Que mensagem pretende transmitir o Presidente João Lourenço ao mexer no Conselho de Administração do INACOM depois do alegado ataque cibernético à UNITEL, ainda sem explicação?
Depois do “terrorismo russo”, os estrategos do Presidente João Lourenço apresentam agora dez mil milhões de dólares e um alegado hacker brasileiro como a nova ameaça potencial contra o Governo e o Estado angolano. Contudo, este número expõe a fragilidade do Estado tanto quanto a condenação dos dois cidadãos russos pelo Tribunal da Comarca de Luanda, a oito e onze anos de prisão efectiva, respectivamente, expõe a debilidade de todo o sistema de organização política.
Dez mil milhões de dólares americanos, pela sua dimensão e pela forma como surgem associados a dois factos diferentes, começam a assumir uma importância que ultrapassa largamente a mera expressão contabilística. Segundo informações disponíveis, estamos perante o valor aproximado da dívida acumulada do Estado para com a Sonangol — uma dívida de tal magnitude que compromete a capacidade financeira da principal empresa petrolífera do país para cumprir, com normalidade, as suas obrigações junto dos fornecedores internacionais de produtos refinados de petróleo.
O país parece enfrentar, assim, no actual contexto, uma das maiores encruzilhadas da sua história política recente. De um lado, temos dificuldades financeiras com consequências directas sobre a capacidade de abastecimento de combustíveis; do outro, uma sucessão de narrativas oficiais sobre ameaças terroristas, conspirações externas e tentativas de ataque às estruturas fundamentais do Estado.
Dois alegados atentados terroristas, um dos quais teria como objectivo atingir o Palácio Presidencial da Cidade Alta e o antigo Presidente americano Joe Biden, aquando da sua visita a Angola, em finais de 2024. Sessenta explosivos obsoletos seriam os meios utilizados para concretizar um ataque terrorista de proporções inimagináveis. Este número teria sido inicialmente apresentado como sessenta toneladas de explosivos.
O erro na quantificação do volume dos explosivos não deveria ser tratado simplesmente como um descuido sem importância. Quando se pretende sustentar uma narrativa de ameaça terrorista de grandes proporções, a precisão dos dados constitui parte essencial da própria credibilidade da ameaça. Sessenta explosivos e sessenta toneladas de explosivos não são duas formas de dizer a mesma coisa. Uma expressão quantifica unidades; a outra determina peso. A diferença é substancial e altera radicalmente a percepção sobre a capacidade operacional dos alegados terroristas.
Ora, ainda assim, a questão fundamental permanece: qual era a capacidade real e efectiva de execução dos alegados terroristas? É aqui que o enredo começa a revelar uma característica recorrente. Quase sempre aparecem figuras com ligações à UNITA, à sua liderança, ou dirigentes políticos do MPLA actualmente desafectos do círculo político mais próximo do Presidente João Lourenço. A narrativa constrói, assim, uma cadeia de relações políticas que pretende transformar contactos, proximidades ou divergências em indícios de uma estrutura conspirativa.
É aqui que o número deixa de ser apenas um número. Em Angola, certos factos de impacto político considerável parecem adquirir uma particularidade sui generis: coincidem com uma impressionante semelhança de números, personagens e narrativas, ao mesmo tempo que carecem de explicações suficientemente consistentes sobre a relação entre si.
Sem afirmar, à partida, que os dois montantes correspondem à mesma realidade financeira — algo que exigiria documentação, prova e esclarecimentos oficiais —, a coincidência é suficientemente relevante para justificar uma pergunta politicamente incontornável: por que razão dez mil milhões de dólares aparecem como referência em duas das mais sensíveis equações financeiras do actual momento político e económico de Angola?
E se a narrativa sobre os explosivos merece ser questionada pela evidente discrepância entre unidades e toneladas, a narrativa sobre os dez mil milhões de dólares merece ser questionada pela dimensão e pela natureza da ameaça que pretende representar. Como é que sessenta explosivos podem ser confundidos com sessenta toneladas? E como é que uma suposta rede criminosa consegue ser apresentada como capaz de provocar um rombo de dez mil milhões de dólares no “sistema financeiro nacional”, quando o próprio Estado enfrenta, segundo informações disponíveis, uma exposição financeira de dimensão semelhante perante a sua principal empresa petrolífera?
