A princípio, eu não pretendia reagir. Primeiro, pela falsidade do texto. Segundo, porque a fotografia gerada por Inteligência Artificial pôs o Carlos Alberto mais parecido com o ex-vice-procurador-geral da República, Mouta Liz, justamente o magistrado que, no exercício do seu então poder, usou todos os meios ao seu alcance para me mandar viver durante três anos no Estabelecimento Penitenciário de Viana (EPV). É que, quando os tais “estrategos” e grandes “especialistas em Inteligência” quiserem inventar coisas para manchar o meu nome, o mínimo que peço é que escolham, ao menos, uma fotografia real e, de preferência, que eu esteja bonito, para aparecer bem na fotografia. Afinal, se é para fabricar uma personagem, ao menos façam o trabalho com algum sentido estético. Terceiro, porque o texto apócrifo revela, na minha leitura, um tremendo desespero de quem parece sentir que, mais dia, menos dia, poderá ter de explicar à sociedade o que aconteceu, nos últimos tempos, com os recursos financeiros e humanos disponibilizados pelo Estado para o cumprimento cabal da missão institucional que lhe está confiada. A questão, para desmentir outros “inteligentes”, deixa de ser pessoal perante denúncias graves, apresentadas formalmente às autoridades competentes. O caminho normal seria responder aos factos, apresentar documentos, esclarecer dúvidas e permitir que as instituições investigassem. O que parece estar a acontecer, porém, é outra coisa: em vez de respostas, surgem textos apócrifos; em vez de esclarecimentos, fotografias falsas; em vez de argumentos, tentativas de atingir a credibilidade de quem questiona. Pelos elementos e ocorrências que tenho vindo a reunir, fica a perceção de que poderei ter sido alvo de uma sucessão de acções destinadas a intimidar-me: primeiro, a invasão da minha residência, justamente na madrugada do dia em que tinha uma Grande Entrevista, Sem Filtros, com o presidente do Partido Liberal, Luís de Castro; depois, a sabotagem da minha viatura, num episódio que poderia ter tido consequências muito graves na estrada; a seguir, surgiu um processo-crime que considero claramente forjado e destinado a intimidar-me. Disse, categoricamente, ao instrutor do Serviço de Investigação Criminal (SIC) que sabia o que, na minha perspectiva, estavam a tentar fazer e a mando de quem, e aproveitei para deixar um recado: eu ainda não tinha dito nada.

Aliás, a participação criminal apresentada na Procuradoria-Geral da República, no dia 20 de Fevereiro de 2026, contra o chefe do Serviço de Informações e Segurança do Estado (SINSE), general Fernando Garcia Miala, não nasceu de uma publicação ocasional nas redes sociais nem de uma disputa pessoal. Tem como base denúncias apresentadas por Miguel Ângelo, que desempenhou funções de relevo no Serviço e fora dele, académico, doutorado e quadro sénior daquela instituição, constantes de dois livros e de outros textos, bem como material de gravação áudio que o Portal “A DENÚNCIA” recolheu e fez chegar à PGR para sustentar os factos e crimes imputados na participação, incluindo a alegada prática de associação criminosa. Mais do que isso: por não concordar com a forma como a instituição estava a ser dirigida, Miguel Ângelo terá solicitado ao próprio chefe do SINSE a sua exoneração, precisamente para não continuar a fazer parte daquele “filme”. Trata-se, evidentemente, de matéria que compete às autoridades investigar, confirmar ou afastar, porque acusação não é prova, mas também não deixa de ser acusação apenas porque alguém prefere fingir que não a ouviu.

