quando uma pessoa é assaltada, a investigação procura identificar os autores. Quando uma pessoa é agredida, procura-se saber quem a agrediu. Quando existem acusações de associação criminosa, procura-se saber se existem elementos que sustentem essa acusação. Quando existe uma denúncia sobre uma eventual ameaça à segurança do Estado, procura-se saber se existe ou não fundamento. Em todos os casos, a lógica deve ser a mesma: factos, provas, investigação, contraditório e decisão. Não existe Estado de Direito quando as instituições escolhem previamente em quem acreditar. Mas também não existe Estado de Direito quando qualquer acusação é tratada como verdade apenas porque foi divulgada nas redes sociais. O desafio está justamente no equilíbrio: nem condenar o acusado antes da investigação, nem transformar o silêncio institucional numa resposta; nem confundir denúncia com prova, nem investigação com perseguição; nem confundir crítica com crime, nem posição política com imunidade.
O ataque contra Norberto Garcia deve, por isso, ser investigado e esclarecido. Se foi vítima de um crime, os responsáveis devem ser identificados através dos procedimentos legais. Se existem outras motivações para além da versão inicialmente apresentada, essas circunstâncias devem igualmente ser investigadas. Se não existem outras motivações, que os factos apurados demonstrem isso. A mesma regra deve valer para Fernando Garcia Miala. E para Miguel Ângelo. E para qualquer outro cidadão. Não é a identidade do acusado que determina a necessidade de investigação. São os factos.
É aqui que os quatro cortes se encontram. Primeiro, os professores e a dificuldade em transformar compromissos assumidos em soluções executadas. Depois, as imagens e os silêncios políticos, onde uma fotografia não prova um acordo, mas a ausência de esclarecimento pode alimentar interpretações. Em seguida, as crianças na estrada, a tapar buracos e a pedir dinheiro, revelando uma realidade social que não pode ser dissociada das políticas públicas. E, finalmente, o alegado ataque contra Norberto Garcia, devolvendo-nos à questão elementar da protecção dos cidadãos e da investigação criminal. Quatro cortes e uma mesma questão: o Estado está a antecipar os problemas ou continua a chegar depois deles?
A greve acontece depois de meses de conflito. A estrada degrada-se antes de as crianças aparecerem a tapar os buracos. O jovem emigra depois de não encontrar oportunidades. A criminalidade acontece depois de factores de risco se acumularem. E a investigação criminal começa depois de a violência já ter ocorrido. Um Estado moderno não pode limitar-se a contar as crises. Tem de compreender as suas causas. A delinquência juvenil não pode ser combatida apenas com polícia. A emigração qualificada não pode ser tratada apenas como estatística. A degradação das estradas não pode ser resolvida apenas quando começam as denúncias. A desconfiança nas instituições não desaparece com discursos. E acusações graves contra responsáveis de órgãos estratégicos do Estado não podem ser transformadas em assunto proibido apenas porque são politicamente sensíveis.
A segurança começa muito antes do crime. Começa na escola, na família, no emprego, na estrada, na justiça, na administração pública e na capacidade do Estado para ouvir. Começa na capacidade de investigar. Começa na capacidade de corrigir. E começa, sobretudo, na confiança de que as instituições funcionam segundo regras que são iguais para todos. É por isso que o ataque contra Norberto Garcia deve ser investigado e esclarecido, não por ele ser uma figura política, mas porque qualquer cidadão tem direito à protecção do Estado. É também por isso que as acusações contra Fernando Garcia Miala devem ser tratadas de acordo com os mecanismos legais aplicáveis, não porque ele seja chefe do SINSE, mas precisamente porque ninguém, por mais elevada que seja a sua posição institucional, deve estar fora dos mecanismos legais de investigação quando existem denúncias formalmente apresentadas. E Miguel Ângelo não deve ser ouvido apenas por ser crítico. Deve ser ouvido, se houver fundamento legal para tal, porque uma denúncia relevante deve poder ser confrontada com os elementos que a sustentam.
As instituições existem para investigar os factos, não para escolher previamente quem merece ser acreditado.
A questão que fica para este quarto corte desta NAVALHA é, por isso, maior do que o ataque de que terá sido vítima Norberto Garcia. É a questão do Estado de Violência e da Violência de Estado numa sociedade que enfrenta simultaneamente criminalidade, desemprego, emigração juvenil, perda de capital humano, degradação de infra-estruturas, conflitos laborais e dúvidas públicas sobre a resposta institucional a determinadas denúncias. Até que ponto a violência que se vê nas ruas é apenas um fenómeno criminal e até que ponto reflecte também problemas sociais e institucionais que exigem respostas mais profundas?
Perante a degradação das condições sociais, a saída de jovens, a perda de quadros, a criminalidade e a necessidade de reforçar a confiança nas instituições, fica outra questão: quem está a pensar Angola para lá da próxima crise?
Esta é a pergunta que fica no ar nesta edição de A NAVALHA DE SÁBADO. Não para Norberto Garcia nem para Fernando Garcia Miala. Muito menos para Miguel Ângelo. Também não é feita para o professor que faz greve legítima e que se sente obrigado a levantar a greve sem resolver os problemas concretos que se arrastam há décadas. Não é também uma pergunta para as crianças que nem ler devem saber, que se encontram a tapar buraco na EN-100, como se elas próprias fossem as responsáveis do Estado. É uma pergunta dirigida às instituições e ao Executivo que diz governar Angola. Quando um Estado apenas reage depois de o problema já ter explodido pode conseguir apagar alguns incêndios. Mas um Estado verdadeiramente seguro é aquele que consegue perceber onde o fogo pode começar antes de as chamas chegarem às pessoas.
E essa é uma das medidas fundamentais da segurança nacional: não apenas quantos criminosos são detidos depois do crime, mas quantos problemas o Estado conseguiu antecipar antes de se transformarem em crime, conflito, emigração, pobreza, violência ou perda de confiança. É aqui que a NAVALHA deixa de cortar apenas o acontecimento e passa a cortar o próprio Estado. E, mesmo com bloqueios no Facebook e com a circulação de fotografias de jornalistas em hospedarias, destinadas a alimentar narrativas sobre a sua vida privada, a lâmina continua afiada, porque podem bloquear páginas, tentar atingir a imagem de quem pergunta e fabricar narrativas, mas não conseguem bloquear o raciocínio, nem calar a análise, nem embotar uma lâmina que nasceu para cortar.