Num contexto completamente diferente, cidadãos angolanos saíram à rua em protesto contra a paralisação da actividade dos taxistas, num cenário marcado pela contestação ao aumento do preço dos combustíveis, tendo-se registado actos de violência e vandalização em vários pontos do país.
A pergunta é inevitável: onde está o nexo entre estes acontecimentos? Como é que contactos políticos de dois cidadãos estrangeiros e a alegada actuação de um jovem jornalista podem ser transformados em fundamento suficiente para responsabilizá-los pelos actos de vandalismo praticados por populações em diferentes bairros e províncias do país?
A narrativa política começa, neste ponto, a revelar a sua fragilidade. Para a maioria dos observadores, parece estranho que as autoridades diplomáticas russas acreditadas em Angola não tenham reagido publicamente à detenção dos dois cidadãos russos — sobretudo atendendo à natureza e à gravidade dos crimes que lhes foram imputados. Contudo, do ponto de vista da Inteligência, a aparente inacção da diplomacia russa em Angola e do próprio Governo da Rússia pode admitir uma leitura diferente.
Desde logo, parece significar que estes cidadãos possam estar, efectivamente, inseridos numa operação conduzida ou instrumentalizada pelas próprias estruturas angolanas, como sustenta a leitura associada às denúncias de Miguel Ângelo sobre o chamado “Plano Macabro“. Por esta lógica, a ausência de reacção de Moscovo tende a ser compreendida como uma opção deliberada, e não necessariamente como simples indiferença.
É neste ponto que a questão assume uma dimensão de Inteligência: se estivermos perante uma operação especial do próprio Estado contra o Estado, a exposição pública da operação terá desmontado a sua lógica e revelado as fragilidades de quem a concebeu.
Nesse contexto, admite-se que Fernando Garcia Miala terá cometido um erro de cálculo ao subestimar a capacidade de análise e o conhecimento operacional de um quadro com a trajectória de Miguel Ângelo. E, independentemente da veracidade das acusações que lhe são dirigidas, o simples facto de o próprio responsável máximo do SINSE se deixar envolver numa controvérsia pública com uma fonte interna com quem trabalhou e que o conhece bem constitui, por si só, um erro estratégico.
Entre um facto e uma acusação existe uma coisa chamada prova. Entre vários acontecimentos existe uma coisa chamada nexo causal. É esse nexo que precisa de ser demonstrado.
De um lado, temos uma dívida do Estado para com a Sonangol que, segundo as informações disponíveis, reduz a margem de manobra financeira da empresa e condiciona a sua capacidade de honrar compromissos externos, nomeadamente os relacionados com a aquisição de produtos refinados. Do outro, temos uma alegada tentativa criminosa de provocar um rombo de dimensão semelhante no “sistema financeiro nacional”, através da intrusão nas infra-estruturas informáticas bancárias.
A coincidência dos números não prova que os acontecimentos estejam relacionados. Mas também não pode ser tratada como irrelevante quando o próprio Estado apresenta essas cifras no centro de duas narrativas que procuram explicar ameaças de enorme dimensão à estabilidade nacional. A questão, por isso, deixou de ser apenas saber quem são os alegados terroristas, quem é o alegado hacker ou quem estaria por detrás das supostas conspirações. A questão mais profunda é outra: que visão estratégica tem o Estado angolano para compreender as suas próprias vulnerabilidades antes de transformar cada crise numa ameaça externa? Porque um Estado que não consegue explicar convincentemente a origem das suas crises corre o risco de passar a explicá-las por meio dos seus adversários.
Basta observar o que aconteceu depois do ataque às infra-estruturas de telecomunicações da maior operadora nacional, a UNITEL. Como medida inicial, o Presidente da República, João Lourenço, exonerou apenas dois administradores executivos do Conselho de Administração do Instituto Angolano das Comunicações (INACOM), no dia 10 de Agosto, mantendo, contudo, o Presidente do Conselho de Administração, Joaquim Domingos Muhongo, bem como os outros dois administradores executivos.