É justamente aqui que a sucessão dos acontecimentos se torna particularmente interessante: depois do lançamento do banner a anunciar o BREVEMENTE de uma Grande Entrevista, Sem Filtros, com o secretário-geral da UNITA, Liberty Chiyaka, surgiu o bloqueio da minha página do Facebook. Ainda assim, realizei a entrevista. Não se contendo com o jogo sujo, os ditos “estrategos” e “grandes especialistas em Inteligência” terão, pelo que tudo indica, promovido a elaboração de uma “notícia” segundo a qual o general Higino Carneiro aparece a entregar-me dinheiro, numa fotografia gerada por IA, acompanhada de dizeres segundo os quais eu teria recebido uma viatura e uma residência na “Vila Pacífica”. Como não sabem escrever, aproveito para corrigir: Vida Pacífica. Talvez lhes fizesse bem gastar algum tempo a estudar, em vez de produzir textos apócrifos sem qualquer rigor. Até para fabricar uma mentira é necessário algum profissionalismo. É que quem olha para aquele texto não consegue perceber se a intenção era desvalorizar ou valorizar o jornalista Carlos Alberto. É claramente uma faca de dois gumes. Nem isso parecem conseguir perceber, porque a sua “Inteligência” não chega até lá. Ao menos, podiam ter disponibilizado dados que se aproximassem minimamente da verdade para que alguém pudesse acreditar que o Carlos Alberto é, de facto, um jornalista corrupto e que, fruto dessa suposta “corrupção”, acusa pessoas sem provas. Mas há aqui uma questão que os autores daquela narrativa parecem não ter conseguido alcançar: se a denúncia apresentada contra o chefe do SINSE foi formalmente remetida a várias instituições do Estado, por que razão essas instituições permaneceriam em silêncio durante mais de seis meses? Será que, seguindo a lógica daquela “notícia”, o Presidente da República, João Manuel Gonçalves Lourenço, o Presidente da Assembleia Nacional, Adão Francisco Correia de Almeida, a Presidente do Tribunal Constitucional, Laurinda Jacinto Prazeres, e a então Provedora de Justiça, Antónia Florbela de Jesus Rocha Araújo, também teriam recebido viaturas e casas para permanecerem em silêncio? Eis a extraordinária lógica dos “estrategos de Inteligência”: quando não conseguem responder à denúncia, inventam uma oferta; quando não conseguem provar a corrupção, fabricam uma fotografia; quando não conseguem explicar o silêncio institucional, insinuam que todos foram comprados. Na ânsia e no desespero perante a promessa da UNITA de promover uma audição parlamentar do chefe do SINSE, nem sequer conseguiram reproduzir correctamente a matrícula do meu carro, que, segundo a narrativa, seria oferecido por Higino Carneiro, nem conseguiram mostrar um apartamento existente na vida real na “Vida Pacífica”. É uma operação tão mal executada que acaba por parecer uma caricatura da própria “Inteligência” que pretendem exibir.

É que essas pessoas, como só parecem ter “especialidade de Inteligência” em “jogos sujos”, nem sequer conseguem perceber quando estão diante de uma irregularidade ou de um crime. Um alegado facto de um jornalista receber um carro ou uma casa de um empresário qualquer não constitui, por si só, crime nenhum. Seria necessário conhecer a origem dos bens, a finalidade da oferta, a relação com o exercício da actividade jornalística e todas as demais circunstâncias juridicamente relevantes para se poder falar de eventual ilicitude. Mas, pelos vistos, exigir algum conhecimento jurídico a quem pretende fazer uma acusação pública, ainda por cima suja, já será pedir demais. Aliás, manifesto, desde já, o desejo de receber tais meios e outros que possam ajudar o Portal “A DENÚNCIA” a fazer o seu trabalho de jornalismo de investigação, com imparcialidade, independência e sem medo de ninguém. Seria certamente mais útil receber recursos para investigar do que receber fotografias falsas produzidas por Inteligência Artificial. Por outro lado, se fosse para receber uma casa oferecida por Higino Carneiro, seria mesmo na “Vila Pacífica”? Essas pessoas estão a nivelar-me por baixo. É claro que eu pediria uma casa superior. E sei que Higino Carneiro teria capacidade para tal. Afinal, se a intenção era convencer alguém de que eu me deixaria comprar, ao menos poderiam ter demonstrado algum conhecimento sobre aquilo que pretendiam atribuir-me. A sujidade, porém, não parou por aí. Ontem, quando tentei abrir o Facebook, já não consegui entrar em nada: nem na minha conta pessoal, nem na página do Portal “A DENÚNCIA”, depois de a página já ter sido alvo de bloqueio. Não sei até quando me vão deixar utilizar a conta do WhatsApp e se já estarão a trabalhar para tentar atingir o meu site adenuncia.ao. A conta do YouTube do Portal “A DENÚNCIA”, onde foram publicadas as duas últimas entrevistas, com Sérgio Raimundo e Liberty Chiyaka, continua no ar. Pelo andar da carruagem, a “sujidade” também poderá chegar até lá. Circulam, entretanto, informações segundo as quais especialistas estrangeiros estarão em Angola para trabalhar em operações destinadas a atingir quem se opõe ao chamado “super-chefe”. Não afirmo isso como facto consumado; registo-o como mais um elemento que merece ser observado e, se necessário, investigado. Mas há aqui um detalhe que talvez tenha escapado aos estrategos: quanto mais tentam transformar o jornalista na notícia, mais atenção acabam por chamar para aquilo que o jornalista está a investigar. Quanto mais produzem textos apócrifos, mais evidente se torna a ausência de respostas aos factos que deveriam ser esclarecidos. E quanto mais tentam “sujar” o jornalista, mais pertinente se torna perguntar: quem está realmente preocupado com aquilo que o jornalista Carlos Alberto está a investigar? Se a pessoa visada pelas denúncias é inocente, por que razão não responde às perguntas? Quem sabe que nada tem a dever não deveria ter interesse em esclarecer os factos perante as autoridades competentes e, desse modo, salvaguardar o seu bom nome? Ou será que, depois de tantos poderes, cargos e recursos, já não existe sequer um “bom nome” a preservar? A questão agora ganhou outra dimensão: o quadro sénior do SINSE poderá ser chamado à Assembleia Nacional para explicar aos deputados aquilo que, até aqui, permanece sem esclarecimento público. E é precisamente aí que a conversa deixa de ser uma guerra de publicações nas redes sociais e passa a ser uma questão institucional. Já não será o jornalista Carlos Alberto a ser chamado a explicar aquilo que outros dizem sobre ele. Será o próprio responsável pelo serviço de informações a ter de responder perante representantes do povo. Talvez seja esta a parte que os grandes estrategos não calcularam. Talvez tenham pensado que bastava “sujar” o jornalista para fazer desaparecer a denúncia. Só se esqueceram de uma coisa: uma fotografia falsa pode ser apagada, um texto apócrifo pode ser desmentido, uma página pode ser bloqueada, mas as perguntas continuam lá. E, agora, algumas dessas perguntas poderão chegar ao lugar onde terão de ser respondidas perante os deputados. A verdadeira “bomba”, afinal, pode não estar na Assembleia Nacional. Pode estar simplesmente nas perguntas.