A decisão do Chefe de Estado surge numa altura em que o Governo angolano continua sem se pronunciar claramente sobre a crise de comunicações que ainda afecta a maioria dos cidadãos. Assim, o titular do Poder Executivo parece querer comunicar que foram identificados os responsáveis pela interrupção brutal da rede de telecomunicações da UNITEL e que estes foram devidamente penalizados politicamente.
Contudo, a simples saída de dois administradores executivos e a entrada de outros dois pressupõe, na prática, a manutenção do status quo ante. Não há alteração substantiva no verdadeiro sentido da palavra. Muda-se parte da composição, preserva-se a estrutura e mantém-se o centro de decisão.
Nesse cenário, a narrativa sobre a ameaça pode acabar por revelar uma realidade muito mais preocupante do que a própria ameaça aparente: a inércia política e o défice de visão estratégica de quem governa.
Mas esta inércia pode ter uma explicação ainda mais perturbadora quando se considera o conjunto de acusações públicas que, ao longo do tempo, têm sido dirigidas ao general Fernando Garcia Miala, chefe do Serviço de Informações e Segurança do Estado (SINSE), incluindo aquelas que procuram associá-lo ao chamado “Plano Macabro“.
Se essas acusações são suficientemente graves para sustentar, no espaço público, a hipótese de que o próprio responsável máximo do principal serviço de Inteligência do Estado poderia estar relacionado com a criação ou instrumentalização de cenários de caos político e social, então a questão já não pode ser tratada como uma simples disputa de narrativas.
Exige uma resposta institucional. Porque uma coisa é o Estado combater ameaças externas e identificar redes que alegadamente pretendam desestabilizá-lo. Outra, completamente diferente, seria o próprio Estado ignorar acusações segundo as quais uma figura colocada no centro da sua arquitectura de segurança poderia estar relacionada com a concepção ou execução de operações destinadas a produzir precisamente os cenários de instabilidade que o Estado afirma combater.
A pergunta que o Governo, o SINSE e as demais estruturas competentes do Estado não podem continuar a evitar é inevitável: por que razão nunca houve uma resposta institucional clara às acusações públicas, graves e reiteradas que recaem directamente sobre o general Fernando Garcia Miala?
Se são falsas, por que não foram formalmente esclarecidas, contraditadas ou investigadas? Se possuem algum fundamento, por que razão não foram objecto de uma investigação independente e consequente? E se o Estado entende que tais acusações não merecem qualquer credibilidade, por que permite que permaneçam no espaço público sem uma resposta capaz de proteger a própria integridade institucional do SINSE?
É neste ponto que o “Plano Macabro” deixa de ser apenas uma expressão utilizada numa disputa política e passa a constituir uma questão de Inteligência: quem teria interesse em criar cenários de caos, quem teria capacidade operacional para os executar e, sobretudo, quem teria a responsabilidade de os antecipar e impedir?
Esta é a verdadeira questão. Porque, se o Estado apresenta sucessivamente cidadãos estrangeiros, jornalistas, opositores políticos ou supostas redes criminosas como responsáveis pelas ameaças que atingem Angola, mas permanece incapaz de esclarecer acusações que apontam para dentro da própria estrutura de segurança do Estado, então o problema já não está apenas na existência das ameaças.
Está na ausência de uma visão estratégica capaz de distinguir ameaça real, vulnerabilidade interna, conflito de interesses e construção política de uma narrativa de ameaça. E é justamente nesta fronteira que se mede a capacidade de um serviço de Inteligência.
Não pela quantidade de inimigos que consegue apresentar ao poder político, mas pela capacidade de descobrir quem realmente ameaça o Estado — inclusive quando a ameaça, hipoteticamente, possa estar dentro do próprio sistema.
É neste sentido que a utilização da expressão “sistema financeiro nacional” adquire uma dimensão que não deveria ser ignorada. Já não se trata apenas da alegação de uma fraude informática contra determinados bancos. A formulação utilizada projecta o acontecimento para o domínio da segurança económica e nacional, apresentando-o como uma ameaça potencial à própria estabilidade financeira do Estado.
É neste ponto que a actual crise de combustíveis precisa de ser analisada para além da explicação imediata sobre as dificuldades de importação.
Se a Sonangol, por falta de liquidez decorrente de elevados créditos sobre o Estado, encontra dificuldades para assegurar regularmente os compromissos financeiros necessários à importação de combustíveis, então o problema não começa na bomba de gasolina. Começa muito antes: na relação financeira entre o Estado e a sua principal empresa petrolífera, na acumulação de dívida, na gestão dos fluxos financeiros do sector petrolífero e na capacidade efectiva do Estado de transformar receitas, activos e direitos creditórios em liquidez disponível.
Por isso, a crise não é apenas dos combustíveis. A escassez de combustíveis pode ser apenas a manifestação mais visível de um problema financeiro, institucional e político muito mais profundo. O combustível que falta nas bombas pode ser, afinal, apenas o último elo de uma cadeia de fragilidades que começa nas contas do Estado, atravessa a Sonangol, atinge a capacidade de importação e acaba por repercutir-se directamente sobre a actividade económica e sobre a vida social do país.
Não é, aliás, a primeira vez que o preço dos combustíveis se transforma num factor de tensão política e social.
Foi a contestação ao aumento do preço do gasóleo que esteve na origem da paralisação da actividade dos taxistas informais, em 28 de Julho de 2025, acontecimento que viria a ser acompanhado por episódios de violência e vandalização de património. Posteriormente, esses acontecimentos foram também enquadrados numa narrativa que passou a associá-los a uma alegada dimensão de “terrorismo russo” em Angola.
É importante observar a sequência. Uma questão económica e social concreta — o preço dos combustíveis — produziu uma tensão social concreta. A tensão transformou-se em crise de ordem pública. E, posteriormente, a crise passou a ser interpretada dentro de uma moldura de ameaça externa e de intervenção de actores estrangeiros.
Esta transformação merece uma análise política e estratégica mais profunda. O problema não está em investigar a eventual existência de interferência estrangeira. Um Estado responsável deve fazê-lo. O problema surge quando a procura de uma explicação externa passa a substituir a análise das causas internas que tornaram possível a própria crise.
Começa, assim, a emergir uma tendência preocupante: a transformação de problemas económicos, sociais, financeiros e institucionais em narrativas sucessivas de ameaça.
Falou-se de uma alegada operação de terrorismo político associada à Rússia, de terrorismo financeiro, de ataques aos sistemas bancários e de uma suposta rede criminosa envolvendo cidadãos nacionais e estrangeiros, incluindo um cidadão brasileiro apresentado como particularmente capacitado para penetrar ou ludibriar os sistemas informáticos bancários.
Cada um destes acontecimentos pode possuir a sua própria configuração, natureza e explicação. O problema começa quando a sua sucessão é utilizada para construir uma narrativa política única, capaz de deslocar progressivamente o centro da discussão: das vulnerabilidades internas para a existência de supostos inimigos externos.
A questão deixa, então, de ser apenas política e passa a ser também uma questão de Inteligência. Um Estado não mede a sua segurança pela quantidade de ameaças que consegue apresentar. Mede-a, sobretudo, pela capacidade de compreender a natureza dessas ameaças, antecipá-las, identificar as suas vulnerabilidades internas e perceber de que forma actores externos podem explorá-las.
A verdadeira Inteligência não começa pela pergunta “quem é o inimigo?”. Começa por uma pergunta muito mais incómoda: “Onde estamos vulneráveis?“
Só depois deve procurar saber quem conhece essas vulnerabilidades, quem pode explorá-las e com que finalidade.
É nesta dimensão que o chamado “Plano Macabro“, atribuído ao chefe do Serviço de Informações e Segurança do Estado (SINSE), general Fernando Garcia Miala, merece uma análise particularmente séria.
A Inteligência de um Estado não existe apenas para produzir narrativas depois de os acontecimentos ocorrerem. A sua função essencial é antecipar. É identificar sinais, estabelecer correlações, avaliar capacidades e intenções, compreender o ambiente estratégico e informar o decisor político sobre os riscos que podem comprometer a segurança nacional.
Quando um país começa a ser confrontado, sucessivamente, com crises financeiras, energéticas, tecnológicas, sociais e políticas, a pergunta que se impõe não é apenas: :Quem está por detrás delas?” É também: “Por que razão o Estado não conseguiu antecipá-las?“
E esta pergunta adquire uma importância ainda maior quando surgem acusações públicas contra o general Fernando Garcia Miala, actual chefe do SINSE, porque tais acusações, independentemente da sua origem ou fundamento, deixam de ter apenas uma dimensão política. Passam a ter também uma dimensão operacional e estratégica.