É que os tais “estrategos” e “grandes especialistas em Inteligência” nunca imaginaram, aparentemente, que pudesse aparecer em Angola um jornalista disposto a fazer jornalismo de investigação sobre uma figura tão poderosa e temível como é, supostamente, o general Fernando Garcia Miala, com todos os poderes institucionais, e não só, que lhe são atribuídos. Talvez tenham confundido poder com invulnerabilidade, Inteligência com capacidade de controlo e jornalismo com obediência. Talvez tenham acreditado que bastaria bloquear uma página, fabricar uma fotografia, lançar uma “notícia” apócrifa ou criar uma narrativa sem provas para fazer desaparecer perguntas incómodas. O problema é que jornalismo não se combate dessa maneira. Denúncias respondem-se com investigação; acusações respondem-se com esclarecimentos; suspeitas respondem-se com factos; e jornalistas respondem-lhes, quando necessário, com mais jornalismo. Eu não sei quem produziu aquela fotografia, quem escreveu aquele texto, quem o mandou produzir ou quem o fez circular. Não faço acusações que não possa provar. Mas também não sou obrigado a fingir que não vejo a sequência dos acontecimentos. E a sequência, essa, merece ser analisada. Primeiro, as ocorrências que me atingiram. Depois, o processo que considero intimidatório. A seguir, a participação criminal na PGR contra o chefe do SINSE. Depois, a entrevista com Liberty Chiyaka. Em seguida, o bloqueio da página. E agora, uma fotografia falsa, uma história sem provas e sem lógica e novas dificuldades de acesso às minhas contas. Coincidências acontecem. Mas quando as coincidências começam a formar uma sequência, a Inteligência verdadeira manda investigar, não mandar fabricar mais uma fotografia. Talvez esteja aí a verdadeira ironia de toda esta história: tanta Inteligência, tantos estrategos, tantos recursos, tantos poderes e tanta preocupação com um jornalista, para produzir uma fotografia falsa, uma narrativa sem rigor e uma história que nem sequer consegue acertar no nome de uma urbanização. Depois de tudo isso, cada dia que passa a sociedade começa a perceber que, afinal, esta montanha de “Inteligência” pode ter parido simplesmente um rato. E um rato, por mais que se esforce para parecer leão, continua a ser um rato.

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