Um chefe de um serviço de Inteligência não é apenas uma figura política. É o responsável máximo por uma estrutura cuja credibilidade interna e externa depende da confiança que consegue inspirar, da qualidade das informações que produz e da capacidade de antecipação que demonstra.
Por isso, quando a credibilidade do chefe de um serviço de Inteligência é publicamente questionada, a consequência não se limita à sua imagem pessoal. Atinge, inevitavelmente, a percepção sobre a própria instituição.
E este é um problema particularmente sensível porque os serviços de informações estrangeiros acompanham permanentemente a realidade angolana. Os adversários de Angola — sejam Estados, serviços de informações estrangeiros, organizações criminosas transnacionais ou outros actores com interesses económicos e estratégicos no país — não precisam necessariamente de criar as fragilidades do país.
Basta-lhes identificá-las. Um adversário inteligente não precisa de provocar uma vulnerabilidade que já existe. Precisa apenas de saber onde ela está, qual a sua dimensão, quem a controla, quem a conhece e em que momento pode ser explorada. É um princípio básico e fundamental.
Por essa razão, a avaliação das ameaças não pode ser confundida com a produção de narrativas sobre ameaças. Se a narrativa oficial apresenta uma sucessão de acontecimentos como manifestações de uma grande conspiração contra Angola, a verdadeira pergunta de Inteligência deveria ser outra: “Quais são as vulnerabilidades estruturais que tornam Angola susceptível a essas ameaças?“
E, depois: “Quem, dentro do Estado, tem ou teria a responsabilidade de identificá-las antes de elas se transformarem em crises?“
Torna-se particularmente difícil compreender determinadas campanhas que procuram apresentar o general Fernando Garcia Miala como uma figura com capacidade para assumir a liderança política do país, num contexto em que as próprias autoridades competentes têm dificuldade em responder às acusações públicas que sobre ele recaem. O padrão é o mesmo: cria-se a narrativa sobre a existência de uma ameaça sem que esta possa ser comprovada com consistência. Não se deve confundir competência, como um atributo real, reconhecido e mensurável a partir de factos concretos, com mera ambição pessoal.
Não é necessário recorrer a grandes exercícios intelectuais para perceber a contradição. Basta aplicar um princípio elementar de avaliação de desempenho: um candidato à liderança de um Estado deve ser avaliado, entre outras coisas, pela capacidade demonstrada na gestão das responsabilidades que já exerce.
Se o actual responsável máximo do SINSE é confrontado publicamente com alegações de envolvimento, omissão ou incapacidade perante sucessivas crises, então essas alegações devem ser escrutinadas, investigadas e respondidas. Não podem simplesmente ser substituídas por campanhas de promoção política da sua imagem.
A questão não é saber se Fernando Garcia Miala pode ou não ser apresentado como presidenciável. A questão anterior é muito mais simples: que avaliação estratégica permite concluir que alguém que enfrenta uma crise de credibilidade na condução do principal serviço de Inteligência do Estado estaria preparado para conduzir o próprio Estado?
E por que razão as próprias estruturas competentes do Estado não respondem a essas acusações, esclarecendo-as e responsabilizando o seu autor por falsas alegações?
A menos que exista uma explicação política que ultrapasse os critérios normais de avaliação de competência, desempenho e responsabilidade.
É por este prisma que a actuação do general Fernando Garcia Miala deve ser analisada com particular rigor, assim como o papel a que o próprio SINSE acabou submetido.
Um serviço de Inteligência não deve transformar-se numa agência de fabricação de bodes expiatórios para justificar todas as dificuldades do Estado. Pelo contrário, um serviço de Inteligência só pode ser avaliado pela qualidade da sua leitura estratégica da realidade.
Se o “sistema financeiro nacional” pode ser alegadamente colocado em risco através da exploração dos seus sistemas informáticos; se a principal empresa petrolífera do país se encontra financeiramente pressionada por créditos sobre o próprio Estado; se a capacidade de importação de combustíveis fica condicionada por problemas de liquidez; e se, simultaneamente, o Governo precisa de recorrer a narrativas de ameaça externa ou de conspiração para explicar uma sucessão de acontecimentos internos, então é legítimo questionar a qualidade da avaliação estratégica que tem sido produzida.
Não significa isto atribuir todas essas dificuldades exclusivamente ao SINSE. Significa perguntar se o SINSE está a cumprir a sua missão primordial: antecipar riscos, identificar vulnerabilidades e fornecer ao poder político uma leitura estratégica da realidade que lhe permita tomar decisões antes que as crises se instalem.
Apresentar publicamente uma quantia dessa magnitude como sendo potencialmente desviável do sistema bancário significa, independentemente da veracidade final da alegação, reconhecer a existência de uma percepção de vulnerabilidade extraordinária no sistema financeiro.
E, simultaneamente, segundo as informações disponíveis, temos uma Sonangol financeiramente pressionada por créditos sobre o Estado de dimensão semelhante. Não significa que os dois valores representem necessariamente a mesma realidade. Mas significa que a coincidência dos números merece ser analisada.
E merece ser também investigada, precisamente, porque dez mil milhões de dólares não são apenas uma cifra financeira. São uma dimensão de risco. Podem representar exposição financeira. Podem representar risco de liquidez. Podem representar capacidade de pressão sobre instituições estratégicas. Podem representar oportunidade para organizações criminosas. E podem, sobretudo, constituir uma informação extremamente valiosa para qualquer serviço de Inteligência estrangeiro interessado em compreender as vulnerabilidades do Estado angolano.
Outra dimensão que não pode ser ignorada é a dos conflitos de interesses. Quando interesses económicos, financeiros, empresariais e políticos se cruzam no interior do Estado, a ausência de uma visão estratégica torna-se particularmente perigosa.
Uma dívida do Estado à sua principal empresa petrolífera não é apenas uma questão contabilística quando essa dívida condiciona a capacidade de importação de combustíveis.
Uma vulnerabilidade informática do sistema bancário não é apenas uma questão tecnológica quando pode comprometer a confiança no sistema financeiro. Uma crise do preço dos combustíveis não é apenas uma questão económica quando pode desencadear convulsão social.
E uma narrativa sobre terrorismo externo não é apenas uma questão de segurança quando pode ser utilizada para explicar acontecimentos cuja origem também pode estar nas próprias estruturas internas do Estado e nas suas potenciais deficiências.
É a interdependência destes fenómenos que exige visão estratégica. O problema de Angola parece residir, cada vez mais, na ausência dessa visão holística e integrada.
Cada instituição olha para o seu próprio problema. O sector financeiro preocupa-se com a liquidez. A Sonangol enfrenta a questão da dívida. O Governo olha para a estabilidade política. Os bancos preocupam-se com a segurança informática. As estruturas de segurança concentram-se nas ameaças. E o SINSE, infelizmente, hoje parece reduzido a uma estrutura que se limita a olhar para os factores de intriga política.
Mas quem olha para o Estado como um sistema único? Essa é a pergunta que parece continuar sem resposta.
É neste contexto que também merece ser analisado o papel da Unidade de Informação Financeira (UIF).
Se o Estado é apresentado com uma arquitectura financeira exposta a riscos de branqueamento de capitais, financiamento à criminalidade, criminalidade económica e ataques ao sistema financeiro, significa que a UIF é uma instituição reduzida a uma presença meramente decorativa? Porque a sua existência só adquire sentido se for capaz de produzir informação financeira relevante, detectar padrões suspeitos, cruzar operações, identificar redes e fornecer informação útil às estruturas responsáveis pela investigação, prevenção e segurança do Estado.
Se uma suposta rede criminosa é apresentada como tendo capacidade para chegar ao ponto de projectar um ataque financeiro de dez mil milhões de dólares, então a pergunta não pode limitar-se a saber quem seriam os alegados criminosos.
É preciso perguntar: como seria possível chegar tão longe sem que as estruturas de monitorização financeira e de Inteligência detectassem antecipadamente a ameaça — se é que a ameaça existia nos termos em que foi apresentada?
Porque uma coisa é combater uma ameaça. Outra, muito diferente, é descobrir uma ameaça apenas depois de construir publicamente uma narrativa em torno dela. E uma terceira coisa, ainda mais grave, seria utilizar a ameaça como explicação para vulnerabilidades que o próprio Estado não conseguiu resolver.
É nesta diferença que reside uma das maiores responsabilidades de um serviço de Inteligência.
As referências a Miguel Ângelo assumem particular importância no quadro das nossas análises.
A questão não é transformar Miguel Ângelo numa autoridade absoluta ou numa fonte infalível. A questão é perceber o significado da visão estratégica do próprio Chefe de Estado: como é que um quadro sénior do SINSE dirige críticas internas à forma como a realidade do Estado e do próprio serviço é conduzida e não há reacção institucional da mais alta instância do Estado?
Se essas críticas forem ignoradas sem contraditório, sem resposta e sem uma avaliação institucional séria, o problema deixa de ser apenas o conteúdo das críticas. Passa a ser o silêncio do sistema perante elas.
Do ponto de vista da Inteligência, o silêncio institucional perante uma fonte interna que conhece os mecanismos, as limitações e as vulnerabilidades do sistema pode ser interpretado de várias maneiras. Contudo, não pode significar desprezo, muito menos ausência deliberada de resposta. Pode significar, isso sim, incapacidade de contrapor os seus argumentos e de enfrentar a informação que Miguel Ângelo coloca à disposição do espaço público.
Quer isto dizer que o próprio tempo para manter essa aparência de normalidade é limitado. A qualquer momento, tudo pode mudar, e quem antes se julgava protegido poderá vir a responder, não pelo silêncio institucional que se manteve como estrutura coriácea durante um longo período, mas pelos próprios actos de que terá sido protagonista directo.
No entanto, essa aparente incapacidade de resposta constitui, por si só, um sinal preocupante de fragilidade das estruturas de Inteligência e do próprio sistema político do Estado. O silêncio pode revelar, circunstancialmente, intocabilidade, mas não é sinónimo de protecção. Os serviços de Inteligência adversários de Angola observam quem fala, quem responde, quem é silenciado, quem é promovido e quem é protegido. E, sobretudo, observam as contradições entre aquilo que o Estado afirma sobre a sua própria capacidade e aquilo que os acontecimentos demonstram.
É por isso que a promoção política da imagem do actual chefe do SINSE, quando confrontada com uma realidade marcada por sucessivas crises e questionamentos, não pode ser tratada apenas como uma questão de comunicação política. Ela pode revelar um problema mais profundo: a substituição da avaliação estratégica pela construção da imagem de quem, alegadamente, fabrica as crises políticas e sociais para, posteriormente, surgir como o salvador.
Surge, assim, um paradoxo particularmente relevante. Enquanto o Presidente João Lourenço é progressivamente responsabilizado pelo fracasso de determinadas políticas de governação, o chefe do principal serviço de Inteligência do Estado é apresentado, em determinados círculos, como uma espécie de figura de salvação política do Estado e do MPLA.
José Eduardo dos Santos teria percebido a manobra em 2006. Por isso, não hesitou em afastá-lo do seu círculo mais restrito.
Portanto, hoje, a manobra é ainda melhor percebida e torna-se cada vez mais evidente. Se o SINSE constitui parte essencial da arquitectura de segurança do Estado e se o seu responsável máximo participa, directa ou indirectamente, na avaliação dos riscos políticos, económicos e sociais que afectam o país, então não é fácil compreender como se pode separar completamente o desempenho dessa estrutura dos resultados globais da governação.
Não se trata de afirmar que Fernando Garcia Miala tivesse de ser tido como responsável por todas as falhas do Governo. Trata-se de reconhecer que quem ocupa a liderança de um órgão do Estado com a relevância estratégica de um serviço de Inteligência não deve ser submetido apenas à mesma avaliação política que recai sobre o Chefe de Estado, mas também, e sobretudo, ser avaliado estrategicamente pela capacidade de conduzir o serviço sob sua responsabilidade, determinando, em grande medida, o sucesso ou o fracasso do Governo e do Presidente da República.
E essa avaliação não pode ser substituída por propaganda favorável a quem, até ao momento, não terá demonstrado capacidade suficiente para ajudar o Presidente João Lourenço a alterar o rumo da governação e a alcançar resultados políticos positivos.
Esta é talvez a dimensão mais preocupante da actual conjuntura. O Presidente João Lourenço parece ter-se deixado conduzir por uma agenda que lhe terá sido apresentada como estrategicamente infalível, eventualmente associada à ambição de preservar o poder através da criação ou instrumentalização de crises políticas que poderiam inviabilizar a realização de eleições em 2027, perante a impossibilidade constitucional de concorrer a um terceiro mandato. Trata-se, naturalmente, de uma percepção que deve ser demonstrada e não assumida como facto; mas é precisamente esta percepção que começa a marcar determinadas leituras estratégicas sobre a actual conjuntura política angolana.
É também sob esta perspectiva que se pode compreender a dificuldade de João Lourenço em desfazer-se de Fernando Garcia Miala. O problema poderá não estar apenas na confiança pessoal ou política entre ambos, mas na própria arquitectura de informação que sustenta as decisões do Presidente.
Porque os adversários de Angola não precisam necessariamente que Fernando Garcia Miala seja afastado do SINSE. Pelo contrário: se a permanência de Miala contribuir para manter o Presidente João Lourenço dependente de uma determinada leitura das ameaças, então a sua permanência pode representar, paradoxalmente, uma vantagem para quem pretende explorar as fragilidades do Estado. Ou seja, a manutenção de Fernando Garcia Miala à frente dos destinos do SINSE traduz-se, inevitavelmente, no fracasso ou na derrota do Presidente João Lourenço.
Basta que essa realidade seja compreendida e explorada. Se os diversos factores de instabilidade forem apresentados ao Presidente como ameaças externas permanentes, como conspirações sucessivas ou como operações destinadas a impedir a continuidade do poder, o decisor político pode acabar por concentrar a sua atenção na sobrevivência do sistema e não na resolução das causas que produzem a instabilidade.
É nesse quadro que os serviços de Inteligência adversários podem explorar a fraqueza política e institucional exposta publicamente. Não precisam necessariamente de penetrar todas as instituições. Basta-lhes identificar aquelas práticas, decisões e estruturas que apresentam maior vulnerabilidade.
E há um aspecto que quase ninguém parece compreender: nenhum serviço de Inteligência que opere em Angola precisa necessariamente de provocar as crises com que o país tem sido confrontado. As fragilidades acumuladas já existem. As tensões sociais já existem. As dificuldades financeiras já existem. Os conflitos de interesses já existem. As contradições dentro do próprio sistema político já existem.
A verdadeira vantagem estratégica de um adversário consiste, por isso, em compreender essas fragilidades antes que o próprio Estado consiga fazê-lo e solucioná-las. Depois, basta esperar pelo momento certo para explorar os efeitos que elas inevitavelmente produzem.
É esta a diferença entre criar uma crise e saber explorar uma crise. E talvez seja precisamente aqui que reside o maior fracasso da actual arquitectura de Inteligência: quando o Estado passa a concentrar-se excessivamente na identificação de inimigos externos, pode deixar de perceber que os seus adversários mais eficazes não precisam de criar a instabilidade — basta-lhes esperar que as próprias fragilidades do sistema a produzam.
A questão de Fernando Garcia Miala ultrapassa, por isso, a sua permanência ou afastamento do SINSE. A questão essencial é saber se a estrutura que dirige está a ajudar o Presidente João Lourenço a compreender a realidade estratégica de Angola ou se, pelo contrário, está a contribuir para que o poder político continue a interpretar como conspiração externa aquilo que, em muitos casos, pode ser consequência directa das suas próprias fragilidades.
Quando um serviço de Inteligência deixa de antecipar as crises para passar a explicá-las depois de elas acontecerem, o problema já não é apenas de Inteligência: é um problema de Estado. É o próprio Estado que passa a ser percepcionado como incapaz de compreender e enfrentar as vulnerabilidades que o afectam.
É por isso que uma crise financeira, uma crise de combustíveis, uma alegada ameaça ao sistema bancário e uma sucessão de narrativas sobre conspirações externas não devem ser analisadas fora do contexto da capacidade do Estado para antecipar, compreender e responder às suas próprias vulnerabilidades.
